Mineração da Vale em Itabira vai até 2053, doze anos além do previsto”, anuncia André Viana com base no relatório Form-20 

Foto: Carlos Cruz

Horizonte de exaustão é ampliado em 12 anos; notícia traz alívio para trabalhadores, administradores municipais e investidores, mas exige responsabilidade coletiva, diversificação econômica e criação de um Fundo Soberano para assegurar o futuro do município sem a mineração  

O presidente do Sindicato Metabase de Itabira e Região, André Viana Madeira, anunciou nesta sexta-feira (27) que a Vale ampliou em 12 anos o horizonte de exaustão das minas de Itabira. “Antes o fim da mineração em Itabira estava previsto para 2041, o prazo agora se estende até 2053.”.

A informação consta do Relatório Form-20, documento anual registrado junto à U.S. Securities and Exchange Commission (SEC), em Nova Iorque, referente ao ano fiscal de 2025 – e que acaba de ser publicado pela mineradora Vale.

A exemplo do que ocorre desde 2001, o relatório é encaminhado aos acionistas que investem na Bolsa de Nova Iorque, com dados sobre suas reservas no Brasil e em outros países, além de informações sobre desempenho, metas, impactos sociais e ambientais e compromissos corporativos.

“É uma vitória para Itabira e para os trabalhadores, que agora têm mais tempo para planejar o futuro”, afirmou André Viana, que também representa os trabalhadores no Conselho de Administração da mineradora.

Fonte: Relatório Form-20

O fantasma da exaustão

Desde o primeiro Relatório Form-20, registrado pela Vale junto à U.S. Securities and Exchange Commission (SEC), em Nova Iorque, a previsão de esgotamento das minas de Itabira tem sido sucessivamente alterada: primeiro para 2014, depois para 2025, 2028, 2041 e agora para 2053.

“A cada relatório, o relógio da mineração se move, e a cidade revive a tensão entre o alívio momentâneo e o temor do fim inevitável. Mas esse fim pode, e deve, ser planejado desde já, com investimentos estruturais e diversificação da economia local”, defende André Viana, que também representa os trabalhadores no Conselho de Administração da mineradora.

Para o sindicalista, somente assim Itabira poderá exorcizar o risco de se tornar uma cidade fantasma após a exaustão mineral. “Isso se não cruzar os braços e deixar a vida seguir devagar”, salientou, citando Carlos Drummond de Andrade.

O poeta, antes mesmo da instalação da Vale em 1942, já alertava em suas crônicas para o perigo de uma cidade que dependesse exclusivamente da mineração, sem criar novas bases econômicas capazes de sustentar o futuro quando chegasse o fim inexorável de suas riquezas minerais.

Avanços tecnológicos e novos recursos

Segundo André Viana, o salto no horizonte de exaustão decorre de pesquisas geológicas e do avanço tecnológico que permite beneficiar minérios de menor teor, como por exemplo, o itabirito dolomítico que, com novas tecnologias e aprimoramento de processos, acaba de ser também viabilizado, a exemplo do que ocorreu no passado recente com o itabirito compacto.

Trata-se de uma rocha rica em ferro, mas com altos teores de cálcio e magnésio, que antes era considerada estéril. Agora, com novas tecnologias, pode ser processada em mistura com itabiritos mais ricos, ampliando as reservas aproveitáveis de Itabira – e que antes era considerado material estéril, sem aproveitamento econômico.

Outro fator importante para essa ampliação do horizonte de exaustão é a chamada mineração circular, que reduz a geração de rejeitos e reaproveita materiais já dispostos em barragens desde a década de 1970. Essa prática já contribuiu com cerca de 1,5 milhão de toneladas de minério de ferro em 2025, e novos projetos estão em fase de licenciamento.

Reservas ampliadas e impacto econômico

Com os novos estudos, as reservas minerais do complexo de Itabira saltaram de 760 milhões de toneladas (base 2024) para 1,151 bilhão de toneladas (base 2025), um acréscimo de 391 milhões de toneladas. Esse aumento representa 52% de crescimento nas reservas, resultado da transformação de recursos em reservas comprovadas.

“A notícia é boa para os trabalhadores, para os prestadores de serviços e para os investidores, que veem segurança no prolongamento da atividade minerária em Itabira. Para a gestão pública municipal e para a economia regional, o anúncio representa fôlego adicional, mas também reforça a necessidade de planejamento”, adverte o sindicalista.

Segundo André Viana, para viabilizar esse novo horizonte de exaustão será necessário ampliar as cavas das minas Conceição e do Meio, além da instalação de novas pilhas a seco de rejeitos e estéril, estruturas que ainda dependem de licenciamento ambiental.

Outro desafio é acelerar o reaproveitamento dos rejeitos acumulados nas barragens, prática que já vem sendo incorporada pela Vale dentro do conceito de mineração circular, mas que ainda também depende de licenciamento ambiental.

“Essas medidas são fundamentais para garantir a sustentabilidade da operação e reduzir os impactos ambientais. Mas exigem investimentos, contrapartidas e responsabilidade coletiva, envolvendo a empresa, autoridades e a sociedade”, destacou Viana.

Responsabilidade coletiva

Para o presidente do Metabase, a notícia é extremamente positiva para Itabira, mas não pode significar acomodamento. Ele reforça que mais de 80% da economia municipal ainda depende da mineração. E que o tempo extra deve ser usado para implementar políticas de diversificação da economia local.

“Ganha-se um tempo, talvez até mais tempo por meio de estudos geológicos, mas que acompanha diversas responsabilidades. É preciso que a Vale, autoridades, trabalhadores e toda a população estejam comprometidos com o futuro da cidade”, afirmou.

Fundo Soberano e mudanças estruturais

Entre as propostas defendidas por André Viana está a criação imediata de um Fundo Municipal Soberano, já sugerido pelo prefeito Marco Antônio Lage, mas ainda não efetivado.

“Antes tarde do que tarde demais. Esse fundo já deveria ser realidade desde os primeiros relatórios Form-20, ou mesmo com a instituição da Cfem após a Constituição de 1998. É fundamental para garantir recursos da Cfem, fomentar novos empreendimentos e assegurar serviços básicos quando a exaustão chegar.”

Outro ponto destacado por André Viana é a transposição de água do Rio Tanque, com capacidade de 600 litros por segundo (l/s) – acima do consumo atual da cidade de 400 l/s. “Esse excedente abre perspectivas para atrair novas indústrias que demandem insumo em escala industrial. É uma oportunidade para diversificar a base econômica de Itabira”, disse.

Legado e uso das áreas desativadas

Além da mineração, André Viana defende que áreas já desativadas, como diques de barragens descaracterizados, sejam aproveitadas para usos culturais, turísticos e patrimoniais.

“É hora de discutir o melhor plano futuro, ainda que mais distante, para o fechamento das minas. Mas para áreas já desativadas, podemos pensar em novos usos desde já.”

É assim que, segundo Viana, a ampliação do horizonte de exaustão para 2053 é uma vitória para Itabira, mas também um chamado à ação.

“O tempo extra precisa ser convertido em oportunidades de diversificação econômica, sustentabilidade e legado duradouro”, ele defende, acentuando que “o futuro começa agora”.

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