Drummond Farmacêutico: um anjo torto que vive na sombra
Dolores com Drummond, Rio, 14 de fevereiro de 1981: “Aqui, fica uma pergunta à Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade: cadê o espaço para Drummond farmacêutico? (Graça Lima)
Foto: Altamir Barros/ Acervo O Cometa
“Não viveu entre cadinhos, grais e pistilos, bulas, cápsulas, lâminas, microscópios, laboratórios, vigilâncias, frascos, êmulos, ampolas, receitas e balcões. Foi um ‘farmacêutico do ar’. (…) Revelou, desnudou e infectou: almas, mentes, corações, histórias, utopias e vida. Com e por palavras e não placebos. Palavras e não alopatias. Palavras-fármacos vitais. Fugiu do monstro das drogas e das drogarias e mergulhou no veneno monstruoso do amor à poesia.” Marcelo Dolabela
Graça Lima*
Em 14 de novembro de 2025, esta Vila de Utopia publicou o artigo “Farmacêutico, Fazendeiro e Poeta: a construção de uma síntese”, em que busquei relacionar as diferentes faces do poeta itabirano a determinados temas e características de estilo que dão identidade à sua variada obra. Entretanto, propositalmente, a ênfase recaiu sobre Drummond Farmacêutico – um dado pouco considerado em grande parte das abordagens sobre a produção do poeta-cronista.
Essa questão ganhou visibilidade com a presença, em Itabira, das professoras Ana Paula Lucas Mota e Gisele Assis Castro, diretora e vice-diretora da Faculdade de Farmácia da UFMG, respectivamente. Essa visita foi movida pelo interesse de (re)conhecer a terra do poeta, conversar com as pessoas sobre ele e, assim, colher material para a realização de um vídeo que seria exibido durante a cerimônia comemorativa do Centenário de Formatura do aluno-poeta, o que se deu em 07 de novembro de 2025.
Desse encontro, nasceu a ideia de promovermos, durante a tradicional Semana Drummond daquele ano, uma “conversa” sobre a relação Drummond – Farmácia – Literatura , o que resultou em um painel proposto a partir do tema “Farmacopeia Poética”. Realizado na Casa de Drummond, sob a mediação da professora Delci Cristina, o evento contou com a participação da diretoria da Faculdade de Farmácia da UFMG (Ana Paula e Gisele, citadas anteriormente) — além de mim, autora deste artigo.
O debate em torno do tema proposto permitiu a ampliação do sentido do termo “Farmacêutico” aplicado a Drummond. O poeta, ao exercer seu ofício, trazia da formação acadêmica o senso de disciplina, de equilíbrio, de organização, de meticulosidade e o olhar clínico para o cotidiano e a vida. E mais, versos e versos , crônicas e entrevistas em que o escritor não deixa de fazer referências ao universo farmacêutico.
“Ao final da discussão (Painel – Farmacopeia Poética), a professora Ana Paula fez um comentário, uma sugestão e um anúncio, aqui resumidos: em todos os pontos visitados, a equipe da UFMG identificou uma lacuna referente à formação do poeta além do reduzido dado biográfico: “2025 – Formou-se em Farmácia, mas não exerceu a profissão”.
Sugeriu, então, que se criasse, em um dos pontos culturais dedicados ao poeta em Itabira, um espaço, “um canto”, no dizer da diretora, no qual se expusessem documentos, fotos, objetos, textos em verso e prosa relacionados à trajetória drummondiana como aluno do curso de Farmácia e o reflexo dessa formação em sua obra. E mais: anunciou a doação para Itabira de alguns itens relacionados à vida estudantil do jovem Carlos na antiga escola de Farmácia e Odontologia no idos de 1920.” (trecho do artigo citado anteriormente)
Quando participamos — juntamente com a então superintendente da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, Vanessa de Faria e a Coordenadora do Memorial Drummond, Solange Alvarenga — da cerimônia comemorativa do Centenário de Formatura de Carlos Drummond de Andrade, no dia 7 de novembro de 2025, na Faculdade de Farmácia/UFMG, o assunto “doação” voltou a ser mencionado e chegamos a visitar o Centro de Memória da Farmácia, onde nos foi mostrada uma balança de precisão, documentos e outros componentes a serem doados a Itabira.
Entretanto, o ano de 2026 praticamente passou sem que houvesse, até agora, algum gesto, qualquer iniciativa dos responsáveis oficiais por promover e preservar o patrimônio cultural de Itabira no sentido de potencializar as condições para acolhimento dessa doação. Infelizmente, a lentidão da vida interiorana mencionada com frequência na obra de Drummond manifesta-se na vida cultural da cidade. O adormecimento da FCCDA em relação à oferta da Faculdade de Farmácia da UFMG é algo que nos acomoda no umbral de “A Divina Comédia”, local destinado por Dante Alighieri, sobretudo, aos indecisos.
Se, em “A Máquina do Mundo”, o eu-lírico recusa a revelação da vida e seus mistérios, Itabira não pode recusar a oferta da instituição em que Drummond se graduou. Assim, passa rasteira a chance de enriquecimento do patrimônio cultural relativamente à vida do poeta e a sua obra. Aqui, fica uma pergunta à Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade: cadê o espaço para Drummond farmacêutico?
*Graça Lima é professora de Literatura e Língua Portuguesa.










A graça da Graça Lima, sempre presente na construção da cultura da cidade.
Atenção Solange Alvarenga, diretora do Memorial CDA: é importante criar um ponto para o farmacêutico do ar aí no Memorial.
Professora Graça, muito obrigada, obrigadíssima