O império sou eu: a distopia à vista pela ofensiva neoimperialista nas Américas e pelo mundo
Foto: Official portraits of President-elect/ White House
Valdecir Diniz Oliveira*
Da frase de Luís XIV ao neologismo que traduz o presente: a invasão da Venezuela expõe a lógica neoimperialista dos Estados Unidos e a fragilidade da ordem internacional
“L’État c’est moi” — “O Estado sou eu”. A frase atribuída a Luís XIV, o Rei Sol, tornou-se símbolo do absolutismo francês. Séculos depois, a lógica reaparece em nova roupagem.
Ao declarar que a América pertence aos Estados Unidos e agir como se pudesse sequestrar presidentes ao bel prazer e redesenhar fronteiras, Donald Trump encarna o neologismo que sintetiza a conjuntura: “O império sou eu”.
Não é mais um rei absolutista, mas uma potência que, pela força militar e econômica, age como se fosse dona de um continente.
Mas ninguém pode acusar Donald Trump de não cumprir o que promete: anunciou que invadiria a Venezuela — e invadiu. Fechou fronteiras aos pobres enquanto abriu portas seletivas aos ricos. A coerência está na brutalidade e na escolha dos alvos.
Mas a narrativa que sustenta essas ações é elástica: primeiro, acusou Nicolás Maduro de chefiar um grupo narcoterrorista. Depois, quando a própria máquina oficial norte-americana não sustentou a tese, deslocou-se para a acusação de corrupção e vínculos nebulosos.
Quando a comprovação não vem, entra em cena o argumento dos “direitos humanos” — usado de forma seletiva, enquanto violações graves são relativizadas quando convém.
É a política de criar realidades e ajustar justificativas ao objetivo final: controlar recursos e impor hegemonias.
Antecedentes históricos: da Doutrina Monroe à Doutrina Donroe
A ofensiva contra a Venezuela não é um episódio isolado. Desde 1823, com a Doutrina Monroe, os Estados Unidos proclamaram “América para os americanos”, traduzido na prática como “América para os Estados Unidos”.
Esse princípio serviu de justificativa para intervenções ao longo de dois séculos, consolidando a América Latina como área de influência direta de Washington.
No século XX, a lista de intervenções é extensa e reveladora: Guatemala em 1954, Brasil em 1964, Chile em 1973, Panamá em 1989. Cada golpe intevencionista foi marcado por narrativas fabricadas e pela manipulação do medo.
No Brasil, a ameaça comunista — que nunca existiu — foi construída como fantasma político para legitimar o golpe militar, apoiado pela classe média conservadora e articulado com suporte externo, inclusive da CIA, que via na derrubada de João Goulart a chance de alinhar o país aos interesses estratégicos norte-americanos.
No século XXI, o Iraque em 2003 mostrou como esse padrão se repete em escala global: armas de destruição em massa que jamais foram encontradas serviram como justificativa para uma invasão que redesenhou o mapa político do Oriente Médio.
O método é o mesmo: criar uma ameaça inexistente, amplificá-la pela retórica oficial e usá-la como chave para legitimar a intervenção.
Agora, críticos já falam em uma “Doutrina Donroe”, neologismo que combina Monroe com Donald Trump, para simbolizar a atualização brutal dessa lógica neoimperialista.
Se Monroe inaugurou a ideia de que o continente seria quintal dos Estados Unidos, Trump a leva ao paroxismo: não apenas declara que a América pertence aos norte-americanos, mas age sequestrando presidentes, bombardeaando países e redesenhando fronteiras à revelia da comunidade internacional.
Essa “Doutrina Donroe” é a expressão contemporânea do neoimperialismo, em que não há anexação formal de territórios, mas submissão política, econômica e militar de países inteiros
A captura de Nicolás Maduro ecoa práticas coloniais de remoção de líderes para impor tutela externa. Assim como no Oriente Médio, a América Latina volta a ser laboratório de “mudança de regime”.
O que antes era feito sob o pretexto da Guerra Fria, agora retorna sob o manto da “segurança global” e da “defesa da democracia”.
A lógica é a mesma: fabricar justificativas, demonizar adversários e impor soluções militares que garantam controle sobre recursos estratégicos.
Erosão da soberania e dos preceitos da ONU
A Carta da ONU consagra soberania, integridade territorial e não intervenção. Mas esses princípios vêm sendo sistematicamente desrespeitados.
Intervenções em outros países sem mandato do Conselho de Segurança, captura transnacional de chefes de Estado e uso seletivo dos direitos humanos como justificativa corroem a arquitetura jurídica internacional.
Soberania e direitos humanos tornam-se instrumentos maleáveis, invocados quando servem às potências, ignorados quando denunciam seus abusos. O resultado é a normalização da força como instrumento legítimo de política externa.
Trilateralismo imperialista
É assim que o mundo vem se reestruturando em torno de três polos de poder que disputam hegemonia global.
Os Estados Unidos seguem como potência dominante, sustentando sua influência pela superioridade militar, pela rede de bases espalhadas pelo planeta e pelo controle financeiro garantido pelo dólar como moeda de referência internacional.
Essa hegemonia é reforçada por organismos multilaterais sob sua órbita, como o FMI e o Banco Mundial, que condicionam políticas econômicas de países periféricos e ampliam sua dependência.
A China, por sua vez, expande sua presença pela Nova Rota da Seda, um ambicioso projeto de infraestrutura que conecta Ásia, Europa, África e América Latina.
Com investimentos em portos, ferrovias, energia e telecomunicações, Pequim constrói uma rede de interdependência econômica que transforma países periféricos em peças de sua estratégia global.
Além disso, o avanço tecnológico chinês em áreas como inteligência artificial e 5G desafia diretamente a supremacia norte-americana.
Já a Rússia exerce influência sobretudo no campo militar e diplomático. Apoia regimes que resistem ao Ocidente, projeta poder por meio de alianças estratégicas e mantém presença decisiva em conflitos como Síria e Ucrânia.
Sua capacidade de dissuasão nuclear e o uso da energia — especialmente o gás natural — como instrumento de pressão geopolítica reforçam seu papel como polo autônomo no cenário internacional.
Esse trilateralismo neoimperialista não significa equilíbrio, mas sim uma disputa permanente em que países periféricos são transformados em satélites dependentes, sem autonomia real.
A América Latina, historicamente tratada como quintal dos Estados Unidos, volta a ser palco de disputas entre potências.
Enquanto Washington busca reafirmar sua hegemonia militar e política, Pequim avança com investimentos e comércio. Isso enquanto Moscou oferece apoio diplomático e militar a governos que desafiam o Ocidente.
O resultado é um continente pressionado por três forças externas, incapaz de exercer plenamente sua soberania e condenado a ser periferia estratégica de um jogo global que não controla.
Brasil e América Latina: o quintal e a periferia estratégica
O Brasil, com suas reservas de petróleo, água e biodiversidade, não está fora do radar. A fragilidade das instituições regionais — OEA, Mercosul, Unasul — deixa o continente vulnerável.
A Colômbia pode ser a próxima vítima. Cuba, a cereja do bolo. O Brasil, se não afirmar sua soberania, corre o risco de ser arrastado para a lógica neoimperialista.
A América Latina, mais uma vez, é reduzida à condição de periferia estratégica, onde conceitos como autodeterminação e independência nacional são relativizados diante da força das potências.
A distopia em curso
Não se trata de projeção distante. Os sinais já estão à vista e se acumulam dia após dia.
São narrativas fabricadas para justificar invasões, presidentes capturados, fronteiras violadas, direitos humanos convertidos em retórica seletiva.
Somam-se a isso os bombardeios sem auditoria independente, a ausência de corredores humanitários e a falta de compromisso com qualquer reconstrução.
O saldo humano e econômico cresce em silêncio, invisível à opinião pública, escondido pelos grandes meios de comunicação de massa que preferem suavizar ou omitir a tragédia.
Esses elementos compõem a distopia em curso: um mundo em que soberania nacional e direitos humanos são reduzidos a palavras vazias, enquanto a força militar e econômica decide destinos.
Se não houver freios internos e externos agora, desde já, o processo se tornará irreversível. A distopia deixará de ser apenas “à vista” para se consolidar como realidade concreta, sem volta.
Pode estar certo: o bombardeio à Venezuela não é sobre drogas ou liberdade. É sobre petróleo, poder e hegemonia.
É sobre a normalização da violência como instrumento de política externa, a transformação de países inteiros em peças descartáveis de um tabuleiro global.
Se não houver resistência, o neologismo “O império sou eu” deixará de ser metáfora para se tornar realidade.
E assim, o mundo caminhará para uma distopia neoimperialista jamais vista, com o conceito de soberania nacional e direitos humanos reduzidos a retórica, enquanto a força bruta neoimperialista decide destinos aqui e acolá.
*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.
Nota de rodapé
Este artigo se apoia em fontes atuais e históricas
Fontes atuais
- Folha de S. Paulo, O Globo, Agência Pública, Agência Brasil, The New York Times e The Washington Post,
Fontes históricas
- Doutrina Monroe / Donroe: análises em Veja, Exame e estudos acadêmicos sobre política externa norte-americana.
- Golpe militar de 1964 no Brasil: documentos do Instituto João Goulart e reportagens da DW sobre a Operação Brother Sam, que revelam o apoio da CIA.
- Invasão do Iraque em 2003: coberturas da BBC e do G1, além de artigos acadêmicos que demonstram como as “armas de destruição em massa” foram usadas como justificativa sem provas.









Quem escreveu essa matéria deveria desligar a globolixo e se informar direito. Trump NUNCA disse isso que postaram . Enfim, todo esquerdoPaTa é manipulador.