Sem respaldo na lei, vereador Didi Caldo de Cana propõe reserva de mercado para empresas de Itabira nas licitações da Prefeitura

Fotos: Carlos Cruz

Vereadores situacionistas reconhecem necessidade de fortalecer comércio local, mas alertam para limites legais e defendem capacitação de empresários

Depois de participar da caminhada “patriota pela liberdade de expressão e libertação do ex-presidente Jair Bolsonaro”, preso no complexo da Papuda, em Brasília, após condenação por tentativa de golpe de Estado, de volta do recesso parlamentar, o vereador Cidnei “Didi Caldo de Cana” Camilo Rabelo (PL) ocupou a tribuna da Câmara na sessão de terça-feira (2).

Em seu pronunciamento, o vereador elevou o tom contra o governo Marco Antônio Lage (PSB), aliado do presidente Lula e provável apoiador da sua reeleição neste ano.  Ele criticou a baixa participação das empresas locais nas compras da Prefeitura e defendeu a criação de uma reserva de mercado para fornecedores itabiranos.

Segundo o bolsonarista, no último quadrimestre de 2025, apenas 17% das contratações da Prefeitura foram realizadas em Itabira, apontou, com base no último relatório do Observatório Social do Brasil-Itabira (OSBI). “O dinheiro da Prefeitura vai embora, 83% para empresas de fora”, lamentou o vereador.

O argumento não é novo. Desde que foi criado há oito anos, o OSBI vem relatando de forma recorrente que a Prefeitura contrata e compra muito pouco na praça local. Isso por motivos diversos, mas sobretudo pela falta de competitividade e capacitação das empresas locais

Mesmo assim, há um mecanismo já previsto no decreto municipal nº 2.920, de 7 de julho de 2020, que concede tratamento diferenciado às micro e pequenas empresas estabelecidas na cidade.

Esse decreto permite que, em aquisições de menor valor, a Prefeitura pode comprar de micro e pequenos fornecedores locais mesmo quando o preço ofertado seja até 10% superior ao da menor proposta apresentada por empresas de fora.

Já para contratações maiores, prevalece a legislação federal, que não prevê reserva de mercado.

Governistas reconhecem problema, mas apontam limites da lei
Bernardo Rosa sugere programas de capacitação para aumentar a competividade; Gabriel Quintão lembrou que o TCMG considera inconstitucional priorizar compras por localização. Já Luiz Carlos de Ipoema critica o excesso de atas de adesão

No debate em plenário, os vereadores da base governista reconheceram a necessidade de fortalecer o comércio local, mas salientaram que a solução não pode ferir a legislação.

Bernardo Rosa (PSB) defendeu uma análise mais profunda sobre os motivos que levam empresários de Itabira a não participarem ou perderem licitações.

Para ele, não basta citar números: é preciso entender se há desinteresse, falta de preparo ou incapacidade técnica das empresas locais. E sugeriu uma maior capacitação empresarial junto ao CDL e à Acita, medida que já foi tentada anteriormente, mas sem resultados consistentes.

Júlio “Contador” Araújo (PRD), que até pouco tempo ocupava a Secretaria Municipal da Fazenda, reforçou que a nova Lei de Licitações (14.133) estabelece modalidades que precisam ser seguidas à risca.

Entretanto, lembrou que existe lei municipal pela qual o município aderiu ao programa federal Contrata Mais Brasil, voltado a pequenos empreendedores. E cobrou do governo municipal a sua regulamentação para dar efetividade a esse instrumento.

O estreante vereador Gabriel Quintão (PDT), o “breve”, empossado recentemente como suplente e que deve se licenciar para reassumir a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de São Gonçalo, destacou que o Tribunal de Contas já considerou inconstitucional limitar compras por localização.

Para ele, a saída está em treinar e orientar microempreendedores locais para que possam competir com empresas de fora.

O vereador Marcos “Marquinhos da Saúde” Ferreira da Silva (Solidariedade) defendeu mais mudanças na legislação municipal para ampliar a participação de pequenos e médios empresários.

De acordo com ele, muitos microempreendedores individuais (MEIs) não conseguem atender às exigências burocráticas das licitações, o que os exclui de processos que poderiam movimentar a economia local.

Para o edil, flexibilizar regras e criar mecanismos de inclusão é fundamental para que o dinheiro público circule mais dentro da cidade.

Se isso for possível, que seja posto em lei municipal, mas sem ferir a legislação federal – e sem significar reserva de mercado para empresas locais.

Carlinhos “Sacolão” cobra maior participação da Vale nas compras na praça de Itabira
Carlinhos “Sacolão” cobra da mineradora Vale mais aquisições na praça de Itabira para movimentar a economia local

O presidente da Câmara, Carlos “Sacolão” Henrique Silva Filho (Solidariedade), ao encerrar o debate, levou a cobrança para além da Prefeitura.

Segundo ele, a mineradora Vale, maior empresa instalada em Itabira, se boa vontade tivesse em incrementar o comércio local, poderia contratar mais de fornecedores itabiranos, fortalecendo a economia da cidade.

É que, diferentemente da Prefeitura, que está sujeita às regras da Lei de Licitações, a Vale, por ser empresa privada, não enfrenta os mesmos entraves legais.

Isso lhe dá, caso assim decidir, liberdade para priorizar empresas itabiranas e contribuir de forma mais direta para que os recursos gerados pela mineração permaneçam circulando no município, defendeu o presidente da Câmara.

“Mais do que cobrar da Prefeitura, temos que cobrar da Vale. Ela tem condições de contratar aqui e fortalecer nossa economia. O que está acontecendo é um esvaziamento, um dinheiro que sai de Itabira e vai enriquecer outras cidades”, afirmou.

Ainda de acordo com Carlinhos “Socolão”, muitas empresas do Distrito Industrial não conseguem prestar serviços para a mineradora, que prefere contratar companhias de fora.

“A Vale usa nossa água, quebra nosso asfalto com seus caminhões de minério e leva o dinheiro embora”, disse. “E muito pouco retribuiu pelo muito que leva”, acrescentou.

 

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