Artur L. Gomes – há 95 anos
Mina de ferro, Itabira, CVRD, 1976, de Djanira Santos (1914-1979), de Avaré-SP. Coleção Luiz Carlos Ritter, Rio de Janeiro
Foto: Jaime Acioli/ Cortesia
|Assina apenas a crônica A rua assombrada, na seção “Um minuto, apenas” (Minas Gerais, 10-06-1931). Mais tarde incluída em Confissões de Minas (1944), faz parte da seção Caderno de Notas. Fernando Py|
Um minuto, apenas. A rua assombrada
Artur L. Gomes
É meia-noite, e no absoluto silêncio passa o cavaleiro fantasma pela rua velha de Nossa Senhora da Conceição.
Ouço as ferraduras martelando, metódicas, as pedras de ferro, compondo a música elementar do burro em movimento, o burro que carrega o homem horrível, sem nariz, sem olhos, sem boca, e, entretanto, fazendo uma notável careta de riso perverso.
O ruido era leve com o princípio da rua, nítido e igual em frente à minha casa, mas como se perde e volta ao silencio na rua que desce, nas pedras cada vez mais longe, essas pedras que apenas esperam o aviso dos relógios para ressoar sob os passos do burro fantasma.
O cavaleiro não tem pressa.
Há muitos anos, nesta mesma hora, passa pela rua velha de Nossa Senhora da Conceição, com o mesmo sorriso pirogravado no rosto incrível, e as mãos, muito extensas segurando a rédea do animal, que também não tem pressa.
Amanhã eles voltam.
E depois, de amanhã também. E depois, e depois de depois. A menos que os últimos rapazes do mundo se lembrem de fazer uma serenata – mas com esse frio! De cada lado da rua, as casas contemplam imóveis o fantasma pontual, que nunca se lembrou de descer do animal para bater a uma porta e, quem sabe? pedir um fósforo, por obséquio, ou fazer uma aparição cinemática no comprido corredor onde as crianças depositam os seus sonhos mais noturnos.
[Fonte: Minas Gerais, 10-06-1931 – Pesquisa: Cristina Silveira]









