Viva, viva, viva, Itabira! Viva Drummond
Arte: Genin
“Outubro é data memorável gravada em nossas retinas entumescidas do magnético pó de ferro, da depredação ininterrupta e do estigma da ‘derrota incomparável’. Entretanto, o “ouro” de Itabira não exaure, dado que o alento, a perspectiva de futuro é o itabirismo que o romancista e pintor Cornélio Penna semeou em cada um de nós.” Maria Cristina
Graça Lima*
Em 30 de setembro de 2026, esta Vila de Utopia publicou o artigo “Os Carlos da vila de utopia e a trajetória de uma crônica” em que a nossa habilidosa e competente pesquisadora Cristina Silveira, de um jeito muito especial, organiza e apresenta a crônica “Centenário da Vila da Utopia”, de Carlos Drummond de Andrade , publicada, inicialmente, nos jornais Minas Gerais e A Tribuna em 07/10/1933.
Esmiuçando a trajetória dessa crônica, Maria Cristina ( assinatura de seu texto, num lance que se esclarecerá depois), dedica essa incursão ao jornalista Carlos Cruz, idealizador desta revista eletrônica que, seguindo os passos de O Cometa Itabirano, sempre tem como pauta a vida e obra do outro Carlos, o poeta itabirano.
Nessa mesma edição, a Vila de Utopia apresenta seu programa de homenagem à cidade de Itabira a partir de primeiro de outubro: publicação de Drummond por meio de seus pseudônimos, de “abreviaturas e siglas, bem como qualquer forma do nome do poeta que não seja a de sua assinatura literária usual, isto é, Carlos Drummond de Andrade. Essa proposta se inspira na pesquisa pioneira de Fernando Antônio Py de Mello em a “Bibliografia Comentada de Carlos Drummond de Andrade” (1980) e em outros tantos infindáveis materiais que não escaparam ao olhar aguçado de Cristina Silveira.
Ideia tão original essa de realçar a obra de Drummond não a partir dos textos em si, mas da perigrafia textual , expressão aqui entendida como quaisquer inscrições que margeiam o texto como título, autoria, epígrafe, referência bibliográfica, nota de rodapé, ilustração, dedicatória, entre outras. No caso específico, ou seja, na abordagem dos sobrenomes drummondianos, o trabalho de Cristina é exemplar.
Afinal, como Drummond assume a autoria de seus textos em momentos inaugurais e em diferentes períodos de sua criação? Que espírito lúdico e zombeteiro, que “eu” disfarçado, que multiplicação de si mesmo, que disfarces encontram-se na variedade de signos, símbolos e outros traços de uma acrografia tão variada? A quem o poeta atribui a responsabilidade pela criação?
Venho acompanhando, dia a dia, as publicações da seção “Outubro itabirano” e me deparo com tantos, múltiplos e curiosos sujeitos, reclamando autoria como a dizer “Sou Eu”: Wimpl; Carlos Drummond Andrade (sem o de); Carlos Alberto; C; L; I; C.Drummond; C.Drummond de Andrade; C.Drummond D’Andrade; CÊDÊÁ; CÊ DE Á; Cê/DÊA; CEDA, Carlos Drummond; Carlos; C.D.; D; Manoel R.Garcia; A.P.; Januário Bueno;J.Bueno, etc,etc.
E devem vir por aí os mais conhecidos Antônio Crispim e Barba Azul em meio a um cortejo de mais de cem, segundo Py e Cristina. A beleza da matéria está no trabalho exaustivo da pesquisadora em apresentar, para a maioria das assinaturas, títulos de poemas ou poemas em prosa e, pelo menos, um exemplar de texto publicado sob tal ou qual rubrica.
O poeta português Fernando Pessoa criou seus heterônimos – personas autônomas com biografias , visões de mundo e estilos próprios: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa – ele mesmo, para citar os mais conhecidos. No caso de Drummond, seria interessante pesquisar o que é possível identificar, em termos de identidade literária, os traços comuns aos textos que se agrupam sob a variedade de assinaturas escondidas numa instigante pseudonímia.
Seguimos lendo com entusiasmo as publicações em homenagem a Itabira, que, segundo a revista, entrarão novembro adentro tal a quantidade de pseudônimos, marcas, vestígios de autoria criados pelo poeta.
Parece-me que a pesquisadora foi contaminada pelo objeto de sua pesquisa. Assinou Maria Cristina e não Cristina Silveira como sói acontecer. Entro nessa onda e assino G.L.
Viva Itabira! Viva o Outubro Itabirano! Viva Drummond!
*Graça Lima é professora de Literatura e Língua Portuguesa.










Graça, querida. Você comoveu-me, emocionou-me, os meus olhos lacrimejam. Obrigada. Mas o mérito é do Fernand Py, eu segui o fio condutor que ele nos abriu.
Saudações com muito afeto