Drummond, a bola que talvez não tenha chutado e o futebol como espelho do mundo
Drummond em Copacabana
Foto: Rogério Reis (JB-1983)/ Reprodução
Entre Copas, memórias e metáforas, o poeta itabirano fez da cidade natal e do futebol temas recorrentes de versos e crônicas
Valdecir Diniz Oliveira*
A bola que Carlos Drummond de Andrade talvez nunca tenha chutado, ou quem sabe até tenha arriscado um passe no campinho de futebol atrás do grupo escolar de sua Itabira do Mato Dentro, acabou virando tema recorrente de seus versos e crônicas.
Aliás, bola e cidade natal, ambos estão fartamente presentes em sua obra literária e jornalística.
Mais que uma fotografia na parede, Itabira virou lembrança incômoda, pelos impactos da mineração em sua cidadezinha qualquer, aquela ação predatória que tudo levava, e ainda leva até quando não se sabe, no maior trem do mundo, deixando muito pouco em troca.
Já o futebol, vivido à distância pelo vascaíno confesso, mas que beijou comovido a camisa vermelha do Valério, time valente, como ele elogiou, de sua terra natal, transformou-se em metáfora da vida, da política e da alma coletiva.
Entre Copas do Mundo, metáforas sobre a bola e o futebol mais que qualquer outro esporte, afinal, a paixão nacional, assim como as memórias do “menino antigo”, Drummond fez da infância, da terra e da bola pautas literárias, ora líricas, ora irônicas, invariavelmente críticas.
Hoje, como é tempo de Copa do Mundo, a bola não parou com a saída vexatória da antes valente seleção canarinho.
Por isso mesmo, reuni “recortes digitais de IA”, como antes se fazia com gilete-press nas páginas amareladas dos jornais, enciclopédias e dicionários, para apresentar ao leitor da Vila de Utopia esse mosaico de recordações de como Drummond fez da bola uma lente para enxergar o Brasil e o mundo.
1938 – O Brasil em formação e Leônidas, o Diamante Negro
Na Copa da França, Drummond já percebia que o futebol era mais que jogo. Era identidade em construção. Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, encantava multidões.
Em crônica, o poeta registrou o fascínio popular: “Leônidas é o Brasil que se inventa no campo, o corpo que dança e engana, o chute que surpreende.”
O futebol começava a ser visto como símbolo da brasilidade.
1950 – O silêncio do Maracanazo e a tragédia coletiva
Na derrota para o Uruguai, Drummond anotou a tragédia coletiva. “O Brasil estava pronto, mas o gol não veio. E a multidão, que era festa, virou silêncio.”
O futebol se transformava assim em trauma nacional, espelho da frustração de um povo que acreditava na vitória como redenção.
1954–1966 – Garrincha, Pelé e o futebol como espetáculo humano
Alternando lirismo e ironia, Drummond exaltava Garrincha, com suas pernas tortas, como prova de que a arte pode nascer da imperfeição. O “Anjo das Pernas Tortas” era para ele a encarnação da beleza inesperada.
Pelé, por sua vez, simbolizava a genialidade popular. Em sua crônica sobre o milésimo gol, escreveu: “O difícil, o extraordinário não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé.”
O futebol aparecia como espetáculo humano, mas também como metáfora da desigualdade: a genialidade de poucos iluminava a vida de muitos.
1970 – O coração no México e o tricampeonato
Na Copa do tricampeonato vibrou como bom torcedor: “Meu coração no México. Meu coração é um estádio. Meu coração é jogador, é torcedor, é juiz.”
Pelé foi coroado “rei republicano”, e o gol descrito como epifania nacional: “Gol na minha rua, nos terraços, nos bares, nas bandeiras, nos morteiros.”
Mas mesmo nesse momento de euforia, Drummond não se deixava levar pelo ufanismo da ditadura, celebrando o futebol como arte, não como propaganda.
1978 – A Copa da Argentina e a esperança da liberdade
No Jornal do Brasil, ironizou o fim da Copa da Argentina: “Foi-se a Copa? Não faz mal. Adeus chutes e sistemas. A gente pode, afinal, cuidar de nossos problemas.”
E concluiu com esperança política: “O povo, noutro torneio, ganhará a Copa da Liberdade.”
1982 – A beleza na derrota da Seleção de Telê
Drummond Lamentou a derrota para a Itália, mas celebrou o futebol-arte de Zico, Sócrates e Falcão.
Para ele, o Brasil perdeu o jogo, mas ganhou em beleza: “Perdemos o placar, mas vencemos na arte. O futebol é também pintura, música, invenção.”
1986 – A despedida melancólica e a consciência da mudança
Já idoso, escreveu com melancolia. Reconheceu que o futebol mudava, mas ainda guardava a capacidade de unir o povo em paixão.
“O futebol já não é o mesmo, mas ainda é capaz de nos juntar em alegria e tristeza.” O cronista se despedia, mas a bola continuava a rolar.
2026 – Drummond hoje, o que escreveria?
Difícil afirmar qual seria a genialidade e o humor ácido que Drummond empregaria para escrever sobre a atual Copa.
Mas é certo que ele seria irônico e metafórico. O fracasso brasileiro seria narrado como tragédia cômica, a intervenção política como farsa imperial, o racismo como nó cego.
E os novos protagonistas globais, vindos sobretudo da Ásia e da África, surgiriam como promessa de futuro, prova de que o futebol ainda sobrevive com arte, apesar dos malefícios das bets, que corrompem e subtraem.
Ele não cairia em patriotadas, mas mostraria o futebol como espelho do mundo: desigual e contraditório, mas ainda capaz de produzir beleza e esperança.
Drummond foi cronista esportivo singular. Talvez tenha chutado uma bola na infância, talvez não. Mas soube narrar como poucos a paixão e a política do futebol.
Seus poemas e crônicas revelam que o futebol se transforma em metáfora da pátria, da arte e da esperança — e também da crítica, da ironia, da melancolia.
Drummond, que talvez nunca tenha chutado uma bola, fez dela metáfora maior: da pátria em construção, da política em eterna crise, da arte em movimento.
Itabira e o futebol, temas recorrentes e distintos, tornaram-se espelhos de um Brasil que ele soube ler com ironia e ternura.
Hoje, ao revisitar suas crônicas, percebemos que a bola continua a rolar, não apenas nos gramados, mas na literatura, na memória e na crítica social.
E, como diria o poeta, “o difícil não é fazer mil gols, é fazer um gol como Pelé”.
Talvez o mesmo se aplique à escrita: o difícil não é escrever mil crônicas, mas uma que, como um gol, ilumine o mundo. Drummond escreveu várias que sobrevivem ao tempo e continuam a contar histórias.
Fontes consultadas e referências
- Carlos Drummond de Andrade, Quando é dia de futebol (Companhia das Letras, 2014).
- Carlos Drummond de Andrade, Copa do Mundo 70 (crônicas publicadas em 1970).
- Carlos Drummond de Andrade, “Foi-se a Copa?”, Jornal do Brasil, 24/06/1978.
- Carlos Drummond de Andrade, “Pelé: 1.000”, Jornal do Brasil, 1969.
- Crônicas dispersas em Correio da Manhã e Jornal do Brasil entre 1938 e 1986.
- José Miguel Wisnik, Veneno Remédio: o futebol e o Brasil (Companhia das Letras, 2008).
- Sérgio Augusto, artigos sobre Drummond e futebol em periódicos literários.
- Registros biográficos sobre sua ligação com o Vasco da Gama e o Valério, em notas de rodapé de edições críticas e entrevistas.
*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.









