Adão Ventura tem relançamento de seu livro A Cor da Pele em sua terra natal
O poeta no lancamento de seu primeiro livro, no dia 3 de abril de 1970, na Livraria Moderna, ao lado de Jaime Prado Gouvea
Foto: arquivo pessoal/JPG
Em Santo Antônio do Itambé, a poesia do autor mineiro volta a ecoar entre montanhas e cachoeiras do Parque Estadual, reafirmando sua força como voz da literatura negra brasileira
Neste sábado (18), às 18h, a Câmara Municipal de Vereadores de Santo Antônio do Itambé será palco do relançamento de A Cor da Pele – Poesia Reunida, obra fundamental de Adão Ventura, organizada pelo jornalista, escritor e professor Fabrício Marques.
Logo após a solenidade, o público se reunirá no histórico chafariz da cidade para um sarau poético, onde versos de Ventura serão lidos em voz alta, devolvendo à comunidade a força de uma obra que nasceu de sua própria realidade.
A poesia que nasce da pele e da memória

Adão Ventura nasceu em 5 de julho de 1939, em Santo Antônio do Itambé, então distrito do Serro, Minas Gerais – e faleceu em 12 de junho de 2004, em Belo Horizonte.
Neto de ex-escravizados, cresceu no Vale do Jequitinhonha, vivenciando desde cedo as marcas da opressão racial que se tornariam matéria-prima de sua poesia.
Sua juventude foi marcada pela convivência com a cultura popular e pela contemplação da natureza exuberante da região, que moldaram uma sensibilidade capaz de transformar dor em arte e resistência em palavra.
Publicado originalmente em 1980, A Cor da Pele consolidou Ventura como uma das vozes mais fortes da poesia negra brasileira.
“Para um negro a cor da pele é uma sombra muitas vezes mais forte que um soco. / Para um negro a cor da pele é uma faca que atinge muito mais em cheio o coração.”
O livro, dedicado aos 90 anos da abolição da escravatura, homenageia figuras históricas como Ganga Zumba, Chico Rei e Luiz Gama.
Em versos como “O meu cordão umbilical ainda me prende à terra”, Ventura traduz o vínculo visceral entre sua identidade e sua origem.
Em outro momento, afirma: “A cor da pele é o estigma que carrego, mas também a bandeira que levanto”, condensando sua luta contra o racismo e sua afirmação da negritude.
Fabrício Marques: poeta e organizador

O relançamento ganha ainda mais relevância por ser conduzido por Fabrício Marques, também mineiro, que além de jornalista e professor é poeta de trajetória consolidada.
Autor de livros como Marquises (1992), Samplers (2000), Meu pequeno fim (2002), A Fera Incompletude (2011) e A Máquina de Existir (2018), Marques traz à nova edição não apenas rigor crítico, mas também a sensibilidade de quem conhece a força da palavra poética.
Sua organização do volume, acompanhada de notas e posfácio, recoloca Ventura no centro dos debates literários e culturais contemporâneos.
Sarau no chafariz histórico
O sarau poético após a solenidade simboliza a devolução da poesia ao espaço público.
Ali, entre moradores e visitantes, versos que nasceram da experiência de um neto de ex-escravizados ecoarão junto ao som das águas, reafirmando a ligação entre literatura, memória e natureza exuberante do Parque Estadual de Santo Antônio do Itambé.
Este relançamento é, portanto, um ato de reconhecimento histórico e cultural.
Ao trazer Adão Ventura de volta às ruas e às vozes de sua terra natal, Fabrício Marques reafirma que a poesia é também um gesto de resistência e esperança, capaz de transformar o silêncio em canto e a dor em memória viva.










Parabéns pela matéria sobre Adão Ventura. Ele esteve aqui numa Semana de Literatura