Candidatos paraquedistas já estão chegando a Itabira
Culto evangélico em Itabira, realizado no ginásio da Ativa, no domingo (26): Eduardo Cunha aparece no palco, sendo o terceiro da esquerda para a direita
Foto: Reprodução
Ex-deputado, cassado por corrupção, tenta se reinventar em Minas e já busca apoio em Itabira
Itabira, com mais de 90 mil eleitores, historicamente tem sido terreno fértil para políticos sem vínculos com a cidade.
A origem mineradora, e garimpeira, marcada por ciclos de exploração e por uma população que muitas vezes veio de fora em busca de oportunidades rápidas, contribuiu para a ausência de uma cultura política de pertencimento.
O resultado é a pulverização dos votos entre diversos candidatos, locais e de fora, o que impede a consolidação de lideranças próprias – e deixa o município sem representação local na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e na Câmara dos Deputados, em Brasília.
Paraquedistas e falta de representatividade
Nas eleições de 2022, os votos em Itabira se dividiram de forma que nenhum candidato local conseguiu se eleger. Para deputado estadual, João Izael obteve 16.779 votos e Bernardo Mucida 16.492, mas ambos ficaram fora da Assembleia Legislativa. Para deputado federal, Neidson Freitas recebeu 15.401 votos e Weverton Vetão 7.530, também sem sucesso.
Enquanto isso, candidatos que nunca tiveram ligação direta com Itabira receberam votações expressivas. A maioria sequer pisou os pés em Itabira, daí que não respiraram o ar poluído pela mineração para sentir o drama da cidade minerada, que vive o crepúsculo de sua principal atividade econômica.
Para deputado federal, Nikolas Ferreira (PL) conquistou 7.808 votos, Lincoln Portela (PL) 1.566, Duda Salabert (PDT) 1.369, Reginaldo Lopes (PT) 1.093, Célia Xakriabá (PSOL) 1.057 e André Janones (Avante) 999 votos. Para deputado estadual, além dos locais, destacaram-se Bruno Engler (PL) com 2.600 votos, Tito Torres (PSD) com 2.073 e Alê Portela (PL) com 1.141 votos no colégio eleitoral de Itabira.
Esse quadro mostra como a fragmentação eleitoral tem deixado o município sem representantes próprios, reforçando a dependência de políticos de fora, sem conseguir transformar sua força eleitoral em mandatos locais.
A pulverização dos votos, somada à presença de candidatos “paraquedistas” que se aproveitam da fragilidade política e da ausência de uma cultura de pertencimento, explica por que Itabira permanece sem voz própria na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
Eduardo Cunha tem histórico marcado por escândalos
Sem perder tempo, o ex-deputado Eduardo Cunha esteve em Itabira, neste domingo (26), quando participou de um culto da Assembleia de Deus, realizado no ginásio da Ativa, onde subiu ao púlpito ao lado de lideranças religiosas.
Cunha é um dos nomes mais controversos da política brasileira. Como presidente da Câmara dos Deputados, foi o principal articulador do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, um golpe parlamentar engendrado por políticos do centrão e da extrema direita.
Em setembro daquele ano, teve o mandato cassado por quebra de decoro e pouco depois foi preso pela Operação Lava Jato, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, com penas que somaram mais de 15 anos.
Cumpriu parte da pena em regime fechado e domiciliar, sendo solto em 2021. Em 2022, tentou se eleger deputado federal por São Paulo, mas obteve apenas 5.044 votos, fracassando em sua tentativa de retorno político a Brasília.
A nova estratégia em Minas Gerais
Após esse insucesso, Cunha transferiu seu domicílio eleitoral para Belo Horizonte em dezembro de 2025. E agora, com a abertura das convenções partidárias, teve sua candidatura homologada pelo Republicanos.
Sua estratégia eleitoral tem sido de buscar apoio de igrejas evangélicas, participando de cultos. Para isso, tem feito uso de rádios religiosas como instrumento de influência, como a Rede Maravilha FM, sediada no Triângulo Mineiro, onde concentra sua campanha.
Em Itabira, sua presença gerou desconforto entre fiéis que não concordam com o uso político da igreja e de seus incautos fiéis que acreditam em seu discurso fisiológico e fundamentalista.
Além disso, Cunha conta com apoio declarado do comerciante Wilson Campos, candidato a deputado estadual, que justificou a sua candidatura e dobradinha com o ex-deputado paraquedista como forma de “gratidão a Itabira”.
Cidade que ele diz o ter recebido muito bem em 1981, para se tornar comerciante – e agora quer se eleger deputado estadual coligando-se com o que há de pior na política brasileira.
Investigações recentes e reincidência no modus operandi
Mesmo sem mandato, Eduardo Cunha voltou a ser alvo da Polícia Federal, demonstrando que seu estilo de atuação política permanece o mesmo: operar nos bastidores, utilizando influência e conexões para manipular recursos públicos.
Desta vez, ele é acusado de interferir na destinação de emendas parlamentares, mesmo não sendo deputado, beneficiando 29 municípios mineiros com mais de R$ 6 milhões em verbas destinadas à saúde, mas com fins claramente eleitoreiros.
O esquema, segundo as investigações, envolvia a servidora da Câmara Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, que operacionalizava os pedidos de emendas em nome de Cunha, enquanto deputados aliados emprestavam seus mandatos para formalizar as indicações.
Em julho de 2026, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de R$ 6,15 milhões de bens de Cunha, além da suspensão da execução das emendas sob suspeita. A decisão foi fundamentada na constatação de que Cunha montou um “arranjo decisório paralelo”, agindo como se ainda fosse parlamentar e direcionando recursos públicos de forma irregular.
Esse modus operandi não é novidade em sua trajetória. Desde os tempos em que presidiu a Câmara dos Deputados, Cunha se destacou por manipular votações, controlar bancadas e negociar apoio político em troca de benefícios.
Foi assim que articulou o impeachment de Dilma Rousseff em 2016. E é dessa forma que tenta se reerguer agora em Minas Gerais, utilizando igrejas evangélicas, rádios religiosas e a distribuição de recursos públicos como instrumentos de influência e cooptação eleitoral.
A reincidência mostra que Cunha não abandonou as práticas que o levaram à cassação e à prisão. Pelo contrário, busca repetir o mesmo modus operandiem um novo cenário político, aproveitando-se da fragilidade de cidades como Itabira, onde a pulverização dos votos e a ausência de uma cultura política de pertencimento abrem espaço para que figuras externas se imponham.
Sua presença em cultos religiosos e o apoio de lideranças locais, como o comerciante Wilson Campos, candidato a deputado estadual, evidenciam que sua candidatura já está sendo construída com base nesse fisiologismo, que mistura religião, mídia e recursos públicos para tentar recuperar poder político.
O risco para Itabira com a história que se repete
A chegada de Cunha e de outros paraquedistas, somada à histórica divisão entre os políticos locais, seja por ideologia, vaidade ou ensaio eleitoral para 2028, coloca Itabira diante do risco de repetir a mesma história, que se repete sempre como farsa, deixando o município sem representantes próprios.
A última e única vez que o município conseguiu eleger simultaneamente um deputado estadual e um federal foi em 1988, com Luiz Menezes (PFL) e Li Guerra (PDT), mesmo eles sendo adversários políticos.
Antes disso, em 1982, o ex-prefeito Jairo Magalhães Alves havia sido eleito deputado estadual pelo PMDB. Entretanto, nenhum deles conseguiu se reeleger, justamente pela pulverização dos votos.
Mais recentemente, Bernardo Mucida foi eleito suplente em 2018 pelo PSB, em coligação com outros partidos de esquerda. E assumiu vaga em 2021, após a renúncia de Marília Campos (PT), para assumir a Prefeitura de Contagem.
Entretanto, assim que assumiu, abandonou a bancada oposicionista, aderindo ao governador Romeu Zema (Novo). Atuou como parlamentar, também com política baseada em emendas parlamentares, fazendo parte da bancada situacionista. Resultado: não se reelegeu em 2022.
Agora tenta vaga de deputado federal pelo Avante, partido de direita, enfentanto novamente a divisão de votos em sua base, uma vez que não mais conta com votos à esquerda. Mas conta ainda com o seu bom recall de quem já disputou várias eleições, agora com apoio de políticos da direita itabirana.
Outros candidatos locais também devem ter suas candidaturas homologadas nos próximos dias, a maioria sem expressão eleitoral, meros figurantes, mas que também dividem o eleitorado, como balão de ensaio para as eleições municipais de 2028.
Perdas incomparáveis, mas previsíveis
Enquanto isso, Itabira enfrenta o desafio da exaustão gradual de suas minas de ferro e da necessidade urgente de construir alternativas econômicas sustentáveis.
Sem representantes locais fortes, continuará dependente de políticos de fora para defender suas demandas, o que, aliás, pode até não ser um problema, desde que esses parlamentares tenham compromissos reais com o município.
A presença de Eduardo Cunha em culto religioso na cidade, e sua articulação com lideranças políticas e religiosas locais, mostra como os paraquedistas aproveitam a fragilidade política do município para angariar votos entre os incautos eleitores itabiranos.









