Barba Azul – há 95 anos
Praça Sete (2019), de Wagner Bottaro (1958-), de Belo Horizonte
Foto: Wagner Bottaro/ Reprodução
|Sob este pseudônimo, Drummond assinou a seção “Um minuto, apenas”, no Minas Gerais (1931). A seção compunha-se geralmente de uma ou duas crônicas curtas, acompanhadas muitas vezes de transcrições de poemas alheios, traduções de poesia estrangeira, ou composições do próprio Drummond assinadas por pseudônimos diversos. Fernando Py |
Crônica sem H
Barba Azul
(21.6.1931)
Ontem pela manhã, ao ser informado de que a ortografia fonética passou a ser ortografia de todos nós, o meu primeiro impulso foi expedir telegramas aos amigos, comunicando: a Ciro dos Anjos, que o Y desapareceu do alfabeto português; a Otávio Ferreira, que já não há mais lugar para o c decorativo do seu nome; a Cristôfono Fonte Boa, que a inovação liquidou com o ph; a Wellington Brandão, que não pense em nacionalizar a sua certidão de batismo.
É esse o esporte que toda a cidade está cultivando no momento: saber como é que Fulano escreverá o seu nome, antevendo, com maldoso pesar, as dificuldades com que o hábito salteará os Seyita, os Tymburimbá, os Ignácio, os Jeovah de antigamente, obrigados de súbito a raspar as barbas e os bigodes ortográficos que os adornavam, e passando a mão espantada no queixo, a procura dos yy, os gg, os hh pleonásticos e desparecidos…
Houve quem telefonasse insistentemente para um senhor chamado Astolpho Cherubim de Mattos Moraes, só para participar-lhe que estava intimado a depor os ph, os ch, os tt e o que constituíam a sobressalente e, talvez a alegria única do seu nome.
Eis ai: a volúpia de ver o vizinho com o nome estragado. Ninguém pensou na simplificação geral da vida, no esforço economizado, na delícia de escrever física em lugar de physica e de não errar mais na palavra retórica.
Ninguém refletiu que a atmosfera ficou mais leve e que só açúcar não mudou de gosto. O trabalhão que era atinar com o e da palavra anecdota (antes do d ou do (?)), que fazia muita gente deixar de rir da mesma, e outros trabalhos menores da escrita, ninguém levantou as mãos ao céu por eles terem acabado. Só os possíveis efeitos humorísticos e tirar dos nomes próprios divertirem a todos. Assim é a humanidade, com ou sem h, mas sempre com malícia.
Receita de doce
(21.6.1931)
Faça este doce para a sobremesa de hoje:
Algumas maças descascadas. Cortam-se em pedaços de tamanho regular e põem-se num prato fundo. Salpica-se com açúcar e rega-se com rum; de vez em quando sacode-se o prato, que deve estar coberto. Meia hora de maceração.
Põem-se numa tigela três colheres de farinha de trigo (50 gramas), juntam-se duas gemas, uma pitada de sal, outra de açúcar, uma colherinha de conhaque e outra de azeite. Tudo isso é misturado com carinho, juntando-se um pouco d’água, que baste para formar uma massa rala.
Mergulha-se cada pedaço de maçã na massa e frita-se na gordura ou no azeite. E aí temos uns excelentes beignets de maçã, que podem ser caramelizados com um pouco de açúcar cristalizado por cima.
Serve-se tout de suite.
Doce incomível
(22-23.6.1931)
Recebi, hoje, pela manhã, a carta que dou abaixo:
“Sr. Barba Azul….. Quando acabei de fazer o doce que o sr. recomendou na sua palestra de ontem com os leitores do “Minas”, e que o provamos, meu marido virou-se para mim e disse: Mande isso para o Barba Azul, com um cartão perguntando se foi com uma droga dessas que ele matou as suas mulheres?”
Palavra que tive vontade de fazê-lo, mas como as mulheres não devem nunca obedecer aos maridos, porque senão eles abusam, deixo de enviar o doce, mas envio estas linhas.
É o cumulo, sr. Barba Azul! O sr. subscrever uma receita de sobremesa onde entra azeite em doce de maçã! No fundo, eu fui uma boba de experimentar em casa as suas receitas de doce. Se visse a cara de meu marido depois que provou o prato, decerto deixaria de ser doceiro. No mais, continuo sua admiradora, em termos. L… de S…”
Peço perdão a minha gentilíssima correspondente e ao seu marido. A receita saiu com um erro de revisão. Onde está “depois de frito, serve-se tout de suite”, devia estar “joga-se fora imediatamente”. Eu peço perdão.
Casou-se aos 108 anos de idade
(22-23.6.1931)
Continuo lendo minuciosamente os jornais. Eles ainda são o melhor repositório de fatos e notações humanas. Encontro agora o seguinte: João José Rodrigues, 108 anos, veterano do Paraguai, casou-se há dias com uma menina de 18. Com um espaço de 90 anos entre si, os dois amaram-se e tiram uma fotografia em que, ao contrário dos grupos clássicos, ela está firme, de pé, e ele sentado, coberto de medalhas.
O velho desfia para a garota as suas memórias heroicas: foi corneteiro em Monte-Caseros, preparou mate para o general San-Martin e tomou parte em diversas revoluções. Jamais caiu prisioneiro. Isto é: caiu aos 108 anos, embora, num sorriso sem dentes, afirme glorioso:
E não cairei nunca!

O povo diz porque sabe
(28.6.1931)
Para marido “rueiro” tornar-se caseiro, basta a mulher arrancar-lhe alguns fios de cabelo, quando estiver dormindo; depois dar um nó e colocar em baixo de um pé de mesa. Se o marido acordar no momento em que se arranca o cabelo, isso corta o efeito.
– Um fio de cabelo de mulher, colocado numa vasilha com água, no fim de sete dias vira cobra.
– Não empreste nem peça emprestada agulha nem linha de coser. É intriga na certa.
– Conte 21 estrelas em 21 noites seguidas, e na última noite sonhará com quem vai se casar.
– Quem rezar o Credo de trás para diante ouvirá o rumor do inferno.
– Homem casado que apanha de mulher é porque em criança brincou com boneca.
Poema das namoradas mineiras
(5.7.1931)
Uma namorada em cada município – os municípios de Minas são duzentos e quinze – Mas o verdadeiro amor onde se esconderá – em Varginha, Espinosa ou Caratinga?
As estradas de ferro encaminham a correspondência – a esperança é verde como os telegramas – uma carta para cada uma das namoradas – e o amor vence a divisão administrativa.
Para Teófilo Otoni o beijo vai por via aérea – os carinhos do sul pulam sobre a Mantiqueira – mas as melhores, mais doces namoradas – são as de Santo Antonio do Monte e Santa Rita.
No Oeste, na Mata, no Triangulo – ao Norte de Minas há saudades e ais – os suspiros sobem do vale do Rio Doce – e o rio São Francisco carrega as mágoas.
Enquanto na capital um homem indiferente – frio, compulsando mapas sobre a mesa – põe o amor escrevendo no mimeógrafo – a mesma carta para todas as namoradas.
A novíssima ortografia
(16.7.1931)
A nova ortografia continua sacudindo o pó das palavras, suscitando brigas etimológicas e dúvidas semânticas. No tumulto das letras que desapareceram e das consoantes que deixaram de andar aos pares, percebem-se lamentações de vocábulos que resultaram estropiados, enquanto outros, cheios de espanto, verificam que se enriqueceram com alguns ornatos.
E no meio de tudo isso, há os entendidos, que dizem como é que se deve escrever tais vocábulos e como não se deve escrever tais outras.
Os vocabulários vão aparecendo e, regra geral, só consignam as palavras que ninguém usa, grafadas de maneira que a ninguém interessa. Abra-se ao acaso um desses tira-dúvidas e lá se encontrarão; gazofilácio, cosmosófico, bacalaureado, acridofagis… Para mim, são palavras mortais: usá-las uma vez é moléstia grave e certa.
É a nova ortografia, dizem. Porém, o sr. Brito Mendes, que também é douto, inventou agora a novíssima ortografia, e, entre outras, oferece-nos esta pérola: circunnavegar. Apenas com dois nn: para evitar naufrágios.
Morar
(23.7.1931)
Em 1900, construíram-se 175 casas em Belo Horizonte. Em 1931, só no primeiro semestre, construíram 714. São, em média, quatro casas por dia. Ponhamos: uma no centro, outra em Santo Antônio, outra na Floresta, outra no Acaba-Mundo.
Em um dia, na cidade, quatro pessoas ficam felizes, uma vez que, como se convencionou, a felicidade está na casa que a gente plantou no chão. Em um ano são 1.460 pessoas morando sob teto próprio e considerando esta vida a melhor de todas. Em dez anos serão 14.600 pessoas felizes. Em cem anos…
Certamente não viveremos até o dia em que toda a população de Belo Horizonte será feliz dentro de seus cottages e seus bungalows. Mas os nossos netos ou os nossos trinetos farão a estatística da felicidade urbana.
Nesse dia não haverá um hotel em Belo Horizonte. Nem uma pensão. Todas as habitações serão particulares. Então aparecerá um homem estranho, propondo essa coisa inaudita: não morar. Ou morar na rua. Dirá que a alegria da vida reside na falta de bens imóveis. Pregará a decadência do sweet home. E toda gente ficará com inveja desse homem que não tem casa e que é (ou deve ser) feliz.
Aí a vida mudará de novo…

Perereca
(22.7.1931)
Quem aprecia caricaturas sonoras teve há dias um alegrão com o fim da perereca que abriu um salão de barbeiro. O salão da perereca era musicado e cantado. Os bichos entravam e a cadeira recebia-os de braços abertos. A navalha da perereca era afiada a um ritmo de fox-trot. E a um dado momento: barbeiro, manicure, engraxate, cliente, todo mundo começava a cantar e dançar, e afundava-se no assoalho.
A perereca, ser eminentemente musical, incorpora-se assim no rol dos grandes artistas de cinema. Ao lado de Greta Garbo, de Stan Lauret, de Oliver Hardy e de John Barrymore, a perereca de MGM terá os seus fãs, os seus detratores e os seus partidários. Ia-me esquecendo: ao lado de Carlito também.
Pouco importa que a perereca não exista de fato. Existirá acaso Carlito? Há a sombra de Greta Garbo, a sombra de Ramon Navarro a sombra perereca. Assim como tal a sombra leitor e a sombra realidade.
Uma xícara de chá
(8-9.9.1931)
Domingo que vem, todas as pessoas elegantes de Belo Horizonte, menos os cronistas, que geralmente não o são, irão tomar chá no grupo escolar “Afonso Pena”. A tarde e a noite serão frias e meigas.
O ambiente será aconchegante, mineiro e ao mesmo tempo raffiné. O chá será um pretexto. Há tantos pretextos neste mundo! Os que gostarem com pouco açúcar, poderão toma-lo com mais flirt.
Nota importantíssima: não será proibido dançar, como em certas festas que nós, ai de nós! Conhecemos.
Contra a polícia feminina
(18.6.1931)
Eu tenho um medo da polícia feminina! Medo teórico é claro, porque a polícia feminina, graças a Deus, começa por não existir. Ou existe apenas na Inglaterra, país frio de clima, e, portanto já policiado pela natureza. Entretanto, não sei que secreto pavor me causaram essas distintas policewomen que acabam do desembarcar do Highland Brigade para mostrar ao Brasil o que é uma mulher brincando de prender.
Talvez o receio de que a instituição, benigna na Inglaterra, se transplante, com caráter maléfico, para essas terras e nós tenhamos daqui a pouco as mulheres conduzindo gente para a delegacia ou montando guarda aos dinheiros da Caixa Econômica.
Que as mulheres tem faro policial está nos livros e na vida. Que o exercem não se pode negar. Mas tudo isso na ordem doméstica, intramuros. Que treinem, desenvolvam e – pratiquem esse faro cá fora, na polícia de carreira, criando um novo corpo de investigadores, uma nova equipe de detetives ou um novo tema de guardas-civis, isso, porém, me parece excessivo e de molde a aumentar de muito a criminalidade.
A polícia é ou deve ser por definição invisível. Ora, a mulher-polícia fará tudo para se tornar observada dos transeuntes e até mesmo dos delinquentes, que irão delinquir mais longe e passarão a policiar a polícia.
A mulher-polícia, se for bela, atrairá os criminosos e há entre nós homens tão mulherengos que serão muito capazes de, apesar de inofensivos, matar um sujeito ou assaltar uma joalheria só para serem presos por uma agente de policia nessas condições. Em suma, onde houver a mulher-polícia haverá o delito, quando o contrário é que devia acontecer.
Nós brasileiros temos uma grande ternura pelo guarda-civil. Em geral é um individuo que olhamos com estima e a quem oferecemos um cigarro, pela madrugada, depois da ceia. Ora, imaginem a guarda-civil feminina, multipliquem essa ternura por dez, e avaliem o consequente descalabro do policiamento.
A polícia é secreta, e as mulheres ignoram o sentimento desse adjetivo. Uma diligencia ou uma investigação tornar-se-á qualquer coisa de público e notório como um comício na Praça Sete, em que todos falam e só o orador escuta. No caso, o orador será o criminoso e a polícia será todo mundo.
Finalmente, é muito possível que, diante de uma agente nervosa, o ladrão que se dispunha a dobrar a esquina desça do carro e vá piedosamente socorrer a polícia que deu um chilique.
[Fonte: Minas Gerais (1931) – Pesquisa: Cristina Silveira]








