Câmara de Itabira aprova projetos de conscientização sobre apostas online e insere município no debate nacional
Foto: Jessica Estefani/ Ascom/CMI
Após aprovar campanha de conscientização, vereadores avançam com medidas permanentes, enquanto especialistas e pesquisas revelam falhas na regulação e impactos financeiros das bets
O primeiro passo dado pela Câmara de Itabira foi a aprovação do Projeto de Lei nº 67/2026, de autoria do vereador Leandro Pascoal (PSD), que instituiu uma campanha de conscientização sobre os riscos das apostas esportivas online.
A proposta trouxe à tona um tema que já vinha sendo tratado como problema de saúde pública em nível nacional e que, em Itabira, mostrou-se presente na vida de muitas famílias.
Pascoal destacou que não cabia ao município proibir, mas sim conscientizar, e relatou que após a aprovação recebeu mensagens de pessoas em situação desesperadora, algumas delas com histórias de endividamento profundo e até casos de suicídio.
O projeto foi considerado um marco inicial, abrindo espaço para que o Legislativo itabirano assumisse protagonismo no enfrentamento de um problema que se espalha silenciosamente pela sociedade.
Política pública de prevenção
Já na reunião desta segunda-feira (10), os vereadores avançaram e aprovaram o Projeto de Lei nº 68/2026, de autoria do vereador Hudson “Yuyu da Pedreira” Junior Diogo Santos (PSB), que institui uma política pública de prevenção e combate às apostas esportivas.
Diferente do primeiro inicial, o novo projeto tem caráter estruturante e prevê ações permanentes.
Ao fazer uso da tribuna, Yuyu da Pedreira apresentou dados alarmantes sobre endividamento e impactos sociais, citando pesquisas nacionais e experiências de outros municípios, como o Rio de Janeiro, que já proibiu publicidade de bets em espaços públicos.
Ele explicou que a iniciativa nasceu de um processo de escuta da população e de instituições locais, envolvendo universidades como a PUC Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e o Unifuncesi (Centro Universitário de Itabira), conselhos municipais e secretarias de saúde, assistência e educação.
Entre as medidas previstas estão a realização de pesquisas científicas, seminários de formação e conscientização, e a criação de um grupo de trabalho permanente para analisar dados, elaborar propostas e acompanhar resultados.
“Enfrentar os impactos das apostas exige diálogo, pesquisa, prevenção e responsabilidade. Escolhemos construir esse caminho ouvindo especialistas e a população”, afirmou o vereador.

Vereadores revelam dramas humanos
O debate em plenário mostrou que o tema já afeta diretamente a vida dos itabiranos. Leandro Pascoal reforçou que, após seu projeto anterior, recebeu mensagens de pessoas relatando perdas materiais, destruição de famílias e até casos de suicídio.
“Eu achava que era somente pela internet que a gente via relatos distantes. Mas hoje eu vivencio, próximo de mim, várias histórias assustadoras. São histórias reais e de grande impacto, de destruição na vida dessas pessoas”, disse.
O vereador Heraldo Noronha Rodrigues (Republicanos) destacou que o vício atinge todas as classes sociais e comparou a facilidade atual às antigas jogatinas de baralho, mas agora com alcance muito maior.
“Infelizmente, tem família que passa necessidade mesmo. Não é só família com poder aquisitivo alto. Pega de A a B, várias classes sociais. Antes era só aquele pessoal que gostava da jogatina. Hoje, não. São muitas pessoas que estão caminhando por esse caminho para o fundo do poço. E quando chega no fundo do poço, infelizmente, é difícil sair”, alertou.
O vereador Elias Lima (Solidariedade) foi contundente e usou metáforas fortes para descrever o impacto das apostas.
“Para mim, as bets podiam trocar de nome para peste. O Tigrinho pode trocar para serpente, porque parece ao mesmo tempo que vai ajudar, mas depois vem e destrói as pessoas, pica na falta do lar”, disse ele, que acrescentou:
“Já vi esposa chorando a morte do marido porque o joguinho entrou num certo tempo que dilacerou a vida da família a ponto dessa pessoa não querer mais estar entre nós”, afirmou.
Ele defendeu mobilização imediata, antes mesmo da aplicação integral da lei, para mostrar que os vereadores estão verdadeiramente preocupados com a situação.
Especialista desmonta mito da “aposta responsável”
O professor Ahmed El Khatib, da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), desmonta o discurso das plataformas que falam em “aposta responsável”.
Para ele, esse conceito só teria utilidade se estivesse inserido em políticas sérias de prevenção.
“O problema é quando se resume a uma mensagem publicitária enquanto todo o restante da plataforma incentiva o usuário a apostar mais e por mais tempo”, explica.
Ele alerta para sinais de risco como aumento progressivo dos valores, tentativa de recuperar perdas, alterações de humor e uso das apostas para aliviar ansiedade ou tristeza.
Segundo o especialista, os danos devem ser tratados como problema de saúde coletiva, e não apenas como falta de disciplina individual.
Pesquisa mostra jovens comprometendo orçamento
Dados da fintech meutudo, especializada em soluções de crédito, revelam que 46% dos jovens entre 25 e 34 anos já usaram dinheiro do orçamento para apostar. Entre os de 35 a 44 anos, 63% afirmam apostar para conseguir renda extra.
O estudo mostra ainda que 17% dos jovens adiaram compras não essenciais e 8% deixaram de pagar contas por causa das apostas.
Por outro lado, 70% dos que abandonaram o hábito afirmam que isso foi fundamental para alcançar objetivos financeiros.
Esses números evidenciam que as apostas não são apenas entretenimento, mas afetam diretamente a organização financeira das famílias.
Novas regras de publicidade falham em proteger consumidores
A influenciadora de finanças Nathalia Arcuri, fundadora da Me Poupe!, critica as novas regras que obrigam anúncios de bets a exibirem alertas sobre moderação.
“Não adianta dizer ‘jogue com responsabilidade’ quando, dentro da plataforma, toda a experiência estimula a pessoa a continuar apostando”, afirma.
Ela alerta para a exposição de menores aos anúncios e para a falta de educação financeira da população.
O CEO da Me Poupe!, Fernando Schmitt, reforça que falar em jogo responsável pressupõe que o consumidor compreenda orçamento e saiba quando parar.
“Sem educação financeira, a frase curta transfere para o consumidor uma obrigação que também pertence às empresas e ao Estado”, explica.
Para ele, os alertas representam apenas uma parte da proteção necessária, sendo indispensável limitar anúncios em conteúdos acessíveis a menores, controlar a frequência das campanhas e apoiar ações permanentes de educação financeira.
Lavagem de dinheiro e esquemas bilionários
Enquanto a Câmara de Itabira se antecipa com medidas locais para enfrentar os impactos das apostas esportivas, em nível nacional a Polícia Federal deflagrou recentemente a Operação Arena, que investiga um esquema bilionário de lavagem de dinheiro ligado às plataformas de apostas.
A ação cumpriu 17 mandados de busca e apreensão em cinco estados (Paraíba, São Paulo, Sergipe, Rio de Janeiro e Paraná). E determinou o bloqueio de bens e valores que podem chegar a R$ 1,1 bilhão.
Entre os principais alvos está o advogado Nelson Wilians, fundador do NWADV, considerado um dos maiores escritórios de advocacia do país. Conhecido como “advogado ostentação”, Wilians acumula mais de 1,4 milhão de seguidores nas redes sociais, onde exibe carros de luxo, jatinhos e festas.
Ele já havia sido investigado em outras operações, como a Operação Distrato, que apurava fraudes bilionárias de ICMS em São Paulo. Agora, seu nome aparece novamente associado a práticas de ocultação de bens e movimentação irregular de recursos.
As empresas envolvidas incluem a PixBet, sediada na Paraíba, e a PixStar, registrada em Curaçao e apontada como empresa fantasma usada para movimentar dinheiro e ocultar a origem e o destino dos valores.
Segundo a investigação, o esquema envolvia evasão de divisas, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro nacional.
Esse cenário mostra que o problema das apostas não se limita ao vício e ao endividamento das famílias. Ele também se conecta a grandes estruturas empresariais e jurídicas, movimentando cifras bilionárias e exigindo atuação firme das autoridades.
Iniciativas municipais
Enquanto a repressão nacional se concentra em esquemas financeiros e crimes contra o sistema bancário, em Itabira o Legislativo municipal busca proteger a população com medidas de conscientização e prevenção.
Os projetos aprovados pela Câmara mostram que, diante de um problema que já é considerado uma pandemia social, Itabira está construindo uma resposta própria.
Ao trazer o tema para o centro do debate legislativo e propor ações de conscientização, pesquisa e formação, o município se posiciona no enfrentamento de um fenômeno que afeta a saúde mental, as finanças pessoais e a vida das famílias brasileiras.
Assim, o combate às apostas se revela como uma luta que precisa ocorrer em múltiplas frentes, com a repressão aos grandes esquemas de lavagem de dinheiro conduzida pela Polícia Federal, passando pela construção de políticas públicas locais voltadas para a proteção da comunidade.
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