Morre Nilo de Almeida Brugnara, dono do icônico bar da pracinha do Pará

Fotos: Carlos Cruz

Ex-alfaiate, boêmio e anfitrião de gerações de itabiranos, Niloca deixa aos 88 anos um legado de amizade, cultura, convivência e amor à cidade

Carlos Cruz

Faleceu na noite desta quinta-feira (22), o ex-alfaiate Nildo de Almeida Brugnara, aos 88 anos, vítima de câncer contra o qual lutava há vários anos.

Deixa os filhos Fabiano e Luciano, noras e netos. Familiares e amigos podem prestar as últimas homenagens nesta sexta-feira (23). O velório terá início às 12h, no Cemitério da Paz, em Itabira. O sepultamento está marcado para as 16h, no mesmo local.

Depois de abrir a sua própria alfaiataria na esquina mais famosa da pracinha do Pará, nos anos 1970, Nilo percebeu que, com o grande fluxo de amigos que frequentavam o local, vender cerveja gelada e salgados começou como um complemento de renda, mas logo se mostrou uma atividade mais lucrativa.

Aos poucos, a alfaiataria deu lugar ao famoso Bar do Nilo, por onde passaram gerações de itabiranos, boêmios, notívagos, estudantes, trabalhadores, músicos, sindicalistas, jornalistas, artistas, sonhadores que buscavam transformar utopia em realidade.

Seu bar tinha o dom de agregar e unir, um território livre que tinha a própria pracinha como extensão natural do estabelecimento.

Boêmio assumido, gostava de interpretar clássicos de Nelson Gonçalves, com um vozeirão que impressionava pela semelhança com o do cantor que tanto admirava. Mais que dono de um bar, Nilo tornou-se personagem inseparável da história afetiva de Itabira.

Muito além de um bar, um território de cultura e liberdade
Nilo com recorte do jornal O Cometa em que é homenageado por Altamir Barros: “o jornal sempre me deu muita força.”

O Bar do Nilo jamais foi apenas um estabelecimento comercial. Era um ponto de encontro, um espaço de convivência democrática onde cabiam todas as tribos, todas as idades e todas as opiniões.

A cerveja gelada era apenas um pretexto para o que realmente importava: a amizade, os namoros, a boa música, a conversa sem hora para acabar e o prazer simples de estar junto.

Foi ali que, ao longo de décadas, se fortaleceram laços de solidariedade e companheirismo. Debates sobre política, futebol, literatura, música e os destinos da cidade misturavam-se às gargalhadas, às serenatas improvisadas e às canções que muitas vezes eram compostas na própria pracinha.

O bar tornou-se também palco de importantes articulações culturais e políticas. Foi onde amadureceram iniciativas como o Cineclube Lima Barreto, grupos de teatro, o jornal O Cometa Itabirano, movimentos sociais e discussões que acompanharam a reorganização da sociedade brasileira durante o processo de abertura política – e também o surgimento do Partido dos Trabalhadores, em 1980.

Nilo e Rosa, sua companheira de vida e de trabalho, já falecida. Juntos construíram a história do Bar do Nilo, ela responsável pelos quitutes e salgados que ajudaram a conquistar gerações de frequentadores (Foto: Eduardo Cruz)

Naquele período de transição entre a ditadura militar e a redemocratização, o Bar do Nilo consolidou-se como um dos mais vivos espaços de expressão cultural de Itabira.

Artistas encontravam ali acolhimento, músicos faziam apresentações espontâneas e novas ideias surgiam ao sabor das conversas ao redor do balcao e mesas, ocupando naturalmente toda a extensão da pracinha do Pará.

Era comum encontrar no mesmo ambiente trabalhadores recém-saídos do expediente, estudantes, jornalistas, poetas, sindicalistas, intelectuais e artistas, além de personagens populares da cidade, como Guerrinha, Nandy, Marlene, Xexéus e Bantan.

Poucos lugares conseguiram reunir com tanta naturalidade pessoas tão diferentes, unidas por uma mesma disposição para celebrar a vida, a amizade e a liberdade. Ali, a cultura circulava sem formalidades e a arte acontecia espontaneamente.

Du Cruz, Cristina Silveira e Altamir Barros: fregueses assíduos

No Bar do Nilo ninguém era estranho. Quem chegava pela primeira vez era recebido como velho conhecido. Quem se afastava por anos encontrava, na volta, o mesmo abraço, a mesma acolhida e o mesmo sentimento de pertencimento.

Com o passar do tempo, para dizer a verdade, desde o início, a pracinha do Pará e o Bar do Nilo transformaram-se numa coisa só.

Tornaram-se referências inseparáveis da memória afetiva itabirana. Afinal, durante décadas, foi ali que uma parte importante da vida cultural, política, boêmia e sentimental de Itabira encontrou abrigo, voz e amizade.

O reconhecimento em vida e a volta do boêmio
Ronildo, barman, Lúcio Sampaio, ex-editor de O Cometa, ambos já falecidos, e Quintiliano Guerra, na época em que virou um dos “donos” do bar (Foto: Eduardo Cruz)

Em 2017, Nilo recebeu uma das mais significativas homenagens de sua trajetória ao ser escolhido pelo bloco carnavalesco Madalena não Gosta de Poema como símbolo da memória afetiva, carnavalesca e cultural de Itabira.

A homenagem reuniu diferentes gerações de frequentadores e amigos, que reconheceram publicamente a importância daquele homem simples para a história da cidade. Foi um momento de emoção, gratidão e justiça.

Afinal, poucos personagens contribuíram tanto para a construção de um ambiente de convivência genuinamente popular, como é também o carnaval.

Nilo preparando uma caipirinha: cachaça com limão (Foto: Eduardo Cruz)

O fechamento do bar, anos atrás, em razão da persistente implicância de um vizinho que não suportava a alegria e a movimentação características do lugar, deixou um vazio na vida noturna e cultural de Itabira.

Muitos viram naquela interrupção uma derrota da convivência e do espírito comunitário que sempre marcaram a pracinha do Pará. Parecia que um ciclo havia se encerrado.

Mas a história de Nilo ainda reservava um capítulo especial.

Em maio de 2024, o lendário Bar do Nilo voltou a abrir as portas, por meio de seu filho Luciano, devolvendo à pracinha do Pará parte de sua vocação para os encontros, a música e a amizade.

Nilo teve a felicidade de acompanhar esse retorno, rever antigos fregueses, receber novamente o carinho dos amigos e cantar, mais uma vez, os clássicos de Nelson Gonçalves que marcaram sua trajetória.

Foi assim que o velho boêmio pôde experimentar a alegria de ver o seu bar renascer sem a responsabilidade diária de comandar o balcão e cuidar para que nada faltasse.

Pela primeira vez em muitos anos, pôde desfrutar daquele espaço como seu frequentador mais ilustre, reencontrando amigos e celebrando a vida naquele espaço que se tornou um verdadeiro patrimônio afetivo e cultural de Itabira.

O legado que fica
Luciano, Nilo e Evandro Zacarias, freguês de ontem e que retorna com a reabertura do bar

Talvez o maior legado de Nilo Almeida Brugnara não esteja no histórico balcão do seu bar, nem nas incontáveis cervejas servidas ao longo dos anos, mas nas amizades que cultivou e ajudou a construir.

Poucos em Itabira tiveram o privilégio de acompanhar, durante uma existência inteira, a formação de tantas amizades verdadeiras.

Mais raros ainda são aqueles que conseguem reunir ao seu redor pessoas de tantas gerações, profissões e visões de mundo, fazendo com que todas se sintam igualmente acolhidas.

Nilo possuía esse dom e esse é o legado que fica.

Descanse em paz, Niloca

Por isso, sua morte entristece Itabira, mas também desperta um profundo sentimento de gratidão por uma vida vivida com autenticidade, simplicidade e generosidade.

Gratidão também por ter transformado um simples bar em um dos mais importantes espaços de convivência da cidade, mas também por ter demonstrado que os verdadeiros patrimônios de um povo não são feitos de obras em concreto, mas de afeto, memória e amizade.

Itabira agradece a sua gentil presença entre nós, a amizade que distribuiu sem distinções, a companhia que ofereceu a tantas gerações e a alegria que semeou por onde passou.

Enquanto houver amigos reunidos em torno de uma mesa de bar, uma boa conversa correndo solta e uma canção alegrando a noite itabirana, haverá sempre um pouco de Nilo entre nós.

Com a sua partida ficam a saudade, o exemplo e a lembrança de um homem que transformou amizade, acolhimento e convivência em patrimônio imaterial de Itabira.

Em tempos de intolerância, individualismo e pressa, Niloca fez exatamente o contrário: reuniu pessoas, aproximou diferenças e demonstrou que a fraternidade ainda é possível.

Durante décadas, transformou em realidade a utopia simples e generosa de uma cidade mais humana, onde todos têm lugar à mesa, voz na conversa e direito à alegria.

Obrigado, Niloca. Itabira não vai esquecê-lo. Descanse em paz.

Posts Similares

4 Comentários

  1. Que linda homenagem!
    Muito obrigada.
    E aqui, acrescento o Nilo na família: meu tio.
    Carismático, afetuoso de abraço forte e beijo na bochecha da gente. Não tinha tempo ruim para ele. Deixa para nós um legado de simplicidade, humildade , honestidade e de celebração à vida. Sempre.

  2. senhor diretor,
    que Nilo é esse, hein, de tanta importância na vida de tanta gente na e da história de Itabira.
    Sabe o que falta para um texto tão precioso, para uma síntese tão cheia de vida e transformações coletivas e únicas por serem muitas, uma assinatura do autor.

    — sem medo de errar: Carlos Cruz .

    está tudo na matéria, até escondidas nos tantos encontros, os amores acontecidos ao “som” das noites e tardes no Nilo, o bar e sua extensão, a pracinha do Pará de Itabira.

    tantos namoros. tantas paixões repentinas, de um tempo rápido, curto, duradouro e pra sempre.

    As ardentes noites no Nilo rivalizam com os porres homéricos, as conversas, as potocas e as que preparavam as revoluções.

    Ou as coisas à toas, sem ou com nexo. ah, a alegria. nossa, Como foi bom tanta noite devassa e as calmas discussões culturais.

    o bar vive de novo, dizem-me. Quem viveu na praça e no bar do Nilo sempre soube: é uma história imortal.
    Mesmo que algum dia num futuro qualquer não haja mais nem bar do Nilo nem uma Itabira para ser chamada de sua. de nossa. dos que virão.

    Valeu, Nilo. Eu que sou um garrucheiro/Itabirano do Matto-Dentro, nascido e sendo da capital (caipira da capital também é do mundo), sinto que vivi para entrar nessas loucuras todas. Mergulhei com muito prazer, e muito do que vivo hoje vem certamente do Bar que Nilo regeu.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *