C. Drummond – há 105 anos
Sapo Cururu (setembro 2002)
Foto: Eduardo Cruz
|C. Drummond / C. Drummond Andrade / C. Drummond D’Andrade – Ao que sabemos, a primeira destas formas foi empregada apenas na assinatura do poema em prosa “Folhas…” em Leitura Para Todos, Rio, segunda fase, ano II, n.25, agosto de 1921. As duas outras foram utilizadas unicamente em artigos escritos para o Jornal de Minas de Belo Horizonte. A primeira subscreve as crônicas “Diana, a moral e o cinema” (15-04-1920), “Um poeta morto” (22-04-20) e “A mísera capital” (08-06-1920). A outra assina o artigo “Crônica vadia” (21-04-1920). Fernando Py|
Folhas…
C. Drummond
Quedo-me ouvindo a música que vem de um plano sentimental, do outro lado da rua… Em torno a mim, tudo se faz sombra, imprecisão, melancolia crepuscular … A música penetra-me o eu, lacera-me as carnes, arranca-me lágrimas, invade-me a alma… Há cá dentro uma sonora dispersão de ritmos magoados… E pondo-me a sonhar que eu sempre sonho quando me embriago de tristeza… Lembra-me o que fui, em eras distantes ao sol de outras terras; evoco paisagens nunca vistas, idealizo edens de sombra e de luar… Viajo… Adoro a vadiação dos nômades, dos sem-pátria… E beijo mulheres únicas, mulheres-fadas, por essa longa peregrinação através da música estonteante…
Mas o piano emudece. Sinto a vertigem de um Ícaro, caindo de braços na realidade. E mais desgraçado do que nunca, porque a realidade é a minha cruz de Cristo: vai redobrando de peso, passo a passo…
(Pesquisa: Cristina Silveira)









