Entre medidas sociais e volatilidade eleitoral, Lula busca avançar entre o eleitorado feminino e de baixa renda

Foto: Ricardo Stuckert

Pesquisas recentes mostram disputa apertada, vantagem variável e impacto limitado da crise no STF sobre a campanha do presidente

Valdecir Diniz Oliveira*

A disputa presidencial segue com pequenas oscilações entre diferentes institutos de pesquisa, que apresentam cenários distintos conforme a data de coleta e o contexto político de cada levantamento.

Enquanto a CNT/MDA, divulgada em 15 de setembro, aponta a maior vantagem para Lula no primeiro turno, pesquisas como a Ideia/Meio e a Quaest mostram diferença mínima entre os candidatos, e em alguns cenários até Flávio Bolsonaro numericamente à frente.

Já a pesquisa Datafolha, a mais recente, publicada nesta sexta-feira (18), e a única realizada após a crise envolvendo o STF e o ministro Alexandre de Moraes, indica que o episódio não trouxe o desgaste esperado por parte de analistas à candidatura de Lula, que aparece estável e até com sinais de recuperação entre mulheres.

CNT/MDA: vantagem expressiva e indecisão elevada

A pesquisa CNT/MDA apresenta o cenário mais favorável ao presidente entre os levantamentos recentes. No primeiro turno, Lula aparece com 40,6% das intenções de voto, contra 30,4% de Flávio Bolsonaro, diferença superior a dez pontos percentuais.

Os demais candidatos somam percentuais reduzidos, enquanto o instituto registra um contingente relevante de indecisos e de eleitores que declaram voto branco ou nulo, que juntos ultrapassam 13%.

No segundo turno, a mesma pesquisa aponta vitória de Lula com diferença confortável sobre o adversário com 47,3, contra 40% de Flávio Bolsonaro, mantendo a liderança fora da margem de erro. Ainda assim, o número de indecisos e de eleitores que rejeitam ambos os nomes permanece significativo, reforçando que a disputa não está definida.

A CNT/MDA ganhou peso no debate eleitoral por ter sido o instituto que mais se aproximou do resultado final na eleição de 2022, o que aumenta a atenção sobre seus números atuais.

A presença elevada de indecisos reforça a leitura de que Lula possui espaço para crescer, especialmente se conseguir converter parte desses eleitores que ainda não se sentem plenamente representados por nenhum dos candidatos.

Analistas destacam que políticas de impacto direto no orçamento doméstico, como o reajuste do Bolsa Família, o aumento real do salário mínimo e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, tendem a influenciar esse segmento, que reage de forma imediata a variações de renda e preços.

Nesta semana, o reajuste do Bolsa Família tornou-se um dos pontos de maior repercussão da disputa política, após a crise ainda sem saída no STF. A oposição acusa o governo de adotar uma medida eleitoreira, alegando que o aumento foi anunciado em período pré-eleitoral.

Aliados de Lula, porém, lembram que Jair Bolsonaro, em 2022, recorreu a estratégias semelhantes ao ampliar o valor do programa de transferência de renda que substituiu o Bolsa Família, o Auxílio Brasil, além de criar benefícios temporários para caminhoneiros e taxistas e flexibilizar regras fiscais para viabilizar pagamentos extras às vésperas da eleição.

A comparação é usada pelo governo para argumentar que políticas de proteção social não são novidade em períodos eleitorais e que, no contexto atual, o reajuste responde à inflação acumulada, à insegurança alimentar e à perda de renda entre os mais pobres.

Ideia/Meio e Quaest: disputa apertada e alternância de liderança

A pesquisa Ideia/Meio, divulgada no fim de agosto, mostra um cenário bem mais apertado. Lula aparece com 38,4% das intenções de voto, contra 37,3% de Flávio Bolsonaro, diferença de apenas 1,1 ponto percentual, dentro da margem de erro. O número de indecisos e de votos brancos ou nulos também é relevante, indicando que uma parcela do eleitorado ainda observa a disputa com cautela.

Já a Quaest, publicada em 22 de agosto, apresenta um quadro em que Flávio Bolsonaro chega a aparecer numericamente à frente em simulações de segundo turno, embora sempre dentro da margem de erro.

Esses levantamentos reforçam a percepção de que a disputa permanece polarizada e sensível a variações conjunturais, com movimentos de avanço e recuo em segmentos específicos, como mulheres, eleitores de baixa renda e classe média urbana.

Apesar das diferenças entre institutos, há um ponto de convergência: Lula mantém vantagem entre os mais pobres e entre mulheres, ainda que essa vantagem tenha se reduzido em determinados momentos do ano. A erosão nesse segmento acendeu alerta na campanha e motivou a intensificação de ações sociais e de comunicação voltadas diretamente a esse público.

Datafolha: impacto limitado da crise no STF e sinais de recuperação entre mulheres

A pesquisa Datafolha, divulgada em 18 de setembro, é a única realizada após a crise envolvendo o STF e o ministro Alexandre de Moraes. O levantamento indica que o episódio não trouxe o desgaste significativo que parte da oposição esperava para a candidatura de Lula.

No primeiro turno, o presidente aparece com 39% das intenções de voto, contra 35% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, há empate técnico, com Lula numericamente à frente por pequena margem.

O dado mais relevante está no comportamento do eleitorado feminino. A pesquisa mostra que Lula mantém vantagem entre mulheres e apresenta melhora no recall nesse segmento, sugerindo que o foco do eleitorado continua concentrado em temas como economia, emprego, renda e segurança alimentar, mais do que em conflitos institucionais. A crise no STF, embora tenha dominado o noticiário, não se converteu em perda direta de apoio para o presidente, segundo os números da Datafolha.

Medidas econômicas e o esforço para reconectar com mulheres de baixa renda

Diante do avanço de Flávio Bolsonaro entre parte das mulheres e dos eleitores de menor renda, especialmente em momentos de alta do custo de vida, o governo acelera anúncios de políticas sociais e econômicas.

O reajuste do Bolsa Família, o aumento real do salário mínimo e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil são medidas que atingem diretamente o orçamento doméstico, sobretudo de famílias chefiadas por mulheres.

Além disso, a retomada de programas de combate à fome, iniciativas de proteção às mulheres, ações na área de segurança e políticas de habitação compõem um pacote que o governo tenta transformar em narrativa de recuperação social.

A expectativa do governo é de que parte do eleitorado, sobretudo feminino, comece a reagir a essas medidas, refletindo na melhora de desempenho de Lula nesse segmento.

Indecisos devem definir a eleição

Com a CNT/MDA apontando o maior contingente de indecisos entre os principais institutos, cresce a avaliação de que a eleição será definida por eleitores que ainda não se sentem plenamente representados por nenhum dos candidatos. É um grupo heterogêneo, marcado por dúvidas, expectativas e pela busca por sinais objetivos de melhora na vida cotidiana.

Para esse segmento, comparações de gestão tendem a ter peso decisivo. Por isso aliados de Lula defendem que o presidente intensifique a comunicação sobre os resultados já alcançados pelo governo, destacando a queda do desemprego, o reajuste real do salário mínimo, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, a retomada de programas sociais e habitacionais e as melhorias em indicadores de segurança alimentar e em outros setores da economia – fatores que, em última instância, moldam o comportamento eleitoral.

A aposta é que a comparação com o governo anterior, especialmente em temas como emprego, inflação, renda, políticas sociais e proteção dos mais vulneráveis, pode ser determinante para consolidar o voto dos indecisos. Nesse esforço, ganham relevância também os investimentos no SUS e na Farmácia Popular, áreas que impactam diretamente o cotidiano das famílias e que historicamente mobilizam o eleitorado de baixa renda e o segmento feminino.

É assim que nesta reta final do primeiro turno, com medidas econômicas de impacto direto na vida das pessoas e uma estratégia de comunicação voltada para resultados objetivos, que se traduzem em melhora real da qualidade de vida, Lula tenta reconquistar terreno entre mulheres e eleitores de baixa renda, ao mesmo tempo em que busca converter indecisos que devem definir o desfecho da disputa.

É nesse ponto que a campanha aposta, ao transformar políticas públicas em percepção de avanço social, em benefício não apenas de sua candidatura, mas de um país que já enfrentou, nos últimos anos, retrocessos profundos, políticas discriminatórias e episódios de negacionismo que agravaram desigualdades e ampliaram a vulnerabilidade das famílias brasileiras.

* Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.

 

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