Raulino Feijó – há 97 anos
Guernica (1937), é o maior símbolo antimilitarista da história da arte, de Pablo Picasso (1881-1973), de Málaga, Espanha
Arte; Reprodução/ MCS
|Assina a nota que precede a transcrição de um poema, “Meu pobre amigo”, e cuja autoria atribui a Constantino Serpa, recentemente falecido. Como sabemos, “Constantino Serpa” é pseudônimo de Drummond. A publicação é do D. de Minas (BH, 17-10-1929). “Raulino Feijó” faz parte igualmente de uma lista de pseudônimos fornecida pelo próprio Drummond. O poema “Meu pobre amigo” compõe-se de quatro quintetos em versos livres. Vem precedido de nota, assinado por Raulino Feijó, na qual este declara vir do enterro, bastante concorrido, de seu amigo Constantino Serpa (outro pseudônimo de CDA), e ao qual atribui o poema. Explica, em suma, em tom compungido, que Constantino Serpa foi morto por um indivíduo aborrecido, isto é, de tanto se aborrecer com o mesmo. Fernando Py |
Meu pobre amigo
Raulino Feijó
Venho do enterro (bastante concorrido) de meu amigo Constantino Serpa. Tenho lágrimas nos olhos. Esse moço tão bom, tão fino, tão digno perdeu a vida em uma tragédia lenta e obscura. Assassinaram-no. Mas não foi nem a tiros nem a pauladas. O criminoso usou de uma arma terrível e solerte, que não deixa vestígios e não falha nunca: a caceteação. Constantino Serpa foi vitimado pelo maior cacete da América. Prova-o, o seu último poema (Constantino era dado às musas), encontrado por mim no bolso do paletó do poeta covardemente assassinado:
Meu Deus, livrai-me do major Sobral
major Tertuliano Implacável Sobral,
homem careca, liso e maneiroso,
de voz lenta e baixa, passo metódico e imperturbável,
que lentamente envenena a minha vida.
Meu Deus, eu queria que o major Sobral
fosse deportado para a China ou para a Sibéria,
ou quem sabe se não seria melhor fuzila-lo sim! Fuzilar energicamente o major Tertuliano Sobral, réu do crime de alta caceteação.
Eu julgo o major Sobral responsável pelo calor,
responsável pelos assassinatos, incêndios, e suicídios,
por tudo o que de mau se alastra no planeta,
inclusive este meu desespero profundo, profundo,
esta angustia que não é freudiana, que é simplesmente sobralinas.
Meu Deus, eu sei que morro antes de acabar esta prece.
Ouço, no corredor, os passos de Sobral.
Será a minha vez… Os passos lentos e metódicos…
A última vez… A voz baixa e lenta… A voz eterna…
Meu Deus! Mais uma vítima do major Tertuliano Sobral.
Por cópia conforme.
[Fonte: D. de Minas (BH, 17-10-1929 – Pesquisa: Cristina Silveira]








