Mulheres 50+ impulsionam cultura, memória e criação no Santa Ruth com novo curso sobre patrimônio afroitabirano

Fotos: Divulgação

Clube de Mães Santa Ruth fortalece vínculos, saberes tradicionais e economia criativa ao lançar formação “Rosarinho, meu tesouro!”, que integra ações contínuas de valorização cultural na periferia de Itabira

No bairro Santa Ruth, em Itabira, a cultura e o cuidado comunitário têm encontrado novas formas de expressão por meio do trabalho do Clube de Mães Santa Ruth, uma das associações mais tradicionais da cidade.

Criado em 1984 e oficialmente registrado em 1997, o grupo nasceu em meio às lutas por reconhecimento urbano e dignidade para famílias que se estabeleceram na região entre os anos 1970 e 1980. Hoje, quatro décadas depois, o Clube se consolida como um espaço de convivência, formação e protagonismo feminino, especialmente entre mulheres acima de 50 anos.

À frente da associação está Adriana Almada, presidente do Clube e coordenadora da Feira Expocriativa, que tem articulado ações voltadas ao fortalecimento da economia criativa e da identidade cultural local.

Todas as quartas-feiras, lideranças femininas do bairro se reúnem para dedicar algumas horas ao artesanato, atividade que ultrapassa o fazer manual e se transforma em instrumento de acolhimento, memória e mobilização social.

A dinâmica desses encontros, analisada pela pesquisadora e comunicadora Lúcia Tânia Augusto, revela um processo profundo de reconstrução de vínculos e de valorização da identidade afroitabirana.

O Clube de Mães Santa Ruth se consolida como um espaço de convivência, formação e protagonismo feminino
Artesanato como cuidado, memória e pertencimento

O artesanato praticado no Santa Ruth funciona como um espaço de ressignificação para mulheres que, ao longo da vida, acumularam múltiplas jornadas de trabalho e cuidado.

Ao se reunirem semanalmente, elas compartilham histórias, trocam experiências e redescobrem habilidades que fortalecem autoestima, autonomia e senso de pertencimento.

A prática manual também favorece a saúde mental, reduzindo sintomas de ansiedade e depressão. E contribui para a manutenção das funções cognitivas e da coordenação motora, aspectos essenciais para a autonomia na maturidade.

Além disso, o grupo se tornou um espaço de debate sobre questões do bairro e de mobilização cidadã. As participantes discutem qualidade de vida, organizam doações, participam de bazares e articulam ações que fortalecem a solidariedade e a participação social.

A cultura, nesse contexto, funciona como ferramenta de cidadania e de preservação da memória coletiva.

Novo ciclo formativo amplia o alcance cultural: “Rosarinho, meu tesouro!”

Em sintonia com esse movimento de fortalecimento comunitário, o Clube de Mães Santa Ruth lança agora o curso Artesanato Identitário e Criatividade em Patrimônio Cultural: Rosarinho, meu tesouro! – Presença singela do Barroco em Itabira, voltado para artesãs 50+ da periferia e da zona rural do município.

A formação integra o projeto de expansão da entidade, que mira a conquista de uma sede própria e a futura abertura da Escola Livre de Artesanato Mineiro (ELAM).

O curso será ministrado por Maria Phia, mulher negra, restauradora, artista e educadora com sólida trajetória no campo do patrimônio cultural.

Técnica em Conservação e Restauro pela FAOP e especialista em Análise Ambiental e Patrimônio Cultural, ela atuou em igrejas de Ipoema, Ouro Preto, Mariana e Catas Altas da Noruega, além de destacar em seus estudos a relevância histórica da Igreja de Nossa Senhora do Rosário (1812), patrimônio protegido pelo IPHAN e marco da memória afro-itabirana.

A formação, com carga horária de 12 horas, será realizada no Centro Comunitário do Bairro Santa Ruth e combina teoria, prática, produção de croquis e criação de protótipos inspirados no barroco mineiro e na herança das Irmandades do Rosário.

As vagas são limitadas e destinadas exclusivamente a mulheres acima de 50 anos.

Patrimônio cultural como caminho para autonomia e futuro
Eventos do Clube de Mães Santa Ruth reúnem moradores em celebrações que fortalecem a identidade afroitabirana e o sentimento de pertencimento

A iniciativa reforça pilares essenciais para a comunidade: educação patrimonial, valorização da identidade afroitabirana, fortalecimento da economia criativa e reconhecimento do barroco como parte da história local.

Ao estimular a criação artística e o senso de pertencimento, o curso dialoga com diretrizes do IPHAN, do IEPHA e de políticas públicas de cultura, contribuindo para a geração de renda e para a preservação de saberes tradicionais.

Para Lúcia Tânia Augusto, que acompanha de perto o trabalho do Clube, o curso representa um passo importante na consolidação de um projeto maior que é transformar habilidades em negócios sustentáveis, ampliar o acesso ao mercado e fortalecer mulheres que, historicamente, tiveram menos oportunidades.

“Ao unir formação técnica, memória cultural e empreendedorismo social, o Clube de Mães Santa Ruth reafirma seu papel como agente de transformação na periferia de Itabira”, diz Lúcia Tânia Augusto.

Segundo ela, o acontece no Santa Ruth vai muito além de oficinas semanais ou cursos pontuais. Trata-se de um movimento de preservação do patrimônio cultural, fortalecimento de vínculos e construção de futuros possíveis a partir do olhar, da experiência e da potência das mulheres 50+.

É assim que o Clube de Mães demonstra que cultura, cuidado e comunidade podem caminhar juntas – e que, quando caminham, transformam vidas e territórios inteiros.

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