Verônica Segalá, senhora da Philobilion, imprimiu Drummond
Fotos: Reprodução/ Obras Raras da BN-Rio
Por Cristina Silveira
Não senti a delícia de folhear a textura, sentir o cheiro, d’o “Soneto da buquinagem”, livro do poeta Drummond. É um livro raro, raríssimo, a coleção é toda rara, preciosa. Aqui sentada, fumando um atrás do outro, penso no livro raro cuidadosamente colocado no cavalete, sobre a mesa de uma sala de consulta… É disparada de sentidos, é impactante, é esplendoroso…
Para apresentar o “Soneto da buquinagem” faz-se necessário falar de Manolo Segalá (Manuel Segalá y Brosa), nascido na Catalunha, em 1917. Faleceu, na manhã do dia 26-02-1958, vítima de insolação, tendo sido enterrado à tarde do mesmo dia, no Rio. Segalá foi pintor, escultor, xilogravador, capista, ilustrador, diagramador, impressor e editor.

Segalá, saiu nas carreiras da Espanha. A ditadura franquista, lhe impôs o exilio na Europa e América do Sul (Uruguai, Chile, Argentina e Brasil). No Chile conheceu e casou-se com a brasileira, estudante de artes, Dilza Galvão.
Vieram para o Brasil em 1954, juntos criaram a editora Philobiblion (1955-1958). Juntos iniciaram a publicação da coleção “Caderno do Galo da Glória”, cada caderno um poema impresso artesanalmente.
No Brasil, Segalá entrou porta a dentro da casa certa, a livraria São José do mercador de livros, Carlos Ribeiro (criador da pequena “livraria Itabira”). Foi Carlos Ribeiro que encomendou a Philobiblion a edição de “Soneto da buquinagem” para presentear aos amigos bibliófilos.
Verônica imprimiu à exaustão 100 exemplares inteiramente artesanal, com assinatura de Drummond em cada exemplar sobre papel Raphael, distribuídos na segunda quinzena de dezembro de 1955.
Segalá era um libertário, anti-imperialista, negava o artefato industrial, negava a fabricação em grande escala. Amava a poesia e a arte, editou algumas maravilhas da literatura brasileira em belos livros, como atesta Josué Montello: “livro que dá gosto de ler, dá gosto de ver e dá gosto de ter”.
Verônica
Verônica ou Santa Berenice (Berenike ou Beronike) é a lendária mulher que ofereceu o seu véu a Jesus Cristo caminhando sob tortura até o calvário. Depois de enxugar o rosto, Cristo devolve o véu a Verônica, ao recebe-lo ela vê a imagem do rosto de JC impressa no tecido, “uma impressão com sangue, suor e terra”. E a lenda do “véu de Verônica”, fez dela a padroeira dos fotógrafos.
“Imprimir a mão é mais difícil e mais cansativo que imprimir a máquina. Colocar o papel, descer a alavanca, levantar a alavanca, tirar o papel. E recomeçar tudo, até a exaustão. No “Pequeno oratório de Santa Clara” (dez cadernos, com a poesia de Cecília Meireles), Verônica recebeu e devolveu impressa, sessenta vezes cada folha. Mansa e amiga, faz o que o homem lhe pede. E se emociona com ele, na hora maravilhosa em que a folha, inerte há um instante, sai falando. “É o milagre, de novo”, murmura Segalá. Verônica sorri. “É o milagre”. Uma porção de milagres por dia, recebidos todos com o mesmo derretimento e o mesmo assombro.” Por Flávia da Silveira Lobo [Correio da Manhã, Rio, 22.4.1955. Hemeroteca da BN/Rio]

“Perguntei a Segalá por Verônica, e ele me iluminou. Verônica é mais ou menos uma pessoa: é uma prensa manual, que faz poesia; já fez dois livros de Cecília Meireles, em tiragens limitadas e belas, e aceita encomenda de poetas bons. Na Espanha, na Itália, no Chile, onde quer que o leve seu destino andarilho, Segalá porta uma prensa poética, assim como outros uma metralhadora portátil. Quanto a “Sereia”, ele a imprime para dar de graça – sim, de graça, para que subsista no mundo uma derradeira coisa sem preço”. Por C.D.A. em Imagens transeunte. A Sereia etc. [C. da Manhã, 4.9.1955. Hemeroteca BN/Rio]
A Sereia
“…Já na avenida Beira-Mar, vi surgir uma sereia, nuinha, rubicunda. Vinha pela mão de Manuel Segalá, editor, impressor, grampeador e distribuidor da pequenina e primorosa revista desse nome, que só terá dez números e não custa nada – senão o dom de amar a poesia e poder contar, como Gerard de Nerval, sem mentir: “J’ai rêvé dans la grotte où mage la sirène…” Imagens transeunte. A Sereia etc. Por C.D.A. [Correio da Manhã, 4.9.1955. Hemeroteca da BN-Rio]
“Passada a surpresa de seu desaparecimento, sentimos o quanto essa figura se singularizou por traços com que, via de regra, ninguém se impõe à primeira vista no meio novo que elege para viver. Era despido de maneiras espalhafatosas e de expansões retóricas. De uma irreverência temperada de humour. Mas nos olhos ressaltados e tristes, no seu talhe de toureiro e na máscara de contemplativo – algo se exprimia que era um misto de revolta, doçura e gosto de viver. Com as próprias mãos ilustrou, imprimiu e distribuiu de graça A Sereia, um caderninho que (leia-se agora no imperfeito do indicativo) “não pretende, não espera nem pede nada. Quer apenas falar um pouco de poesia”. Não chegaram a dez os números prometidos, porque o poeta morreu antes da hora, como antes da hora morrem sempre aqueles que amam a vida e de quem se pode esperar mais em benefício da vida.” (Aníbal M. Machado, in.: www.bloger.com)
No dia 14 de novembro de 1959 a Biblioteca Nacional inaugurou a exposição de Manuel Segalá. Livros, xilogravuras, pinturas. “Em sua prensa manual Segalá imprimia poemas de outros, sempre de bons poetas. E, como os iluminadores e imagista medievais, artesãos e crentes, davam “a carne material da obra transcendente” a paciência de sua fé, também ele, artesão no século da indústria, “trabalhava a arte negra” com aquele carinho religioso de quem busca, através das formas exteriores e visíveis, penetrar nas verdades de Deus. Era um crente na poesia, um verdadeiro poeta”. [Trecho do catálogo da Exposição Manuel Segalá na BN-Rio, Correio da Manhã, 1/11/1959]
“Sua vida foi curta e triste. Porque, sendo apenas um artesão, não havia no mundo capitalista o ambiente a que sempre aspirou aquele artista pobre e quase anônimo que, vindo de outras terras, aqui aportou há quase sete anos. Com sua morte, entretanto, perdeu o Brasil um precioso colaborador, colaborador quase anônimo, porque era no artesanato e não na grande indústria, que ele prestava a melhor e mais valiosa colaboração ao progresso das artes gráficas em nosso país. Tive o prazer de editar vários livros excepcionais no que diz respeito à sua produção, graças a famosa e ao mesmo tempo modesta prensa manual, a “Verônica”, que Segalá trouxe para o Brasil. Posso afirmar, ainda, que foi graças a esta ligação de amizade e de dedicação à causa do livro, que eu consegui melhorar consideravelmente a qualidade gráfica da maioria dos lançamentos da editora que dirijo”. Por Ênio Silveira, diretor da editora Civilização Brasileira.
Os dois últimos trabalhos de Verônica Segalá
Os dois últimos trabalhos de Segalá – “Carolina”, de Machado de Assis e “Os Cisnes”, de Júlio Salusse – foram encomendados por Carlos Ribeiro, para a livraria São José e distribuídos em dezembro de 1957.
Há um episódio pitoresco com relação a esses trabalhos. Manuel Segalá ficara de entregá-los a Carlos Ribeiro antes do Natal, não cumprindo, porém, a promessa. Passados alguns dias, correu a notícia de que o impressor viajara inesperadamente para Buenos Aires, levado pelo seu temperamento boêmio. Encomendas de outros editores não haviam sido igualmente entregues.
Nada disso, porém, era exato. É o próprio Carlos Ribeiro quem nos explica:
“No dia 31 de dezembro recebi um pacote contendo os livros impressos e uma carta de Segalá que diz: “meu caro amigo: há um ditado espanhol que diz: “nunca es tarde cuando se llega”. Aqui chegam o Machado e o Salusse, por você encomendados. Por outro lado, o nosso grande Ortega e Gasset escreveu: yo soy yo y mi circusntancia, o que é verdade mesmo”. E, após explicar que lhe aconteceram transtornos inesperados, terminava: “Em face de tudo isso, vou ter que fechar e deixar de fazer livros, graças a estas circunstâncias de que fala Gasset. Seus livros foram os últimos de minha vida de impressor e editor. A única coisa para mim satisfatória é haver, a grandes custas, cumprindo sua encomenda e poder responder ao qualitativo de “rapaz honesto” com que sempre você me honrou”.
Soneto da buquinagem
Buquinemos, amiga, neste sebo.
A vela, ao se apagar, é sebo apenas,
e quero à meia-luz. Amo as serenas
angras do mar dos livros, onde bebo
– álcool mais absoluto – alheias pensas
consoladas na estrofe, e calmo, e gebo,
tiro da baixa estante sete avenas
em sete obras que pago e que recebo.
Amiga, buquinemos, pois é morta
Inéz de antigos sonhos, e conforta
no tempo de papel tramar de novo
nosso papel, velino, e nosso povo
é Lucrécio e Villon, velhos autores.
aos nossos poetas muito superiores.
Algumas características do livro

“Do ponto de vista da materialidade, “Soneto da Buquinagem”, tratado por Segalá, tem as seguintes dimensões: 12.5cm x 16.7cm (aproximadamente). Respeitando os padrões estabelecidos para confecção de plaquetes, comprova-se que as dobras da folha da capa do objeto aparecem em seu interior e, para melhor guarnecê-lo, empregou papel transparente e fino na cor azul. A xilogravura de Manuel Segalá está posicionada in-front à folha de rosto. Em seguida, surge o soneto facsimilado, trazendo a assinatura do poeta. E bem defronte à reprodução realizada por meios fotomecânicos, localiza-se o soneto impresso. As páginas seguintes são dedicadas à autenticação do objeto pelo autor e ao colofão estampado na forma de mãos postas em sinal de oferecimento e que traz informações bem pontuais acerca da impressão: mês, ano, objetivo e cessão do poema pelo autor.” [Infelizmente perdi a referência do jornal em que se publicou esse texto; vacilei dancei!]












Viva Segalá!