O jornalismo do “ouvir dizer” e a repetição de velhos métodos, agora contra Alexandre de Moraes
Foto: Reprodução/TSE
Denúncias frágeis, sem provas, reacendem o padrão da Lava Jato e expõem a farsa da imparcialidade da grande imprensa
Valdecir Diniz Oliveira*
A denúncia contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do processo que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe, publicada por Malu Gaspar em O Globo, é um exemplo acabado do jornalismo do “ouvir dizer”.
Sem provas documentais, apoiada em fontes anônimas, a reportagem transformou rumores em manchete – e foi apresentada como se fosse jornalismo investigativo.
Não houve apresentação de qualquer prova, ou mesmo indício objetivo ou evidência material que sustentasse a acusação de lobby em favor do Banco Master por parte do ministro. O que se ofereceu ao leitor foi apenas a narrativa de bastidores, repetida como se fosse fato consumado.
A intrépida jornalista, herdeira e participante ativa do método lavajatista, insinuou por “ouvir dizer” aquilo que até agora não conseguiu demonstrar por meio de provas.
O resultado é o mesmo padrão já conhecido: manchetes ruidosas, impacto imediato e a ausência de provas que deveriam vir primeiro, antes de se apresentar qualquer denúncia contra autoridades ou contra quem quer que seja.
O desmentido oficial
Após a publicação da “denúncia” em O Globo, repercutida em outros veículos da grande imprensa, tanto Moraes quanto o Banco Central divulgaram notas oficiais.
O ministro confirmou que houve encontros, mas esclareceu que o tema foi exclusivamente a aplicação da Lei Magnitsky, sancionada pelos Estados Unidos contra ele e familiares.
O Banco Central confirmou essa versão, afirmando que as reuniões trataram apenas dos efeitos da medida sobre movimentações bancárias e cartões.
Aqui está o contraste. De um lado, a jornalista trouxe apenas relatos de bastidores, sem provas, sustentados por fontes que não se identificam; de outro, os envolvidos apresentaram versões oficiais, registradas em documentos públicos e verificáveis.
A diferença é fundamental. Enquanto a narrativa jornalística de O Globo se apoia em insinuações, os desmentidos se apoiam em fatos objetivos.
Ainda assim, a grande imprensa, a mesma que repercutiu denúncias vazias e tecnicamente frágeis que serviram de combustível para o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), preferiu amplificar o “ouvir dizer” como se fosse verdade consumada.
Não houve aprofundamento por meio de investigações jornalisitcas, buscando provas, não houve documentos, apenas rumores embalados em manchetes. O método é conhecido: transformar insinuações em certezas, e essas em escândalos midiáticos, sem comprovações.
Afinal, manchete não precisa de provas, mas apenas de impacto sensacionalista com objetivo bem definido, que é criar a narrativa conveniente para os interesses políticos do momento do centrão e da extrema direita.

A história repetida como farsa
Foi assim em 1964, quando a grande imprensa alimentou o fantasma da “ameaça comunista” para legitimar o golpe militar.
A mesma farsa repetiu-se em 1989, quando a edição manipulada do debate entre Lula e Collor ajudou a decidir uma eleição em favor do candidato do establishment, com a rede Globo à frente, sempre ela.
Voltou a se repetir em 2016, quando a chamada “pedalada fiscal” de Dilma Rousseff foi transformada em crime sem nunca ter sido crime, servindo de pretexto para destituir uma presidenta eleita pelo voto popular.
Agora, o roteiro se repete contra Alexandre de Moraes. A diferença é que o alvo não é um governo, mas o STF, instituição que se tornou incômoda para o centrão e para a extrema direita, justamente por ter enfrentado o golpismo e condenado Jair Bolsonaro e seus aliados.
O método é sempre o mesmo: fabricar suspeitas, amplificar rumores e apresentar manchetes ruidosas como se fossem provas.
O paralelo com a Lava Jato
O episódio lembra em muito o roteiro da Lava Jato, quando acusações frágeis contra Lula foram transformadas em manchetes – e que depois se revelaram inconsistentes.
O exemplo mais emblemático foi o famoso power-point apresentado por Deltan Dallagnol em 2016, quando o então procurador apresentou um esquema gráfico sem provas, que reduzia a acusação a setas e círculos coloridos, mas que ganhou espaço como se fosse prova irrefutável.
O espetáculo midiático foi tão grotesco que, anos depois, o próprio Dallagnol acabou sendo condenado pelo Conselho Nacional do Ministério Público por abuso de poder e uso indevido da função pública ao transformar uma coletiva em palanque político.
E a farsa não parou aí: em 2023, já como deputado federal, Dallagnol perdeu o mandato por decisão unânime do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que reconheceu irregularidades em sua candidatura, além de registrar que ele havia se beneficiado politicamente de práticas abusivas ligadas à sua atuação na Lava Jato.
Ou seja, a “autoridade” que virou símbolo da operação e que se apresentava como paladino da moralidade acabou condenado pelo mesmo sistema que usou para perseguir adversários políticos.
A divulgação do power-point virou símbolo de um jornalismo que se confunde com espetáculo, em que a forma vale mais do que o conteúdo.
A jornalsita Malu Gaspar, à época, também esteve entre os nomes que emprestaram sua pena a esse tipo de cobertura, ajudando a legitimar narrativas que se sustentavam em insinuações e não em provas.
O resultado foi devastador para os acusados, mesmo sem provas objetivas sustentadas em documentos incontestáveis.
Roupas em armários, pedalinhos em sítio e até cuecas viraram “provas” de posse da propriedade do sítio de Atibaia, como também em relação à “compra”, que não houve, do triplex de Guarujá. Isso até que a própria Justiça desmontasse a farsa jurídica-midiática, reconhecendo que não havia vínculo material entre Lula e os bens apontados como sendo de sua propriedade, fruto de compensações por atos de malversação pública inconfessáveis.
O paralelo é inevitável. Na “denúncia” contra Alexandre de Moraes, repete-se o mesmo método. São rumores transformados em manchetes, fontes anônimas convertidas em “verdade jornalística” – e uma narrativa que serve mais ao jogo político do que ao dever de informar.
Cortina de fumaça
Não é coincidência que esse ataque surja também quando o STF, por meio do ministro Flávio Dino, avança em investigações sobre desvios de emendas parlamentares ocultas, atingindo o centrão e políticos da extrema direita.
O caso do deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL de Jair Bolsonaro, flagrado com dinheiro vivo em seu flat, deveria ser o escândalo da vez. Mas, em vez disso, a narrativa contra Moraes ocupa o espaço.
A explicação de Sóstenes, aliás, é digna de nota. Ele tem sustentado, sem apresentar provas, que o dinheiro veio da venda de um apartamento não declarado ao Imposto de Renda. Isso sem escritura, sem comprador identificado, sem recibo. Apenas a palavra dele. E a grande imprensa áulica reproduz suas declarações como se fossem “provas” irrefutáveis.
Aqui, novamente, evidencia-se o contraste do tratamento pela grande imprensa. Enquanto há provas materiais de dinheiro vivo encontrado, a imprensa prefere repercutir rumores sem provas contra o ministro do STF.
O mito da imparcialidade e outros exemplos históricos
A crítica que emerge desse episódio é mais ampla. Comprova, mais uma vez e sempre, que não existe imprensa neutra, imparcial.
Esse mito, importado do modelo norte-americano, já foi há muito desmascarado, mas ainda há quem o repita à exaustão. A imprensa sempre esteve alinhada a interesses, sejam eles econômicos, políticos, ideológicos.
A história brasileira é pródiga em exemplos, como já citado os movimentos pré 1964, com as manchetes alarmistas sobre “ameaça comunista”, preparando o terreno para o golpe militar.
Como repetiu também em 1989, com a edição manipulada do debate entre Lula e Collor pela Rede Globo, influenciando o eleitor a votar no segundo. E deu no que deu.
Em 2016 voltou a acontecer com a denúncia de “pedalada fiscal”, que acabou virando crime de responsabilidade sem nunca ter sido crime, sustentando o impeachment de Dilma Rousseff.
A Lava Jato, também é preciso repetir, condenou Lula à prisão por indícios frágeis que viraram certezas e manchetes contundentes nos grandes jornais. Isso até que a própria Justiça reconhecesse a inconsistência das provas.
Portanto, como se obaserva, o padrão ér recorrente. A grande imprensa atua como protagonista em momentos decisivos, ora legitimando golpes, ora fabricando suspeitas, ora blindando aliados.
Que apresentem provas, não ilações
O caso do Banco Master não é apenas sobre um contrato de advocacia ou sobre telefonemas a um presidente do Banco Central. É sobre o uso político da imprensa, sobre a tentativa de fragilizar o Supremo e sobre a repetição de um padrão que tem o claro objetivo de corroer a confiança nas instituições.
E aqui está o ponto essencial do contraste: a jornalista Malu Gaspar trouxe apenas rumores, enquanto Moraes e o Banco Central apresentaram versões oficiais, documentadas, dos encontros que tiveram.
Cabe à sociedade distinguir entre fatos e narrativas, entre provas e insinuações, para que não se repita o erro de transformar suspeitas em certezas e certezas em golpes. E que o leitor tire as conclusões que lhe aprouver, com base em fatos, não em suspeitas criadas pelo “ouvir dizer”.
Mas para isso, é preciso também que a esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, ainda pouco ouvida pela grande imprensa, explique de forma clara e cristalina o objetivo do contrato firmado com o Banco Master.
Afinal, qual foi o escopo jurídico, qual é o valor total do contrato e quanto efetivamente foi realizado? O contrato, avaliado em R$ 129 milhões, previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões e abrangia ampla consultoria jurídica, incluindo representação junto ao Banco Central, à Receita Federal e ao Congresso Nacional. Ele foi efetivado, ainda está em vigor?
Essa é, até agora, a única “prova” material apresentada na denúncia de O Globo: um contrato milionário entre um banco sancionado e o escritório da família do ministro.
A grande imprensa tem tratado esse documento como peça central da denúncia, enquanto Moraes nega qualquer interferência em favor do Banco Master. Ele tem sustentado, reiteradamente, que os encontros com Gabriel Galípolo trataram apenas da aplicação da Lei Magnitsky.
A oposição, por sua vez, já articula pedidos de CPI e até fala em impeachment do ministro, usando o contrato como argumento político. Com maioria no Congresso Nacional, tudo pode acontecer.
E é nesse cenário que Lula, em seu último ano de mandato em 2026 e apontado como favorito à reeleição, terá de “colocar a barba de molho”.
Afinal, o desgaste institucional provocado por denúncias frágeis pode ser usado como arma política contra o governo e contra o Supremo, a exemplo do que ocorreu com a ex-presidente Dilma Rousseff e com o golpe militar de 1º de abril de 1964.
*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.
**Com informações da grande imprensa e mídia alternativa.








