Ailton Krenak assina arte em mural na lateral de um edifício no centro de Belo Horizonte
Foto: Tamas Bodolay/ Divulgação
O primeiro indígena da Academia Brasileira de Letras é um dos artistas do CURA 2026, festival de arte pública que cobre laterais de prédios com murais em escala urbana. As pinturas, desde 19 de agosto, podem ser acompanhadas da rua
Ailton Krenak já escreveu livros traduzidos para vários países, virou personagem de documentário e deu palestras dentro e fora do Brasil. Aos 72 anos, vai fazer pela primeira vez uma coisa que nunca tinha feito: pintar um prédio.
Filósofo, escritor, ambientalista e uma das principais lideranças dos povos originários do país, o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras vai assinar uma empena, a parede lateral de um edifício de dez andares, no centro de Belo Horizonte.

A obra é uma das duas pinturas da edição de 2026 do CURA – Festival de Arte Urbana. A pintura teve início em 19 de agosto e pode ser acompanhada da rua, até 30 deste mês. “É impactante pensar no desenho nessa escala de prédio, que vira paisagem”, diz o artista sobre o convite. “Tem um chamado para a subjetividade, para a poesia, para o sonho.”
A outra empena da edição é de Mônica Nador, aos 71 anos, uma das artistas centrais da pintura mural feita no Brasil. As duas pinturas são feitas em paralelo, em dois edifícios do centro da cidade, com início na mesma data.

Nador fundou, na periferia paulistana, o JAMAC, Jardim Miriam Arte Clube, onde as paredes das casas e das ruas são pintadas com padrões criados junto com os moradores. Com isso, a autoria da obra deixa de ser só da artista para ser compartilhada com a comunidade.
O tema de 2026 é Descansar Enquanto. Em uma sociedade atravessada pelo excesso de estímulos e urgências, o festival propõe o descanso não como pausa, mas como posicionamento: um direito ainda não garantido, atravessado por desigualdades de gênero, raça e classe.
A reflexão dialoga com o livro Descansar é Resistir, da norte-americana Tricia Hersey, para quem o descanso é uma recusa ativa às estruturas que operam pela exaustão.
A curadoria artística foi feita com a contribuição da curadora convidada Luciara Ribeiro, pesquisadora dedicada às artes africanas, afro-brasileiras e indígenas e à decolonização da história da arte.

Desde 2017, o CURA cobre fachadas de edifícios de Belo Horizonte com murais de grande escala, feitos por artistas brasileiros e estrangeiros. São mais de 30 prédios pintados, um conjunto que se tornou um dos principais acervos de arte pública a céu aberto do país.
A edição de 2026 é a última de um ciclo que, ao longo de cinco anos, transformou uma praça do centro da cidade em uma galeria vertical, e antecede os dez anos do festival, em 2027.
Além das empenas, a edição traz uma programação gratuita e ao ar livre. Nos dias 26 e 27, seis artistas fazem uma sessão de pintura ao vivo em painéis montados ao ar livre, e as obras ficam expostas até o fim do festival.
A programação reúne ainda um mirante com vista da cidade, travessias de highline entre os prédios do centro, uma mesa de desenho aberta ao público e atividades para crianças e famílias.
No dia 20, o CURA uma promoveu uma programação parceira no Sesc Palladium, que completa 15 anos, com uma nova obra na fachada e uma noite de pintura, dança e cultura ballroom. A edição se encerra em 30 de agosto com a Festa Honk BH.
Serviço
CURA 2026 – Festival de Arte Urbana
19 a 30 de agosto | Praça Raul Soares, Belo Horizonte
Pinturas das empenas a partir de 19/08
Live painting nos dias 26 e 27/08
Programação aberta ao público de 26 a 30/08
Programação parceira no Sesc Palladium 20/08, com pintura do Binho Barreto e programação da House of Barracuda
Programação gratuita, ao ar livre e aberta a todos
Sobre o CURA
O Festival de Arte Urbana (CURA) é um dos principais festivais de arte pública da América Latina. São 11 edições realizadas, oito delas em Belo Horizonte, com mais de 30 empenas de edifícios pintadas.
O festival é uma realização do Instituto CURA, que mantém ainda projetos como o CURA Amazônia e o CURA MACRO. Em 2027, o CURA completa dez anos.


