Depois de grafitar muro no Festival de Inverno, Jayme Guerra expõe com o filho em São Paulo
Fotos: Carlos Cruz
Artista plástico itabirano reconhecido fora de sua cidade natal, mas que só recentemente começa a ser valorizado em Itabira, transforma muro da Secretaria de Agricultura em obra de arte durante o Festival de Inverno e, junto com o filho Gabriel, prepara exposição no SESC Santo Amaro, em São Paulo
Jayme Guerra, artista plástico e escultor itabirano de 72 anos, grafitou no último Festival de Inverno de Itabira o painel Travessia do Inconsciente, na avenida das Rosas, no muro da Secretaria Municipal de Agricultura.
A obra, carregada de simbolismo e executada com técnicas que misturam surrealismo, barroco e cubismo, traduz os altos e baixos da vida em imagens de relógios, fornalhas, olhos saltados e janelas abertas para a esperança.
“Minha obra não é linear, é feita de altos e baixos, como é a nossa vida”, disse o artista. “O inconsciente se revela também pela arte”, filosofa, prenhe de razão.
Agora, Jayme parte para São Paulo, onde expõe ao lado do filho Gabriel Guerra no Centro Cultural SESC Santo Amaro, entre 15 e 30 de agosto. O tema da mostra é Pais e Filhos, em alusão ao Dia dos Pais.
Na exposição, Jayme apresentará esculturas e pinturas, enquanto Gabriel fará grafites e telas, incluindo uma intervenção efêmera dentro da sala expositiva, que será apagada após 15 dias, além de um grafite permanente na portaria.

A política de colorir Itabira e o grafitismo pioneiro do Cometa Itabirano
O grafitismo em Itabira ganhou impulso no governo Marco Antônio Lage (PSB), com murais espalhados por várias laterais e paredes da cidade, como contraponto à paisagem minerada e degradada da Serra do Esmeril.
A cidade tem ficado mais colorida e atrativa, inclusive turisticamente, com obras de artistas renomados como Eduardo Kobra, que pintou Drummond na empena do Hotel Itabira It, além de outros nomes convidados pela Mostra de Arte Pública (MAPA).
Mais do que embelezar, esses murais funcionam como resistência estética e política. São uma resposta simbólica à mineração, uma tentativa de devolver à cidade uma fisionomia de beleza e esperança, transformando muros em telas e ruas em espaços de memória e pertencimento.
Mas a ideia de levar arte para os muros não é invenção recente. Em novembro de 1980, para comemorar seu primeiro aniversário, o jornal O Cometa Itabirano convidou seis artistas locais para pintar o muro da família Couto, na rua Trajano Procópio, na pracinha do Pará.

O jornal registrou as pinturas em sua edição de dezembro daquele ano: “Uma pena que o Cometa não seja a cores para nosso leitor admirar a profusão de cores dos murais realizados por pintores de Itabira… O vermelho, o amarelo, azul e preto, o verde – cores que expressam mensagens de cada um dos nossos artistas itabiranos: Magda, Cordeiro, Gê Maria, Pedro Russo e Solange Bethônico. Cada um com seu estilo, sua técnica, sua arte.”
E concluiu com uma frase que ainda é atual como proposta que agora ecoa na cidade: “Que a ideia de murais nas ruas seja estendida a outros locais, dando uma nova fisionomia de beleza e arte a esta cidade já tão feiinha.”
É assim que, quase meio século depois, os grafites de Eduardo Kobra e outros, somados agora com o de Jayme Guerra no Festival de Inverno, retomam com essa proposta formulada pelo O Cometa na década de 1980, reafirmando a arte urbana como parte da identidade cultural de Itabira.
Entre o ateliê da rua Dom Prudêncio e o mundo

Jayme Guerra é um artista reconhecido fora de Itabira, mas que só agora começa a ter seu trabalho valorizado em sua cidade natal, onde reside e mantém seu ateliê na rua Dom Prudêncio, 141.
Escultor e pintor, sua pesquisa artística é marcada pela busca da interseção entre técnica e conceito, explorando a dualidade entre belo e obscuro, fato e fantasia.
“Eu gosto que cada espectador tenha sua própria interpretação”, afirma. “Meu trabalho sempre traz dualidades, porque a vida é feita delas.”
No painel Travessia do Inconsciente, Jayme utilizou tinta acrílica sobre muro, técnicas de recorte com fita crepe e o recurso barroco do ex-graffito, uma técnica de raspar a camada superior de tinta para revelar a inferior, criando contraste e textura.
No painelessa escolha dá força simbólica e estética à obra, aproximando o grafite da tradição barroca e renascentista, conforme explica o artista.
Para garantir durabilidade do painel, ele aplicou duas camadas de resina acrílica impermeabilizante. “Protege contra sol e chuva, só não contra pichação. Mas, em geral, os pichadores respeitam, porque veem o grafite como uma pichação elaborada”, explica.
Arte como travessia coletiva

A trajetória de Jayme Guerra simboliza também a travessia de Itabira, tema do último Festival de Inverno.
Afinal, trata-se de uma cidade minerada já quase à exaustão, mas que sempre foi também espaço de resistência, sobretudo por meio da arte e da escrita, principalmente de seu filho mais ilustre, Carlos Drummond de Andrade.
Nesse contexto cultural, o muralismo e o grafitismo não apenas embelezam a paisagem urbana.
Funcionam também como espaços de resistência estética e política, oferecendo à população uma nova forma de pertencimento em meio às contradições de uma cidade extrativista.
Jayme, que por décadas foi mais reconhecido fora de Itabira do que em sua própria cidade, agora vê sua obra ganhar espaço e respeito. “É importante que Itabira reconheça seus artistas, porque a arte também é parte da nossa identidade”, afirma.
Sua intervenção no Festival de Inverno e a exposição que fará em São Paulo consolidam sua trajetória artística, ganhando impulso ao lado do filho Gabriel.
E Itabira, com esse movimento que transforma muros em símbolos de travessia, memória e futuro de uma cidade que, mesmo “tão feiinha”, carcomida pela mineração, ainda encontra na arte urbana sua nova fisionomia, traduzida na possibilidade de se reinventar e oferecer melhores condições de vida para toda a sua população.









