Acervo inédito denuncia escolhas políticas que aprofundaram a tragédia da covid-19 no Brasil
Imagens: Reprodução/ Acervo SoU Ciência
Pesquisadores do SoU Ciência, da Unifesp, lançaram um acervo digital que reúne mais de 200 registros de condutas e discursos anticiência visando preservar a memória, combater a desinformação e reforçar a luta por justiça e reparação
Por Karinne Marieta Carvalho*
Letícia Sarturi Pereira**
Mais um Natal marcado pela ausência. As cadeiras vazias à mesa tinham donos, eram pessoas que, ano após ano, ocupavam aquele lugar e enchiam a casa de vida. Eram as nossas pessoas. Hoje, porém, o Natal carrega o silêncio de quem não está mais aqui. Muitas ausências poderiam ter sido evitadas, se as decisões de enfrentamento à pandemia de covid-19 tivessem sido diferentes.
Pesquisadores do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU Ciência), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lançaram um acervo digital que reúne mais de 200 registros de condutas e discursos anticiência, além de práticas negacionistas, evidenciando a política da morte praticada durante a pandemia de covid-19 no Brasil.
A iniciativa desenvolvida por pesquisadores da Unifesp, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), contou ainda com a colaboração dos grupos de mídia independente Medo e Delírio em Brasília e Camarote da República, além da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (AVICO Brasil) e do Centro de Pesquisas em Direito Sanitário da USP (CEPEDISA/USP).
Juntos, eles organizaram um repositório que expõe como agentes públicos e privados atuaram em desacordo com as evidências científicas, com a ética médica e com a gestão responsável de políticas públicas, desencadeando uma condução desastrosa que contribuiu para a morte de mais de 700 mil brasileiros, a maior tragédia sanitária da história do país.
O material, disponível gratuitamente ao público, compila documentos e outros registros que podem subsidiar ações judiciais de familiares de vítimas e apoiar pesquisas que buscam compreender os impactos das decisões tomadas entre 2020 e 2022.
Lançado oficialmente em março de 2025, o acervo está hospedado no repositório digital da Unifesp, na plataforma Tainacan.
Lá, o público encontra vídeos, áudios, documentos oficiais e registros de falas públicas que evidenciam contradições, omissões e ações que aprofundaram a crise sanitária. Muitas das peças são autoincriminatórias e revelam, segundo os pesquisadores, a engrenagem de um “necrossistema” que agravou a tragédia.
O material está organizado em 17 temas, como Uso de máscara, Contágio e imunização de rebanho, Tratamento precoce, Lockdown e o impacto na economia, Ética e autonomia médica e o Caso de Manaus, e 16 categorias de agentes envolvidos.

A navegação pode ser feita por tema, por ator ou por meio de busca direta. O repositório segue em expansão, recebendo novas contribuições de forma contínua. As contribuições já recebidas estão em processo de análise, a fim de determinar sua veracidade, adequação e relevância para o acervo.
É importante também destacar o papel do acervo no combate à desinformação propagada durante a pandemia de covid-19. Itens que apresentam discursos contrários às evidências científicas recebem um selo de alerta: Atenção! Conteúdo Anticiência.
Por isso, esse tipo de material também conta com a seção “O que diz a ciência”, que contextualiza e corrige as informações falsas com base no conhecimento científico disponível à época dos fatos e no consenso acumulado desde então. A proposta é não apenas registrar as violações, mas também oferecer instrumentos de enfrentamento à desinformação.
Para seus idealizadores, o acervo reforça o compromisso coletivo de evitar que tragédias como a vivida na pandemia de covid-19 se repitam. O projeto reafirma que memória, verdade, justiça e reparação devem ser pilares indispensáveis para construir um futuro em que a vida prevaleça sobre a política da morte.
Para acessar o acervo clique: https://acervopandemia-souciencia.unifesp.br/
*Karinne Marieta Carvalho tem mestrado, doutorado e pós-doutorado pela UFRJ. Pesquisadora do SoU_Ciência/Unifesp e da Fiocruz.
**Letícia Sarturi Pereira tem mestrado em Imunologia pela USP, doutorado em Biociências e Fisiopatologia pela UEM. Pesquisadora do SoU_Ciência/Unifesp.








