Cacá Amoroso, a professora “comunista” que ensinava seus alunos a interpretar a realidade brasileira mesmo ensinando Moral e Cívica
Fotos: Carlos Cruz
Muitos pensam que foi o advogado Marcus Vinicius Lage Moreira, falecido recentemente, quem trouxe a sua mulher, socióloga e professora Maria do Carmo “Cacá” Senra Moreira para Itabira, mas foi justamente o contrário. Foi ela quem veio primeiro, quando conseguiu emprego na recém-criada Faculdade de Ciências Humanas de Itabira (Fachi) e no antigo ginásio estadual, hoje, EEMZA.
Naquela ocasião, Cacá já trazia consigo uma trajetória marcada pela paixão pelo conhecimento e pela vontade de compartilhar tudo o que apresendeu no curso de Ciências Sociais e na especialização em Sociologia, que cursou na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), da UFMG.
Nascida em Rio Pomba, cresceu entre a disciplina das freiras italianas e a irreverência da mãe, que questionava tradições e incentivava as filhas a pensar por si mesmas. Do pai herdou a alegria e o gosto pela dança.
Em Belo Horizonte, mergulhou no movimento estudantil, descobriu a política em meio às discussões sobre Cuba e viveu intensamente os anos de efervescência e repressão da ditadura militar. Foi nas passeatas estudantis que conheceu Marcus Vinicius, estudante de Direito e militante do Partidão, com quem se casou em 1966.
Foram morar em Ferros, na fazenda do sogro. Mas logo surgiu a oportunidade de lecionar em Itabira, onde Cacá se destacou como professora e intelectual. No ginásio estadual, em plena ditadura, aceitou dar aulas de Moral e Cívica, mas transformou a disciplina em espaço de reflexão crítica sobre os problemas brasileiros. Incentivava os alunos a ler, emprestava livros e os ensinava a interpretar a realidade além dos limites da cidade.
Mais tarde, como primeira superintendente da Fundação Cultural de Itabira, implantou projetos que valorizavam o artesanato, a cultura popular e a educação, deixando marcas duradouras. Sua trajetória é também a história de uma geração que enfrentou o autoritarismo da ditadura militar e buscou transformar o país pela educação e pela cultura.
Ao final desta entrevista, Cacá se despede com emoção, contando como recebeu de sua eterna amiga Myriam Brandão e guardou o poema “Em Paz”, de Amado Nervo, que resume sua relação com a vida de gratidão, serenidade e consciência de ser a arquiteta do seu próprio destino.
(CC)
Infância e raízes em Rio Pomba
Para início de conversa, conte onde você nasceu, de onde você veio?
Em Rio Pomba, uma cidadezinha muito aprazível até hoje. Nasci em 11 de maio de 1943. Eu procedo de uma família de cinco membros. Eu tinha 14 anos quando a minha mãe teve o meu irmão mais novo.
Nós éramos quatro homens e duas mulheres. Hoje estamos vivas só a Lila e eu. Meus irmãos todos morreram muito cedo, todos com pouco mais de 60 anos. Três deles morreram dormindo. Eu acho essa uma forma maravilhosa de morrer.
Concordo, mas não na idade que eles morreram. Quando você saiu de Rio Pomba?
Eu tinha 14 anos. Nós morávamos na roça ainda, na fazenda. Lila e eu estudávamos em um colégio de freiras italianas, onde havia internato, mas na segunda fase do ensino básico eu estudei externa, juntamente com a Lila, minha irmã.
Devia ser um colégio muito conservador…
Sim. A minha mãe era uma mulher muito interessante, sabe? Tudo que as freiras faziam para a gente ficar umas dondocas muito instruídas para os assuntos domésticos, a minha mãe destruía nas nossas férias.
Eu me lembro de umas coisas interessantíssimas dela. Por exemplo, da gente acordar no domingo e vestir aquelas roupas domingueiras. E ela perguntava: “As meninas vão aonde?” A gente respondia que íamos à missa. E ela dizia: “Meninas, vocês já vão à missa o ano todo? Vão dormir.”
Sua mãe era subversiva? Qual era o nome dela?
Maria José Amoroso Lima Senra e o meu pai Humberto de Oliveira Senra. A minha mãe era rebelde e muito crítica. E eu acho que a minha rebeldia é dela. Era uma mulher rebelde e muito séria ao mesmo tempo. Já o meu pai era toda alegria.
Toda a alegria que a gente tinha veio de papai. Ele se preocupava com coisas agradáveis. Por exemplo, aprender a dançar. Ele dava aula para mim e a Lila, enquanto a mamãe dava aula de dança para os meninos.
Nós éramos grandes dançarinos. Não sei se você se lembra que o meu pé de valsa aqui em Itabira era o seu Bebé Magalhães. Porque eu só fui descobrir que o Marcus não sabia dançar após seis meses de casada.
Juventude e descobertas em Belo Horizonte
Antes, no namoro, não dançavam. Só faziam política estudantil?

Não, ele só fazia política, era do Partidão (Partido Comunista Brasileiro). Nós fomos para o casamento de uma prima dele em Nova Era e tinha dança. Eu o chamei para dançar e ele respondeu: “Eu não sei dançar.” Eu respondi, pasma: “O quê? Eu casei com um homem que não sabe dançar?” Mas mesmo assim, tínhamos uma vida muito boa.
De Rio Pomba você foi para Belo Horizonte?
Sim, no final dos anos 50 fui estudar no Colégio Estadual Central, fazer o científico, e a Lila foi para o Instituto de Educação, que era o colégio das moças.
Tinha um exame de admissão muito concorrido.
Dificílimo. Mas eu era muito boa estudante, sabe? Muito boa. Achei que não tinha passado e já estava me preparando para fazer magistério. Foi papai quem me deu a notícia de que eu tinha passado.
Foi no Colégio Central que você começou no movimento estudantil?
De certa forma, sim. Eu entrei quando teve a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba – e eu não entendia o que estava acontecendo, ouvia os colegas de sala, a maioria homens, comentando, mas eu ainda não lia jornais. Perguntei e comecei a me interessar pelo noticiário e pela política.
Na minha sala de aula havia 29 rapazes, só eu de mulher. Aquela garota que saiu do colégio de freira, aquele cabeluzinho comprido, eu era ruiva, sabe? E os meninos implicavam comigo.
Faziam bullying?
Na época não se chamava assim, mas botavam chicletes no meu cabelo… era um ato violento, mas eles não eram violentos. Agora, é claro que todos os erros que eu aprendi com aqueles meninos permearam a minha vida. Eu aprendi a fumar com eles, sabe? Eu aprendi a beber com eles, com 14, 15 anos.
É a idade que se começa a praticar os primeiros vícios…
É a idade própria. Mas eles me explicaram o que estava acontecendo em Cuba, eram todos da linha católica, da Ação Católica, antes de virar marxista-leninista. Eu pensei comigo: essa linha muito católica eu não quero, não. Já estava virando marxista antes deles.
Eu já estava cheia de religião, já havia engavetado meu problema com Deus. Agora estou desengavetando.
Do Colégio Central você passou direto no vestibular na Federal?
Sim, fiz o vestibular e passei da primeira vez. Fui para a faculdade, para a Fafich, cursar Ciências Sociais, no território livre da nação, que era o sétimo andar. Depois me especializei em Sociologia, após ficar em dúvida se faria Ciências Políticas.
Ditadura e repressão na Fafich
Isso já em plena ditadura?
Um pouco antes, em 1963. Eu me formei em 66, aí já na ditadura.
Então você viveu o golpe dentro da Fafich, com aquela efervescência e repressão que se abateu nas universidades.

Foi um momento muito difícil, uma repressão muito grande. Foi realmente muito pesado. A faculdade vivia sendo invadida, e infelizmente tinha um colega dedo-duro e, por deduragem dele, muitos colegas foram presos sem nenhuma acusação, apenas diziam que eram subversivos.
Eu mesma fui chamada a depor no início do golpe por participar do diretório acadêmico de Ciências Sociais. O sétimo andar da Fafich era o nosso território livre, com os cursos também de jornalismo e filosofia.
Era uma faculdade muito boa. Eli Bonini era o nosso professor de antropologia cultural. Aprendi muito com ele, eu sou fruto dele, depois também como psicólogo renomado. Um professor brilhante, muito fora da curva, sabe? Muito fora da curva mesmo. E ele foi preso no Dops, mas não era comunista – diziam que era subversivo.
Como eram perseguidos todos que ousavam divergir do regime militar…
Foi muito triste ter vivido isso, de ver o Bonini e tantos outros colegas acusados e até torturados, denunciados por um dedo-duro da nossa sala. Um crápula, ele ainda está vivo. Também não deu em nada que presta na vida, sabe?
Foram momentos de muita tristeza, como no dia em que prenderam a Etiene, ela fazia História na Fafich. (N.R.: Inês Etiene, militante da Vanguarda Popular Revolucionária – VPR, que anos mais tarde, em 1979, se tornou a única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis, mesmo depois de passar por 96 dias de torturas com violência física, sexual e psicológica. Denunciou seus algozes à OAB em 1979, quando saiu da prisão, o que possibilitou localizar a Casa da Morte e identificar agentes que atuavam no local. Etiene faleceu aos 72 anos, em 2015, em Niterói).
Ela está no Brasil Nunca Mais. (N.R.: Projeto Brasil: Nunca Mais, desenvolvido por Dom Paulo Evaristo Arns, Rabino Henry Sobel, Pastor Jaime Wright e equipe entre 1979 e 1985, que documentou os crimes de tortura da ditadura militar).
O encontro com Marcus Vinicius e o casamento
Você conheceu Marcus Vinicius no movimento estudantil, foi nessa época?
Quando a gente fazia as passeatas e vinha a repressão, corríamos para a Igreja São José. Foi lá que comecei a namorar Marcus Vinicius. Ele fazia Direito na Federal, mas frequentava a Fafich, onde fazia um curso de estudos sociais. Ele era filiado ao Partido Comunista, daí que eu também fiquei mais próxima do Partidão, como era chamado.
Na minha sala havia três tendências ideológicas. Tinha o pessoal católico da AP (N.R.: Ação Popular, ligado às comunidades de base da Igreja Católica e que depois virou marxista-leninista), a turma da Polop (Política Operária, organização revolucionária marxista) e os militantes do Partidão.
Marcus Vinicius chegou a ser preso, foi perseguido por ser do Partidão?
Não foi preso. Mas respondeu a um IPM (Inquérito Policial Militar), foi interrogado, mas não chegou a ser preso. Só dormiu lá um dia, rsrsrs. Até hoje tem gente que fala que ele fugiu para a fazenda, em Ferros, para não ser preso. Não teve nada disso. A faculdade ficou fechada pela repressão, então ele foi para a roça.
Quando vocês se casaram?
Nós casamos no final do curso, em 1966, e em 1967 fomos morar na fazenda do pai de Marcus, em Ferros. Fomos para lá porque não tínhamos onde viver, e ele ficou trabalhando com uma serraria.
Mamãe, no início, tinha horror do Marcus. Ela me dizia para não casar com fazendeiro, que isso era coisa do passado, porque ela mesma havia casado com fazendeiro. Eu respondia: “Mas mamãe, eu estou apaixonada.” E ela retrucava: “Oh, minha filha, o amor acaba.” Eu dizia: “Mas a gente tem outras coisas para substituir.”
E como foi a vida na fazenda?
Um inferno astral. Como fiquei devendo uma matéria na faculdade, eu tinha de voltar para Belo Horizonte de 15 em 15 dias para frequentar a aula de História Social. Como eu vinha de Ferros, com a estrada de terra, naquele poeirão, eu passava na casa de tia Dita, que era casada com o tio do Marcus, o tio Raul Martins da Costa, morava ali na Água Santa, pai do Antônio “Meia Noite”.
Tio Raul achava que todo parente que passasse por Itabira tinha de almoçar e tomar banho na casa dele. É claro que eu passava lá para tomar banho, para chegar bonitinha em Belo Horizonte. Foi num desses almoços que fiquei sabendo pela tia Dita que estava para abrir uma faculdade em Itabira.
Chegada a Itabira e início da docência
Isso já em 1968, né?

Um pouco antes, foi uma oportunidade para mudar para Itabira. Fui atrás do Marcos Noronha (N.R.: primeiro bispo de Itabira, que depois renunciou, tendo sido responsável pela implantação das Comunidades de Base em Itabira e fundador da Faculdade de Ciências e Humanas de Itabira, já falecido). Quando cheguei, o Marcos levou um susto: eu vestida com uma minissaia da época, estava com 25 anos.
Eu me apresentei, ele foi muito simpático comigo, era um homem muito bonito. Disse a ele que queria entrar na faculdade e ele respondeu que o vestibular havia acabado, que só no próximo ano eu poderia entrar. “Mas eu quero ser professora”, respondi. “Formei em estudos sociais com especialização em sociologia.” Mas para dar aula de sociologia já não tinha vaga, foi contratada uma professora de Belo Horizonte, “vem da Católica”, ele me disse. “Eu posso dar aula de História Social”, ponderei. “Posso dar aula de Geografia Humana ou de Antropologia.”
Quando ele me disse que precisavam de professor de História Social, mas que só tinha seis aulas por semana – o que era muito pouco para eu sair de Ferros e vir morar em Itabira, com Marcus continuando por lá –, ele lembrou que havia vaga no ginásio estadual (N.R.: hoje, EEMZA). “Você pode dar aula também para o segundo grau.” Eu topei. Assim peguei as poucas aulas na faculdade e também no ginásio estadual.
Marcus em Itabira e os primeiros anos
E o Marcus, mudou para Itabira também?
Quando eu voltei para Ferros e contei que tinha arrumado emprego, ele quase enlouqueceu. “Você está ficando doida? Eu vou morar aqui sozinho?” Respondi que ele podia vir no fim de semana: “Não vou ficar aqui com esses trabalhadores a tapar buraco de casa, não.” “Seu pai me disse que eu poderia abrir uma escola aqui na fazenda, mas até hoje não arrumou onde abrir essa escola.”
Eu queria essa escola, tinha muita gente analfabeta na fazenda. Mas seu Vinicius (sogro) achava que eu ia fazer uma revolução comunista na fazenda. Como decidi que viria, o Marcus não deu conta de ficar lá sozinho.
Chegou um amigo e disse para ele largar a porcaria da serraria, que não estava dando certo, e mudar também para Itabira, para seguir na profissão de advogado. Aí ele veio também, perguntou se eu dava conta de pagar o aluguel e nossa alimentação por cinco anos. Eu respondi que dava, que a gente pagaria na caderneta, e assim fizemos até ele começar a ganhar dinheiro, advogando contra a Prefeitura e a Vale. Só que não imaginei que teria de pagar até custas judiciais.
Turbulência em Itabira
Foi um momento de muita turbulência também em Itabira, a catedral caiu, o bispo renunciou…
Sim, o Marcos Noronha tinha um trabalho muito interessante na diocese, de implantação das comunidades eclesiais de base, o que provocou muita ira da elite conservadora itabirana. Era um trabalho maravilhoso. Pena que durou pouco, muitos padres abandonaram a Igreja para se casar, inclusive o bispo. Depois veio Dom Mário Gurgel, um bispo muito vaidoso.
Docência e mudanças na educação
Como foi dar aula na faculdade?
Naquele tempo, os operários da Vale investiam na educação dos filhos homens, nas meninas não. Elas tinham que fazer curso de magistério, não podiam sair de Itabira. Eram valores do século passado, de que mulher é feita para casar e cuidar do lar. Com a faculdade, isso mudou muito, abriu a cabeça de todas elas, que se tornaram alunas maravilhosas, tornaram-se outras, nada de ser mulher do lar.
Itabira não tem mais cursos de Letras e nem de Ciências Sociais.
Não tem mais cursos de magistério. Hoje pode-se formar em qualquer área para virar professor. Eles nunca leram Paulo Freire, nunca leram Emília Ferreiro (N.R.: psicóloga, pedagoga e pesquisadora argentina que revolucionou a alfabetização infantil ao provar que a criança é um sujeito ativo que constrói o próprio conhecimento).
Mas infelizmente, muitas que se formaram na faculdade foram trabalhar na Vale, na Caixa e no Banco do Brasil. Perdemos boas professoras. Mas as que ficaram, como a Danja, Graça e Ana Lima, fizeram muito pela educação em Itabira, principalmente no ensino de Português e Literatura.
Moral e Cívica em plena ditadura
No ginásio você deu aula de Moral e Cívica em plena ditadura e tratava dos problemas brasileiros. Como você conseguia? Além disso, fazia o maior sucesso por ir dar aula de minissaia.
Isso foi em 68, depois do golpe dentro do golpe, quando mudaram a grade curricular. Padre Zé Lopão era o diretor, mas quem mandava era Eunice Faria, que foi minha aluna na faculdade e era a vice-diretora. Ela chegou e me disse que eu teria de dar aula de Moral e Cívica. Aceitei constrangida, e na minha máquina de escrever mudava todo o conteúdo, rodava tudo no estêncil.
Foi quando descobri que os meninos não tinham hábito de leitura. Passei a indicar livros para leitura, comprava até para os que não tinham recursos, para eles aprenderem a gostar de ler. Eu levava meus livros para os meus alunos, dava prazo para eles lerem e depois discutíamos o conteúdo em sala de aula.
Um dia encontrei um ex-aluno num supermercado e ele me chamou pelo nome. Não o reconheci, ele me disse: “Sou um dos seus alunos que pensava que o mundo começava no Cauê e acabava no Areão.” Eu perguntei: “Você ainda pensa assim?” Ele morreu de rir. Mas ele era um aluno muito quadradinho, diferente dos alunos do bairro Pará.
Naquela época, final da década de 1960 e início de 1970, havia uma diferença enorme entre os alunos da cidade, muitos eram muito conservadores, muito diferentes de vocês, do Pará, que já gostavam de ler, tinham visão mais crítica naquele triste período de nossa história.
Marcos Noronha e a UEMG
Voltando a Marcos Noronha, quando ele estava trabalhando na Secretaria de Estado de Educação, ele quis trazer a Universidade Estadual de Minas Gerais. Itabira ia ter o primeiro curso de Engenharia Ambiental do país. Mas sofreu boicote, preferiram abrir a Funcesi.
Foi quando a Fide teve de fechar a Fachi, que era muito deficitária, estávamos com pouquíssimos alunos. Marcos Noronha, que estava trabalhando com Aloisio Pimenta na Secretaria de Educação, quis trazer a UEMG, que estava sendo revitalizada. Mas não quiseram, por certo acharam que iria abrigar as professoras subversivas da antiga Fachi, que promoviam debates e a Semana da Literatura. Itabira perdeu, ficamos com uma coisa pior…
E a Funcesi acabou fechando todos os cursos de Humanas.
Não davam lucro.
Dom Mário ficou com ciúmes de Marcos Noronha e a Vale também não quis a UEMG.
Não quis também a UFOP, quando Marco Antonio Furtado (N.R.: ex-engenheiro da Vale que ajudou a fundar o jornal O Cometa, pediu conta da mineradora e foi lecionar em Ouro Preto), como vice-reitor, quis trazer um campus avançado para Itabira. Mas a Vale nunca se interessou. Acabaram abrindo um campus em outro lugar, não sei onde foi.
Foi para João Monlevade. Preferiram a Unifei, que só tem faculdades de Engenharia.
Pois é, seria uma revolução se tivéssemos a UEMG e a UFOP em Itabira. Mas o que precisamos mais é investir no ensino básico. O Brasil, com Lula, optou por abrir novas universidades, muitas de baixa qualidade. O Brasil se esqueceu da educação básica, que é fundamental para formar cidadãos.
Fundação Cultural de Itabira
Você foi a primeira superintendente da Fundação Cultural de Itabira. Como foi?
Isso depende, há quem ache que foi Sérgio Rosa, que respondeu interinamente pela área de cultura até que fosse criada a Fundação. Mas eu fui mesmo a primeira superintendente, e foi uma experiência fantástica.
Foi no primeiro ano de sua gestão que Itabira deixou de promover o Festival de Inverno?
Sim, foi no ano em que assumi com a criação da Fundação. Precisamos ter um tempo para montar a equipe, organizar a instituição. Mas só aceitei o cargo se a Myriam Brandão permanecesse ao meu lado. Falei assim: “A Myriam é brilhante, só aceito o cargo se ela permanecer ao meu lado.” Zé Maurício (N.R.: prefeito na época) concordou.
Montei uma equipe competente, com Andreia Brandão apoiando e reabilitando os grupos da cultura popular, veio o Lelinho também. E contei com a organização da Conceição Menezes, que era da Fazenda e veio trabalhar conosco, para cuidar da burocracia.
E como você avalia a sua gestão cultural?

Eu não entendia muito de gestão, mas tinha um conselho de cultura que realmente funcionava. Acredito que consegui fazer uma gestão cultural muito boa. Zé Maurício pagava jetons aos conselheiros quando participavam das reuniões – isso não se paga mais.
Como era a política cultural em sua gestão?
Eu tinha claro que a cultura tinha de andar ao lado da educação e não era só fazer grandes eventos. Então, tínhamos uma política do fazer cultural. Eu deixava a Myriam no canto dela, fazendo o que gostava, organizando os eventos para o Festival de Inverno, o que ela fazia com muita dedicação e competência. Apoiamos os artesãos, implantamos o Centro de Artesanato, trouxemos cursos de cerâmica, pintura, teatro. Compramos o forno para a cerâmica.
Hoje, quando vejo um trabalho em cerâmica, percebo a qualidade e sinto orgulho, pois sei que nasceu desses cursos. Erli Fantini veio dar cursos, muitos alunos viraram ceramistas de primeira, basta ver a qualidade da cerâmica itabirana hoje.
A Andreia, apaixonada pela cultura popular, trouxe de volta os grupos de marujos, as bandas de música Euterpe e Santa Cecília. Depois de mim, até coroação de Nossa Senhora fizeram no Centro Cultural.
Vida intelectual e política
Como você acompanha o noticiário nacional?

Eu acompanho os principais jornais pela internet. O Vladimir fez assinatura para mim da Folha de S. Paulo, Estadão, O Globo. Acompanho o noticiário da grande imprensa sempre com olhar crítico. E, claro, leio também a Vila de Utopia, gosto muito.
Eu gosto de ouvir opiniões divergentes, sabe? Participo também de um clube de leitura, coordenado pelo Getúlio Brasil, meu ex-aluno na Fachi. Quando terminamos a leitura de uma obra, discutimos, trocamos ideias. É muito interessante, tudo isso virtualmente.
Para terminar a nossa conversa, como você analisa a situação política do país? Teme a volta do bolsonarismo?
Não, não temo, depois que eles escolheram aquela marmota do filho para representar a extrema-direita. E ainda mais depois do escândalo do Banco Master e o filme do pai – um escândalo que precisa ser apurado –, como também depois de botar IA com Bolsonaro fake falando na convenção, com a vinda do palhaço do Milei para participar da convenção, foi tudo tiro no pé.
Eu voto no Lula, mas sinceramente gostaria de votar em alguém mais à esquerda, no Boulos, por exemplo, ou mesmo no Haddad. O Lula é de centro-esquerda e, mesmo sendo um reformista, não tem conseguido avançar com as pautas progressistas. O Congresso também não deixa.
Mas é ele quem tem nos salvado do neofascismo?
Sim, concordo. Por isso vou votar nele, mas é um voto útil, no menos ruim. Gostaria de um dia votar em um bom candidato, que tenha um bom programa, em quem eu realmente acredite.
Nós não temos mais liderança, é bem possível que teremos um Congresso pior que o atual. É a oligarquia que continua mandando no país. O Congresso é uma capitania hereditária, um poder político familiar que passa de pai para filho.
Encerramento com Amado Nervo

No fim da entrevista, emocionada, Cacá lê um poema que Myriam Brandão lia constantemente para ela no Centro Cultural e que ela conserva em um quadro na parede de sua casa. Chama-se Em paz. É do jornalista, diplomata e poeta mexicano Amado Nervo (1870–1919):
“Muito perto do meu ocaso, eu te bendigo, vida, porque nunca me deste esperança falida, nem trabalhos injustos, nem pena merecida. Porque vejo ao final do meu rude caminho que eu fui o arquiteto do meu próprio destino. Que se extrai mel ou fel das coisas, foi porque eu as pus mel ou fel nelas. Quando plantei roseiras, colhi sempre rosas. Verdade, minha colheita foi de minhas mãos. Verdade, que o meu fardo foi minha culpa. Mas tu nunca me disseste, vida, que me devias nada. Vida, nada me deves. Vida, estamos quites.”










A Cacá está um velha belíssima.
Cacá, o Haddad e Boulos não são de esquerda, eles são progressistas.