Gripe avança mais cedo e hospitalizações em pessoas 60+ já crescem 153% em 2026

Fotos: Divulgação/
Ascom/PMI

• Dados parciais de 2026 (Jan-Mar) já mostram aumento de 153% nas hospitalizações dessa faixa etária em comparação com mesmo período de 20251

São Paulo, abril de 2026 – Uma análise dos dados SIVEP-Gripe em 2026 já revela um aumento expressivo do número de hospitalizações de pessoas 60+ com Síndrome Respiratória Aguda Grave por influenza confirmada laboratorialmente nos primeiros meses deste ano. Números parciais de janeiro até a segunda semana de março mostram um crescimento de 153%, em comparação com o mesmo período de 2025.

Isso ocorre em um cenário de agravamento ano a ano: durante a sazonalidade (março a agosto) do vírus em 2025, as hospitalizações por influenza nessa faixa etária cresceram 134,7% em relação ao mesmo período de 2024, passando de 6.448 para 15.136. Nos mesmos meses, as internações desse público em UTI aumentaram 130,9%, e os óbitos, 148%.

Com o alerta da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) de que a circulação do vírus influenza nas Américas poderia começar mais cedo em 2026 e ter maior impacto2, somada ao avanço expressivo de casos graves em 2025, especialistas ressaltam a necessidade de maior conscientização, especialmente na população a partir dos 60 anos, e chamam a atenção para a importância da vacinação nesse contexto.

“A gente ainda subestima a gripe, mas ela pode ser devastadora em pessoas mais velhas. Os dados mostram impactos relevantes na saúde pública por graves complicações da gripe que poderiam ser evitadas com vacinação”, afirma o médico Drauzio Varella, oncologista e comunicador.

Preocupação com cenário da gripe em 2026

Na avaliação da infectologista Nancy Bellei, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e membro do comitê de Infecções Respiratórias Virais da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a circulação da influenza em 2026 tem chamado a atenção pelo aumento no número de casos e, consequentemente, de hospitalizações em diferentes regiões do país.

“O comportamento do vírus neste ano indica uma presença mais precoce e contínua. Já vínhamos observando aumento de casos desde janeiro, com crescimento mais evidente a partir de fevereiro. Em algumas regiões, como o Ceará, os picos já foram registrados”, afirma.

De acordo com a especialista, o vírus que predomina neste ano é mais transmissível. “Não é mais grave, mas se espalha com mais facilidade, por isso, vemos mais pessoas doentes ao mesmo tempo, inclusive dentro da mesma família”, explica.

“A gripe continua sendo uma infecção de alto impacto, com potencial de causar quadros graves e mortes, principalmente em idosos. O cenário atual, com aumento de casos e antecipação da sazonalidade, exige atenção redobrada e reforça a importância da prevenção”, afirma a infectologista Nancy.

Riscos e impactos da gripe em pessoas com 60+

O impacto da influenza entre idosos está diretamente relacionado à imunossenescência, processo natural de envelhecimento do sistema imunológico que reduz a capacidade de resposta do organismo a infecções.

Estudos apontam que a infecção pelo vírus influenza está associada a complicações que ultrapassam o sistema respiratório: a influenza pode desencadear complicações graves, como pneumonias, descompensação de doenças crônicas e eventos cardiovasculares.3,4

A gravidade do cenário foi evidenciada ao longo de 2025, quando hospitalizações e mortes mais que dobraram entre idosos em diversas faixas etárias.

“A experiência recente mostra que precisamos encarar a gripe com a seriedade que ela exige, principalmente quando falamos da população 60+”, afirma a médica geriatra e presidente da Comissão de Imunização da Sociedade Brasileira de Gerontologia e Geriatria (SBGG), Maisa Kairalla.

Vacina como ferramenta de proteção além da gripe

Diante do aumento de casos graves, especialistas são unânimes: a vacinação anual contra a influenza é a principal estratégia para reduzir hospitalizações e mortes, com benefícios que vão além da prevenção da infecção respiratória.

“A vacinação é essencial porque reduz a gravidade da doença e os desfechos mais críticos. Em idosos, isso faz toda a diferença para evitar hospitalizações e óbitos”, explica Rosana Richtmann, Infectologista do Instituto Emílio Ribas e chefe do Departamento de Infectologia do Grupo Santa Joana.

“A influenza pode desencadear eventos cardiovasculares importantes, como infarto, AVC (Acidente Vascular Cerebral) e descompensação de insuficiência cardíaca, especialmente em pacientes mais velhos e com comorbidades. A vacinação tem um papel relevante também nessa proteção ampliada, reduzindo substancialmente esses eventos cardiovasculares”, destaca o cardiologista Mucio Tavares, médico cardiologista e coordenador do Projeto Insuficiência Cardíaca da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) e Coordenador da Comissão de Vacinas da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

“Como líder global em vacinas contra a influenza, a Sanofi trabalha continuamente para ampliar seus esforços em pesquisa e inovação, além de gerar dados robustos de eficácia e efetividade, considerando a proteção além da gripe”, afirma Guillaume Pierart, diretor geral de vacinas da Sanofi no Brasil.

“No último ano, divulgamos uma análise que envolveu mais de 466 mil pessoas e mostrou como nossa vacina de alta dosagem, indicada para pessoas com 60+, oferece redução adicional de hospitalizações, em comparação com a vacina de dose padrão. Com isso, buscamos apoiar com informações consistentes os sistemas de saúde para a tomada de decisões que possam melhorar a proteção das pessoas, principalmente dos grupos mais vulneráveis”, diz.

Informação e prevenção: baixa cobertura ainda preocupa

No último ano, a cobertura vacinal no Brasil para pessoas com 60 anos ou mais atingiu 33% na região Norte, e 53% nas demais regiões. Análises recentes indicam que boa parte dos idosos hospitalizados por SRAG causada por influenza não estava vacinada. “Ainda existe uma percepção equivocada de que a gripe é uma doença leve. Precisamos mudar isso, pois a vacinação é o que salva vidas nesse cenário”, reforça Drauzio Varella.

“A informação de qualidade é essencial para aumentar a adesão à vacinação. Precisamos comunicar melhor os riscos da gripe e os benefícios da imunização, especialmente para os grupos mais vulneráveis”, avalia a pneumologista e pesquisadora sênior da Fioruz, Margareth Dalcolmo.

A infectologista Nancy também avalia que a vacinação é a principal forma de proteção, especialmente para quem tem 60 anos ou mais e pessoas com comorbidades. “A temporada já começou, então é importante se vacinar o quanto antes”, orienta.

Segundo ela, a proteção não é imediata. “O corpo leva cerca de duas semanas para criar defesa após a vacina. Por isso, não vale deixar para depois.”, comenta.

Vacina da gripe em alta dose para idosos tem proteção superior contra hospitalizações

Em uma análise envolvendo mais de 466 mil idosos, a vacina de alta dose reduziu em até 31,9% as hospitalizações por gripe confirmada em laboratório, além de apresentar menor incidência de internações por pneumonia, doenças cardiorrespiratórias e outras causas.5

O FLUNITY-HD é a maior análise de efetividade já conduzida com idosos vacinados individualmente de forma randomizada, reunindo informações de duas grandes pesquisas realizadas na Dinamarca e na Espanha ao longo de várias temporadas de influenza.5

“Este estudo foi desenhado justamente para compreender, de forma robusta, o impacto da vacina de alta dose na população idosa”, explica o médico cardiologista e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da USP, Múcio Tavares de Oliveira Junior.

“Os resultados demonstram que a vacina de alta dose é significativamente mais eficaz do que a dose padrão na prevenção de hospitalizações por influenza e pneumonia. Quando avaliamos subgrupos com doenças pré-existentes, como condições cardiovasculares, respiratórias ou câncer, observamos que o benefício foi consistente e todos se protegeram melhor com a vacina de alta dose”.5

Resultados principais5-6

A análise combinou dados de dois ensaios clínicos envolvendo 466.320 participantes com 65 anos ou mais e demonstrou que, em comparação com a dose padrão, a vacina de alta dose proporcionou:

  • 31,9% (IC 95%: 19,7–42,2; p<0,001) de redução em hospitalizações por gripe confirmada em laboratório;
  • 6,3% (IC 95%: 2,5–10,0; p<0,001) de redução do risco de hospitalizações por doenças cardiorrespiratórias (IC 95%: 2,5–10,0; p<0,001);
  • 8,8% (IC 95%: 1,7–15,5; p=0,0082) de proteção adicional contra hospitalizações por influenza ou pneumonia;
  • 2,2% (IC 95%: 0,3–4,1; p=0,012) de redução em hospitalizações por todas as causas, o que significa que uma hospitalização poderia ser evitada a cada 515 pessoas vacinadas com a dose alta em vez da dose padrão.

Em uma sub análise recente do mesmo estudo, demonstrou-se a redução de 21,3% nas hospitalizações de pacientes com insuficiência cardíaca.6

“A conclusão do estudo é que, considerando os critérios de elegibilidade e o perfil de risco dos idosos, a adoção da vacina de alta dose pode trazer benefícios substanciais para a saúde pública, reduzindo hospitalizações e complicações graves”, reforça o médico cardiologista.6

Com a inclusão desses novos resultados, o conjunto de evidências sobre a vacina de alta dose já reúne 15 anos de pesquisa clínica e dados de mais de 45 milhões de idosos vacinados em todo o mundo, consolidando-a como uma das estratégias mais estudadas e eficazes de prevenção contra a gripe em populações envelhecidas.

Sobre o estudo FLUNITY-HD

O FLUNITY-HD é uma análise combinada pré-especificada de dois ensaios clínicos pragmáticos randomizados individualmente envolvendo 466.320 participantes com 65 anos ou mais: DANFLU-2 e GALFLU.

O DANFLU-2 foi conduzido ao longo de três temporadas de influenza (2022-23, 2023-24 e 2024-25) com mais de 332.000 participantes com 65 anos ou mais na Dinamarca. O GALFLU foi conduzido ao longo de duas temporadas de influenza (2023-24 e 2024-25) com mais de 134.000 participantes com idades entre 65 e 79 anos na região da Galícia, na Espanha.6

O maior estudo sobre vacina contra influenza desse tipo, esta análise multissetorial foi projetada para avaliar a eficácia real da vacina contra influenza de alta dose em comparação com as vacinas contra influenza de dose padrão na prevenção de hospitalizações, garantindo o rigor científico por meio da randomização individual.

O FLUNITY-HD atingiu seu desfecho primário, demonstrando proteção adicional de 8,8% contra hospitalizações por pneumonia/influenza (em comparação com a dose padrão). Os desfechos secundários incluem redução nas hospitalizações por eventos cardiorrespiratórios, hospitalizações por influenza confirmadas em laboratório e hospitalizações por todas as causas.

Referências

  1. SIVEP-Gripe. Dados de Hospitalizações por influenza confirmada laboratorialmente em 2024 e 2025, Brasil.
  2. Alerta Epidemiológico Circulação simultânea da gripe sazonal e do vírus sincicial respiratório – 9 de janeiro de 2026 – OPAS/OMS | Organização Pan-Americana da Saúde
  3. Kwong JC, Schwartz KL, Campitelli MA, Chung H, Crowcroft NS, Karnauchow T, et al. Acute Myocardial Infarction after Laboratory-Confirmed Influenza Infection. N Engl J Med. 2018;378(4):345-353. Disponível em https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1702090
  4. Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP). Disponível em: https://socesp.org.br/revista/pdfjs/web/viewer.html?arquivo=62687384dc551c3424f2053149326fc0.pdf&edicoes=1. Acesso em: 31 jul. 2025.
  5. FLUNITY-HD Study Group. Effectiveness of high-dose quadrivalent influenza vaccine vs standard-dose in preventing hospitalizations among adults aged 65 years and older. Lancet. 2025 Oct; In press. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(25)01742-8/abstract?rss=yes
  6. Johansen, N. D., Modin, D., Pardo-Seco, J., Rodriguez-Tenreiro-Sánchez, C., Loiacono, M. M., Harris, R. C., Dufournet, M., van Aalst, R., Chit, A., Larsen, C. S., Larsen, L., Wiese, L., Dalager-Pedersen, M., Claggett, B. L., Janstrup, K. H., Duran-Parrondo, C., Piñeiro-Sotelo, M., Cribeiro-González, M., Conde-Pájaro, M., Mirás-Carballal, S., … DANFLU-2 Study Group and the GALFLU Trial Team (2026). High-Dose Versus Standard-Dose Influenza Vaccine and Cardiovascular Outcomes in Older Adults: The FLUNITY-HD Prespecified Pooled Analysis. Circulation, 153(11), 798–806. https://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.125.077801

 

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