Flávio Bolsonaro vence primeiro turno na disputa pelo Planalto por margem mínima, mas Lula ainda pode virar o jogo

Nesta disputa está em jogo quem vai ocupar o Palácio do Planalto, numa eleição marcada por margem mínima, abstenção histórica e avanço da extrema direita no Congresso

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

A menor diferença desde a redemocratização, somada ao maior índice de abstenção em um primeiro turno desde 1998, mantém aberta a disputa pela Presidência e expõe o risco que o avanço da extrema direita representa para a democracia e para o futuro das políticas sociais no Brasil

Valdecir Diniz Oliveira*

O resultado presidencial do primeiro turno das eleições deste domingo (4) expôs com nitidez a divisão do país. Flávio Bolsonaro terminou à frente com 56.104.503 votos (47,03%), enquanto Lula ficou com  53.879.538 (45,16%).

A diferença entre os dois foi de apenas 2.224.965 votos, o equivalente a 1,87 % dos votos válidos, a menor margem em um primeiro turno desde a redemocratização.

Já a abstenção foi de 33.428.584 brasileiros (21,08%) do eleitorado que deixaram de votar, no maior índice de ausentes em um primeiro turno desde 1998. Somam‑se a isso 5.975.047 (4,99 %) de votos nulos, e um contingente expressivo de votos brancos, que também ultrapassou a casa dos milhões.

Esse conjunto revela que esses eleitores não foram capturados pelo discurso radical da extrema direita – e também da esquerda, mas que podem decidir o segundo turno, impedindo a consolidação de um projeto que ameaça direitos, instituições e o avanço do Estado Democrático de Direito rumo a um Estado de bem‑estar social.

Congresso mais conservador desde 1964

O Congresso eleito em 2026, aprofunda essa tensão. A Câmara manteve sua fragmentação, mas o Senado consolidou uma bancada robusta da extrema direita, que já demonstrou disposição para confrontar o STF, questionar decisões judiciais e pressionar por mudanças constitucionais.

A presença ampliada de senadores alinhados ao bolsonarismo cria um ambiente hostil para qualquer governo que não se submeta às pautas conservadoras.

Esse cenário se torna ainda mais delicado quando se considera que o próximo presidente terá a prerrogativa de indicar três novos ministros para o Supremo, o que pode alterar profundamente o equilíbrio institucional do país.

A combinação entre Executivo, Senado e STF sob influência de um mesmo projeto político é risco real à democracia, com a concentração de poder que merece ser analisado com seriedade e profundidade.

A abstenção e as redes sociais como chave da virada

A diferença apertada no primeiro turno mostra que o país não está entregue à extrema direita, pelo menos por boa parte da população. Daí que Lula tem condições de mudar o resultado final se conseguir dialogar diretamente com os trabalhadores do campo e da cidade, com a classe média e mesmo com com setores da elite que não veem o avanço de direitos como ameaça, mas como condição para se ter um país mais justo e mais estável.

Mas essa disputa, para sair vitoriosa, não pode se ater aos meios tradicionais, que Lula e os partidos de esquerda historicamente dominam, mas que vêm perdendo terreno para lideranças da extrema direita, sobretudo evangélicas, que construíram redes de influência capilarizadas e altamente eficazes.

O cenário eleitoral de 2026 deixa claro que a conquista de corações e mentes ocorre cada vez mais pelas redes sociais, moldada por algoritmos seletivos que amplificam medos, crenças e desinformação. A política se deslocou para o ambiente digital, onde a extrema direita opera com profissionalismo, recursos e estratégias de segmentação que desafiam os métodos tradicionais de comunicação política.

O fenômeno eleitoral da deputada federal Ana Elisa, eleita aos 21 anos pelo PT em Minas Gerais, é prova disso. Com mais de 522 mil votos, a segunda mais votada do estado, atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL), ela mostrou que é possível furar bolhas, mobilizar jovens e disputar narrativas em plataformas dominadas pela extrema direita.

Sua ascensão meteórica evidencia que o campo progressista precisa investir de forma estratégica na disputa digital, compreendendo que as big techs e seus algoritmos não são neutros. E que, ignorá‑los, significa entregar terreno ao adversário.

Portanto, o desafio para Lula agora é ampliar esse diálogo, sobretudo com os milhões de eleitores que se abstiveram no primeiro turno. Essa soma de abstenções, brancos e nulos dá um contingente de mais de 39 milhões de brasileiros que permaneceram fora da disputa presidencial no primeiro turno, um bloco de eleitores que pode ser decisivo no segundo turno.

Muitos desses eleitores não votaram por desilusão, medo ou desinformação. Mas eles podem ser sensibilizados pela compreensão de que a ascensão da extrema direita representa riscos reais para suas vidas, seus direitos e o futuro de seus filhos.

A virada depende de alcançar esses eleitores tanto no território físico quanto no território digital, onde a disputa política se tornou permanente e decisiva.

O ovo da serpente está se espalhando pelo mundo

O avanço da extrema direita no Brasil não é um fenômeno isolado. E o termo “ovo da serpente” ajuda a compreender esse processo. A expressão, popularizada pelo filme de Ingmar Bergman, descreve o momento em que um projeto autoritário ainda embrionário já revela, de forma transparente, os contornos do que pode se tornar.

É quando sinais antes dispersos, os “apitos de cachorros”, começam a se organizar, ganhar forma e se apresentar como solução para crises reais, enquanto escondem sua natureza profundamente antidemocrática.

Foi assim na Itália e na Alemanha do século XX, quando trabalhadores e setores pobres da população foram atraídos por discursos que prometiam ordem, moralidade e prosperidade, mas que entregaram o poder a líderes que atacaram direitos sociais, destruíram sindicatos, perseguiram opositores e conduziram o mundo à barbárie.

Hoje, guardadas as diferenças históricas, vemos novamente parte dos trabalhadores votando em projetos políticos que vão de encontro aos seus direitos, embalados por campanhas de desinformação, algoritmos que segmentam e radicalizam o debate e por políticos e influenciadores que transformam medo em arma política.

Sem botas e baionetas, mas com memes, lives e fake news

O neofascismo contemporâneo não surge com botas, baionetas, marchas e símbolos explícitos, mas com memes, lives, fake news, discursos moralistas, teorias conspiratórias e uma máquina digital capaz de manipular emoções em larga escala.

É assim que o avanço da extrema direita no Brasil também se insere em uma disputa internacional mais ampla. Nos últimos anos, governos e movimentos ultraconservadores passaram a operar dentro das regras democráticas para restringir direitos, alterar constituições e capturar instituições.

É o que se observa na Hungria, na Polônia, na Turquia e em outros países da Europa Oriental. Trata‑se de um autoritarismo de novo tipo, que não precisa fechar o Congresso ou abolir eleições para corroer a democracia.

Ele se infiltra nas instituições, altera leis por meio do Congresso onde são hegemônicos, controla tribunais, contra a comunicação pública para garantir consensos – e ao mesmo tempo que transforma o Estado em instrumento de perseguição política.

Além disso, esse fenômeno é alimentado por uma disputa geopolítica que envolve Estados Unidos, China e o Brics, com interesses diretos em recursos estratégicos como minerais críticos e terras raras.

É nesse contexto que a extrema direita brasileira se alinha ao trumpismo, reproduzindo sua agenda cultural e seu projeto de poder, o que inclui apoio político e financeiro, conforme tem sido noticiado pela imprensa internacional.

A convergência entre ultraconservadorismo religioso, desinformação digital, interesses econômicos globais e estratégias de captura institucional cria um ambiente fértil para que o “ovo da serpente” se desenvolva e se espalhe.

O Brasil não está isolado, como vimos nessa campanha eleitoral para o primeiro turno – e que certamente será repetida com maior intensidade no turno decisivo. O país é parte de uma onda global que testa os limites da democracia, explora suas brechas e utiliza seus próprios mecanismos para corroê‑la por dentro.

Reconhecer esse processo é essencial para compreender o que está em jogo em 2026.

Risco de ditadura dentro das regras

Entregar a Presidência da República ao candidato da extrema direita é correr o risco real de um retorno autoritário mais sofisticado do que foi o golpe de 1964, que fechou o Congresso e controlou o STF.

Com a prerrogativa de indicar três novos ministros para o STF e com uma base ampla no Congresso, sobretudo no Senado, com uma vitória do candidato da extrema-direita abre-se a possibilidade de se fazer mudanças profundas na Constituição, especialmente nos capítulos que tratam de direitos sociais, trabalhistas e previdenciários.

A reforma trabalhista, que já retirou garantias importantes da CLT, é exemplo de como retrocessos podem ser aprovados em nome de uma suposta modernização.

Daí que uma nova onda de reformas pode aprofundar essas perdas, fragilizar sindicatos, reduzir a proteção social e aprofundar a contradição de o trabalho ser uma mera mercadoria, um meio de produção que se compra farto e barato no mercado.

A experiência recente da Argentina com Milei é um alerta que não pode ser ignorado. Por lá o que se vê são cortes abruptos em políticas sociais, ataques a direitos trabalhistas, desmonte de estruturas públicas e uma agenda econômica que penaliza os mais pobres. É um claro exemplo do que pode acontecer quando discursos antissistema se transformam em governo.

A Hungria, com a hegemonia da extrema direita no Congresso e no Judiciário, é outro exemplo que demonstra como é possível instaurar uma ditadura dentro das regras democráticas, com aparência de legalidade e controle absoluto das instituições.

Lula pode virar o jogo, “eu acredito”

Daí que, a exemplo da torcida do Atlético Mineiro, é preciso acreditar que a virada é possível. Ela não é apenas possível, mas necessária para impedir que o país retroceda institucionalmente.

A diferença de votos foi pequena, inferior a dois pontos percentuais. Com diálogo, mobilização e esclarecimento, é possível alcançar trabalhadores indecisos, jovens seduzidos pelo discurso fácil da extrema direita e milhões de eleitores que se abstiveram por desilusão, medo ou desinformação.

O ponto central é mostrar que o avanço de direitos para quem vive de salário, depende do SUS, e precisa da escola pública para educar os filhos não é ameaça, mas condição para que todos possam viver com dignidade.

Com Lula, o país pode avançar  para um Estado de bem‑estar social. Trata‑se de um modelo em que o Estado Democrático de Direito não se limita a garantir liberdades formais, mas assegura também direitos à saúde pública de qualidade, educação universal, proteção trabalhista, previdência robusta, políticas de cuidado e mecanismos de redução das desigualdades.

Países que adotaram esse modelo, como os nórdicos, construíram sociedades mais estáveis, menos violentas e com maior mobilidade social.

O Brasil nunca chegou a esse patamar, mas deu passos importantes em períodos de expansão de políticas públicas com a Constituição de 1988, e também, especialmente nos governos progressistas de Lula e Dilma, políticos que a extrema direita demoniza para disseminar medo e desinformação entre os eleitores.

O avanço da extrema direita nestas eleições no Congresso já é uma ameaça real à consolidação de um Estado Democrático de Direito que avance também para um Estado de bem‑estar social. A bancada ampliada de senadores alinhados ao bolsonarismo cria um ambiente hostil para qualquer governo que não se submeta às pautas conservadoras.

Teoria do domínio e a antítese

Com a prerrogativa de indicar três novos ministros para o Supremo, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro abrirá caminho para mudanças profundas na Constituição, especialmente nos capítulos que tratam de direitos sociais, trabalhistas e previdenciários.

A reforma trabalhista, que já retirou garantias importantes da CLT, é exemplo de como retrocessos podem ser aprovados em nome de uma suposta modernização.

Uma nova onda de reformas pode aprofundar essas perdas, fragilizar sindicatos, reduzir a proteção social e consolidar o trabalho como mera mercadoria barata, vulnerável e descartável.

No segundo turno, confrontam‑se dois caminhos. Portanto, o que está em jogo não é apenas quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos, mas qual projeto de país será fortalecido.

Com Lula, tem-se um projeto que reconhece a centralidade do trabalho, da democracia e dos direitos sociais, enquanto de outro disputa Flávio Bolsonaro, que aposta no Estado Mínimo para cortar secretarias e gastos sociais, em políticas negacionistas, na repressão, na exclusão e na concentração de poder.

A história já mostrou na Itália, na Alemanha e em tantos outros lugares, o que acontece quando o povo pobre vota em seus algozes. No Brasil, ainda há tempo de escolher outro caminho.

Por sorte, a disputa ainda está aberta para que a democracia permaneça viva. O futuro do país depende da capacidade de transformar indignação em consciência, essa em voto na defesa de um Brasil que avance, enfim, para um Estado de bem‑estar social.

O resultado está nas mãos dos indecisos, dos milhões de brasileiros que podem impedir que o Estado seja capturado por aqueles que cultivam, alimentam e espalham os ovos da serpente.

*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador

 

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