Globo transforma entrevista com Lula em tribunal de inquisição e repete seu velho padrão de manipulação
Foto: Reprodução/ TV Globo
A Vênus Platinada revive o método que a consagrou como agente político desde Collor e Lava Jato, acusando, distorcendo e omitindo enquanto finge fazer jornalismo
Valdecir Diniz Oliveira*
Como um verdadeiro tribunal em horário nobre, assim foi a entrevista de Luiz Inácio Lula da Silva no Jornal Nacional, da TV Globo. Não se tratou de uma entrevista, mas de uma sessão inquisitorial cuidadosamente montada, com apresentadores no papel de acusadores e o presidente colocado como réu, mesmo não existindo contra ele qualquer acusação formal.
As perguntas se apoiaram em suspeitas, conversas interceptadas e alegações de possível tráfico de influência envolvendo terceiros, nenhuma delas convertida até agora em prova ou prejuízo ao erário. Nada disso diz respeito diretamente a Lula, mas a seu filho e a assessores, ainda assim transformados pela emissora em eixo central da “entrevista”.
A Globo, mais uma vez, escolheu a dramaturgia da suspeita em vez do jornalismo da informação. Interrupções constantes, perguntas repetidas, insistência quase litúrgica em casos policiais periféricos. Tudo isso compôs um cenário que diz mais sobre a emissora do que sobre o entrevistado.
O Brasil atravessa um momento singular, marcado por tensões comerciais com os Estados Unidos, declarações intervencionistas de Donald Trump sobre questões internas brasileiras e a classificação de facções criminosas como organizações terroristas pelo governo norte-americano.
São temas que redefinem a soberania nacional, a segurança pública e o futuro econômico do país. Mas nada disso foi pautado na “entrevista”. Nada disso apareceu. A Globo preferiu ignorar o que realmente importa para insistir em episódios que não explicam o momento histórico que o país vive.
O passado que a Globo não enfrenta
A postura da emissora não é uma exceção, é recorrente. Ela se insere em um padrão histórico contra o candidato petista que o público conhece bem – e que a Globo jamais enfrentou com a honestidade necessária.
Em 1989, a edição do debate entre Lula e Collor, posteriormente admitida por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni como tendo sido manipulada, reconstruiu uma versão do confronto que favorecia o candidato alagoano.
A edição da entrevista no dia seguinte, no prazo final daquela campanha eleitoral, não apenas distorceu o que havia sido visto ao vivo, como interferiu diretamente no processo eleitoral. Foi um marco inaugural de um modo de operar que, desde então, se repete com variações, mas nunca desaparece nas campanhas presidenciais.
Foi com esse mesmo viés antipetista que, décadas depois, a cobertura da Lava Jato consolidou esse padrão.
O então procurador Deltan Dallagnol apresentou um power point que rapidamente se transformou em espetáculo televisivo na TV Golobo, tratado como se fosse prova irrefutável antes mesmo de qualquer comprovação jurídica, que não houve.
Naquele momento, a Vênus Platinada transmitiu ao país uma peça acusatória que colocava Lula no centro de um suposto “comando” de organização criminosa, em uma narrativa construída graficamente, com setas, círculos e conexões imaginárias, mas sem lastro probatório.
O que deveria ser apenas uma apresentação de argumentos preliminares converteu-se, pela força da exposição midiática, em condenação simbólica antecipada.
Sergio Moro, então juiz responsável pelos processos da Lava Jato, atuou de maneira que o Supremo Tribunal Federal classificaria mais tarde como parcial.
Sua conduta, revelada em decisões e nos diálogos tornados públicos pelo The Intercept Brasil, expôs um alinhamento indevido com a promotoria, incluindo orientações estratégicas aos procuradores e coordenação de passos processuais que jamais poderiam partir de um magistrado.
A fronteira que deveria separar juiz e acusação, pilar básico do devido processo legal, foi rompida em nome de uma cruzada judicial que, ao longo do tempo, mostrou-se politicamente orientada e juridicamente viciada.
A fronteira entre juiz e acusação, que deveria ser intransponível, foi dissolvida em nome de uma cruzada judicial que encontrou na Globo sua principal caixa de ressonância.
A emissora amplificou delações, vazamentos e acusações como se fossem fatos consumados, contribuindo para a construção de uma narrativa que antecedeu – e, em muitos momentos, substituiu o próprio julgamento.
Na chamada “cobertura jornalística”, a Globo reportou acusações como se fossem fatos consumados, sem o rigor mínimo que o jornalismo exige quando o Estado, por meio da Polícia Federal ou mesmo do judiciário, acusa ou julga um cidadão sem apresentar provas.
A emissora tratou versões preliminares como verdades estabelecidas, transformando investigações em condenações antecipadas e convertendo suspeitas em narrativa oficial antes mesmo de qualquer contestação jurídica.
Foi assim que na Vênus Platinada, a narrativa da força-tarefa foi amplificada sem filtro, sem crítica e sem contraponto, como se a Lava Jato fosse uma cruzada moral acima de qualquer questionamento.
Esse comportamento apenas reforçou que a tal “isenção” jornalística não passa de um mito — aqui e nos Estados Unidos, onde foi inventado como estratégia retórica para mascarar interesses políticos e econômicos.
A Globo, ao repetir esse modelo, demonstra que imparcialidade é uma ficção conveniente, não um princípio real do jornalismo, seja no Brasil ou em qualquer parte do mundo.
A entrevista de ontem reforça esse padrão. A insistência em casos periféricos, a repetição de perguntas, a interrupção constante e a ausência de temas estratégicos não são apenas escolhas de pauta, mas sintomas de um modelo que, quando se trata do PT, parece sempre inclinado a transformar o jornalismo em tribunal.
A Globo não apenas escolheu o que perguntar. Escolheu também o que não perguntar – e o silêncio sobre os temas centrais do momento político brasileiro diz mais do que qualquer questionamento feito no estúdio.
A interferência de Donald Trump, a reclassificação de facções criminosas como organizações terroristas, as tensões comerciais que ameaçam setores inteiros da economia brasileira, a possibilidade de operações internacionais sob o pretexto de combate ao crime organizado, tudo isso ficou de fora.
A conferir: Flávio Bolsonaro receberá o mesmo tratamento?
A pergunta inevitável é se o mesmo rigor será aplicado na entrevista com Flávio Bolsonaro, nesta sexta-feira (28).
O senador candidato a presidente é protagonista de um dos episódios mais escandalosos da política recente, envolvendo o Banco Master e seu proprietário, com quem manteve conversas gravadas que levantaram questionamentos sobre relações financeiras e políticas.
O caso, que ontem foi usado para pressionar Lula de maneira indireta, tem conexão direta com Flávio. Se a Globo pretende demonstrar coerência jornalística, terá de tratar o senador com o mesmo grau de insistência, repetição e cobrança que aplicou ao presidente Lula.
Terá de perguntar sobre a gravação, sobre o conteúdo das conversas, sobre a natureza da relação com o dono do Master, sobre os interesses envolvidos. Terá de insistir quando ele tentar desviar, interromper quando ele tentar alongar, repetir quando ele tentar relativizar. Terá de fazer, enfim, o que fez com Lula.
Mas a história mostra que essa simetria raramente aparece. A entrevista de ontem não foi apenas desequilibrada. Foi monotemática, desconectada da realidade internacional e incapaz de oferecer ao público a informação que ele precisa para compreender o momento que o país atravessa. um jornalismo capaz de contextualizar, esclarecer e iluminar.
A entrevista da Globo fez o oposto. Ao repetir seu padrão histórico de enquadramento antipetista, a emissora abandonou o que deveria ser a essência do jornalismo, que é informar, contextualizar e esclarecer para que o público possa formar seu próprio juízo.
Em vez disso, preferiu a velha fórmula da suspeita insinuada, do corte seletivo e da narrativa pré-moldada. Confirmou, mais uma vez, que quando se trata de Lula, a Vênus Platinada não busca iluminar os fatos, mas reforçar a versão que ela mesma ajudou a construir.
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Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.









