O Boi e o Burro explicados

Arte: Natividade (1960),
de Portinari (1903-1962)

Boas Festas, Itabira! Especialmente a vocês, navegantes das páginas da Vila de Utopia, publicamos uma crônica ecológica, de poética natalina de Carlos Drummond de Andrade (Cristina Silveira)

Carlos Drummond de Andrade

Há várias explicações para a presença de um boi e de um burro no ato de nascimento de Jesus. A mais sofisticada é que eles são símbolos: o boi representa o povo judeu acorrentado pela lei; o burro, o mundo pagão.

Outros interpretam as figuras animais como antecipações das figuras humanas que cercaram Jesus nos últimos instantes de sua vida: o bom e o mal ladrão, crucificados juntamente com ele.

Há quem, realisticamente, prefira admitir que São José levara consigo o burro e o boi, para que o primeiro servisse de montaria à Virgem, e o segundo, vendido, fornecesse o dinheiro necessário ao pagamento do imposto, pois sempre, e não apenas naquele tempo, o fisco é inexorável.

Ainda mais cotidiana é a versão segundo a qual São José, proprietário dos dois quadrupedes, procurava subtraí-los ao recenseamento determinado por César Augusto, Imperador, romano, e que incluía não só as pessoas como os animais, sabe-se lá com que intenção.

Nada disso. É muito mais simples e admirável considerar que o boi e o burro estavam ali, e nem podiam deixar de estar, porque Jesus vinha conciliar o terrível gênero humano consigo mesmo e com a criação em todas as suas partículas, inclusive as supostamente desprovidas de razão (como se não houvesse uma razão geral e universal, unindo todos os elementos do grande teatro do mundo).

O boi, em sua placidez, o burro, em sua grave simplicidade, não foram ao estábulo para homenagear o Deus que nascia; moravam lá, eles é que receberam a visita do casal e prestaram as humildes honras da casa ao Menino.

Eles é que providenciaram a calefação reclamada em ambiente gélido, para que o Menino não morresse de frio. E o fizeram da maneira mais encantadora; exalando sobre o corpinho indefeso os seus bafos de tépida benevolência.

O primeiro calor que cercou Jesus foi produção natural deles. E o primeiro ato reverencial, o primeiro signo de adoração, implicando o reconhecimento da divindade infusa no bebê, não foram os anjos nem os pastores nem os Reis Magos que o praticaram: foram dois bichos que não tinham informações das Escrituras, e se prosternaram: agnovit bos et asinus quod puer erat Dominus. O boi e o jumento reconheceram que o menino era o Senhor.

Era meia-noite, hora em que até hoje, na tradição popular, eles continuam liturgicamente a se ajoelhar, no campo ou onde quer que estejam, lembrando o acontecimento de que participaram, menos como privilegiados do que como representantes de toda matéria viva, atenta à chegada de seu Criador sob a forma de matéria viva também, e vulnerável como qualquer outra.

Arte: Nativity, de Hieronymus Bosch (-1516)

A mais antiga iconografia do Natal assim os mostra, assumindo posição de realce na cena: estão em pé de igualdade com a Virgem, na posição junto à cama de palha, como familiares e guardas de absoluta confiança. Mais modernamente, Jerônimo Bosch dá ao boi estrutura e importâncias monumentais, aos pés de Jesus.

É visível o respeito, a compenetrada afeição com que os artistas consignavam o papel desempenhado pelo irmão burro e pelo irmão boi, na excepcionalidade do episódio não os viam como testemunhas, mas como agentes de uma situação.

Ora, dirão, tudo não passa de invencionices de um falso evangelho de São Mateus, datado do século VI, que também introduzira no episódio nada menos que duas parteiras, uma cética e outra cheia de fé. O Concílio de Trento fulminou tais fábulas.

Mas se é exato que a Virgem não dispôs de parteira para dar à luz um Deus, e mesmo o teve suavemente, não é menos certo que ninguém consegue desligar do Natal a companhia do boi e do burro, incorporados para sempre à visão que temos da manjedoura de Belém.

E bendito seja esse pseudo Mateus com sua imageria apócrifa. Nem era preciso citar, em interpretação forçada, Isaias, I, 3: “O boi conhece o seu possuidor, e o burro o presépio do seu dono.” Burro e boi explicam-se por si mesmos, na hora e vez.

Cristo no Jardim do Getsêmani, 1901, de Arkhip Kuindzhi (1841-1910), da Rússia

Jesus não podia ter outros companheiros mais comezinhos, ao encarna-se entre pobreza, humildade e trabalho.

Se os russos colocam no lugar desse burro, que eles não conhecem, esbelta silhueta do cavalo, se outros povos substituem o boi pelo búfalo, que lhes é mais familiar, se qualquer bicho da terra pode com dignidade assumir a responsabilidade sacra  daqueles dois no quadro bíblico, o pensamento divino se manifesta de igual modo: Jesus veio dar o recado de que a vida é um todo, e que nem indivíduos nem povos nem nações devem tentar dissociá-lo. Em outros termos: vale a pena tentar a experiência do amor.

[O Jornal, pesquisa na BN-Riom- Pesquisa: Cristina Silveira]

 

 

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *