Criminalidade em Itabira expõe realidade das cidades médias e aumenta pressão por mais ações preventivas e policiamento ostensivo
Foto: Acervo Vila de Utopia
Pesquisa Atlas relaciona Itabira entre as cidades de médio porte mais violentas de Minas; já o Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que, apesar da taxa elevada de homicídios, o município não figura entre as cidades mais violentas do país nem entre as 20 piores de Minas, enquanto dados recentes da PM revelam queda expressiva nos indicadores da violência urbana
Segundo o Atlas da Violência 2024, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Itabira ocupava em 2023 a terceira posição entre as cidades mineiras de médio porte mais violentas, com taxa de 27,4 homicídios por 100 mil habitantes, atrás apenas de Governador Valadares e Nova Serrana.
O Atlas é divulgado anualmente, com base em dados oficiais do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/MS) e registros policiais. Esse recorte estadual mostra que a cidade enfrenta índices preocupantes, sobretudo em bairros periféricos, onde jovens negros são as principais vítimas da violência letal.
Já o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública com metodologia distinta, apresenta outro panorama. Nele, Itabira não figura entre as 20 cidades mais violentas de Minas nem entre as mais críticas do país. O Anuário compila dados das secretarias estaduais de segurança e justiça e do Ministério da Justiça e Segurança Pública, sendo divulgado nacionalmente com base em registros oficiais.
Essa diferença de recorte revela que, embora os índices locais sejam graves, a cidade não está no epicentro da violência nacional. O que se observa com os dois levantamentos é que esse padrão é comum em cidades médias brasileiras, sobretudo nas que estão conurbadas às grandes metrópoles, como ocorre na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Nessas áreas, a proximidade física facilita a atuação de facções e grupos criminosos. Itabira não é conurbada, mas também sofre pressões semelhantes, com o grande fluxo de pessoas vindas de outras localidades.
Somando a isso, tem-se a vulnerabilidade social em bolsões periféricos, o que cria condições para que ocorrências criminais típicas das metrópoles se reproduzam em escala local.
Indicadores recentes mostram queda

Já o balanço mais recente do 26º Batalhão da Polícia Militar, divulgado nesta terça-feira (16), em coletiva de imprensa, mostra uma realidade de queda nos índices de criminalidade.
Já o balanço mais recente do 26º Batalhão da Polícia Militar, sediado em Itabira, e divulgado em coletiva de imprensa nesta terça-feira (16), aponta viés de queda nos índices de criminalidade em Itabira.
Segundo os dados apresentados pelo comando do batalhão, as mortes violentas caíram cerca de 50% em relação ao ano anterior, enquanto os crimes violentos contra a pessoa tiveram redução de 65% e os crimes contra o patrimônio recuaram mais de 40%.
As apreensões de armas de fogo cresceram 142% e as ações contra o tráfico de drogas foram intensificadas, com maior número de prisões e apreensões. A violência doméstica segue como desafio, mas com enfrentamento mais ativo.
Esses números indicam que, apesar das pressões típicas das cidades médias, houve queda significativa nos índices de criminalidade em Itabira nos últimos anos, segundo os dados divulgados pelo comando da Polícia Militar.
Segurança pública além da polícia
A Prefeitura de Itabira reconhece que o município está no mapa da violência urbana, mas ressalta que segurança pública é um tema complexo e multifatorial.
De acordo com nota divulgada pela Coordenadoria de Comunicação da Prefeitura de Itabira, “embora seja responsabilidade constitucional dos estados, o município busca contribuir com parcerias, apoio estrutural e cooperação permanente com as polícias Civil e Militar.”
Ainda segundo a mesma fonte, “nos últimos anos, a cidade investiu em tecnologia e inteligência urbana, com câmeras de videomonitoramento em diversos pontos.” E aponta que o sistema tem ajudado na prevenção de delitos e na elucidação de ocorrências, tornando-se ferramenta importante de apoio ao trabalho policial.
A administração municipal também defende que a redução da violência passa pela ampliação de oportunidades e pela presença efetiva do poder público nos territórios.
“Investimentos em educação, saúde, assistência social, esporte, cultura e qualificação profissional, aliados à redução superior a 25% da extrema pobreza, são apresentados como fatores que contribuem para uma cidade mais segura”, enfatiza a nota da Prefeitura.
Oposição mira o prefeito
Com a divulgação do Atlas da Violência 2024, a oposição busca responsabilizar o prefeito Marco Antônio Lage (PSB) pela “onda de violência crescente na cidade”.
E relaciona como um dos motivos a sua recusa em aceitar a construção de um presídio de médio porte, o que teria agravado o problema. O argumento, porém, não se sustenta.
O presídio antigo do Rio de Peixe foi desativado, em 2020, por estar na rota de fuga da lama em caso de ruptura da barragem Itabiruçu, da Vale.
Fruto de investimento municipal, foi construído em área doada pela mineradora, que permanece devendo a restituição de uma unidade prisional de pequeno porte a Itabira.
Após a desativação, também em 2020 a Vale firmou acordo com o Governo de Minas e o Ministério Público para construir dois presídios, um em Itabira e outro em Lavras, como compensação pela desativação de unidades em áreas de risco.
Mas nenhuma outra cidade mineira recebeu investimentos para construção de novos presídios, e os projetos não avançaram. Ou seja, mesmo que o prefeito tivesse assinado convênio, Itabira permaneceria ainda sem o seu presídio.
Presídio não é solução mágica

Estudos distintos, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (via Anuário) e do Atlas da Violência (Ipea + FBSP), convergem em um ponto: o aumento do encarceramento não reduz criminalidade.
O Brasil tem hoje uma das maiores populações carcerárias do mundo, mas segue com índices elevados de homicídios e violência urbana. Como lembra o Atlas, “o encarceramento em massa não tem se mostrado eficaz para reduzir a violência letal.”
A restituição de um presídio de pequeno porte pela Vale é necessária e já passou da hora, mas não deve ser confundida com solução para a criminalidade.
Presídios de grande porte, ao contrário, tendem a fortalecer redes criminosas internas e agravar o problema, como advertiu o prefeito ao recusar sua construção em Itabira.
Contradições de uma cidade minerada
Itabira vive uma situação de quase pleno emprego, puxado pela mineração com suas grandes obras como a transposição de água do Rio Tanque. Portanto, não é o desemprego que faz aumentar a criminalidade no município.
As causas são outras e comuns a cidades médias, passando pela vulnerabilidade social, expansão urbana periférica e pressões de grupos criminosos que atuam em toda a região metropolitana de Belo Horizonte.
É nesse contexto que a violência urbana persiste, não por falta de presídio (que precisa ser urgentemente restituído a Itabira), mas pelas contradições típicas de cidades médias com grande fluxo de pessoas vindas de outras localidades, somadas às condições locais que também influenciam os índices de criminalidade.
A situação de violência em Itabira é fenômeno estrutural das cidades médias brasileiras. O simples encarceramento não resolve o problema. Policiamento ostensivo e preventivo, aliado a políticas sociais, inclusão e presença efetiva do Estado nos territórios são caminhos mais consistentes.
A restituição de uma unidade prisional de pequeno porte pela Vale é necessária e já passou da hora de ser realizada, mas não elimina as causas da violência que resulta no aumento da criminalidade.
O que os números revelam é que a cidade não está diante de uma “onda de violência” provocada pela ausência de presídio, como insiste a oposição.
O desafio maior é o enfrentamento das desigualdades e, claro, a repressão às redes criminosas que também figuram nas cidades de médio porte, como é o caso de Itabira.









