Januário Bueno – há 99 anos
Foto: Itaú Cultural/ Reprodução
|Januário Bueno / J. Bueno. Formas alternativas, a segunda sendo abreviatura da primeira. Esta subscreve o poema-em-prosa “Dentro do baú” (Diário de Minas, BH, 30.10.1926), publicado posteriormente na Para Todos… 23-7-1927, com a assinatura de Carlos Drummond de Andrade. A segunda assina outro poema-em-prosa, “O homem de preto” (D. de Minas, BH, 03-12-1926). A publicação original do poema-em-prosa “Dentro do baú” está incluída na seção “A nova literatura mineira”, contendo no final uma nota: “Do livro Cabra-cega”. Em Para Todos…, vem com assinatura de Carlos Drummond de Andrade. Fernando Py
Dentro do baú
Januário Bueno
Só agora enxergo direito na minha infância, pedaço de mim que se afastou sem ruído e volta hoje manhosamente. Fui menino calado, triste e fraquinho. Não sabia brincar. Só mais tarde aprendi, mas já tarde! e pus a meninice nos meus versos. “Ó que saudade que tenho da aurora da minha vida!” Tenho saudade mesmo? Tenho: e da boa; dessa que não doe nem machuca o sujeito, é leve que nem paina, e faz cocegas na gente.
Chorei tanto, meu Deus! Porque imaginava histórias terríveis, assombrações, caranguejos, onças espiando debaixo da cama, espreitando a hora em que eu dormisse pra me dar um bote, me estraçalhar: “Tá vendo menino! Castigo da má-criação!” Fui malcriado? Fui menino nervoso, triste, metido comigo mesmo, literário, isso sim.
A história de Robinson Crusoé me comoveu tanto! Chorei em cima das catitas coloridas d “O Tico-Tico”. Queria ser ao menos Sexta-feira pra ter um pedaço nas aventuras daquele homem admirável. E as aventuras enfileiradas na mina frente, essas eu repetia. Meu irmão me chamava sorrateiro pra furtar jabuticaba na horta de D. Elisiária. Não ia. Não era medo, não era virtude: era o diabo da literatura. Acreditava mais nas histórias lidas que nas vividas.
E “O Tico-Tico” tinha pra mim uma voz mais doce que a da preta que me criou. O cachimbo de preta! Ela tinha um coração grande, tão grande, que um dia arrebentou de tanto ser grande. O corpinho preto esticado no chão, entre soluços escuros e ladainhas resmungadas, no corredor que não acabava mais – que susto, meu Deus, que vontade de chorar até morrer porque a vida era triste e esse mundo não prestava e Deus deixou que a velha morresse!
As namoradas que eu tive eram moças feitas, que caminhavam pro casamento ou já tinham passado por ele de largo. Delas eu gostava. E também de bonecas. Só que tinha vergonha de gostar e ficava espiando com um olho assim as bonecas importantíssimas de minha irmã, gente séria, comportada, que não enfiava o dedo no nariz nem tirava bicho de pé na vista dos outros, como fez minha prima Vituca, um dia que foi passear lá em casa, que horror!
Bonecas, livros, janelas cerradas. Vi o sol no grupo escolar. Recreio. Mas não tinha muque pra fazer bonito na barra e detestava a ginástica. Primeiro aluno do grupo, e tão bem comportado! Preguiça de ser moleque, com mais vontade de pular e fazer besteira ardendo dentro de mim sem se descobrir.
Quieto num canto ruminava piratas do Arquipélago com bigodes de Julio Verne, caubóis furando tripa de jagunços da Bahia com pistolas deste tamanho, jacarés disfarçados em crocodilos comendo carne hindu na beira do Ganges. Confusão, sensação, pulo, outro cenário: o colégio. A meninice ficou lá longe no baú do quarto dos fundos do casarão colonial, a vida foi clareando, clareando, uma luz chata espirrou sobre as minhas queixas, covardias e sustos. O menino deu um mergulho calado e não voltou mais… Pois hoje me bateu uma bruta saudade desse menino impossível desaparecido no baú.
[Fonte: Diário de Minas, BH, 30.10.1926 – Pesquisa: Cristina Silveira]









