Pesquisadores holandeses desmontam o tabu da cannabis ao revelar sua história molecular

Foto: CC0 Domínio Público

Estudo científico revela como a planta evoluiu para produzir seus principais compostos e aponta futuro medicinal

Ana Cristina Ribeiro Fraga*

Como uma planta capaz de gerar tantos efeitos positivos pôde ser mantida sob proibição durante anos, em nome sabe-se lá de quê, mas por certo por interesses inconfessáveis?

Essa pergunta volta ao centro do debate com a publicação de um estudo que, pela primeira vez, demonstra experimentalmente como a cannabis adquiriu a capacidade de produzir THC, CBD e CBC, apontando um caminho direto para fabricar essas moléculas pela biotecnologia, com aplicações médicas em escala.

A pesquisa foi conduzida pela Wageningen University & Research (WUR), na Holanda, e ganhou destaque em veículos científicos e de divulgação, nacionais e estrangeiros.

Pesquisadores de WUR reconstruíram enzimas extintas, ativas há milhões de anos, e demonstraram que a planta evoluiu de enzimas “generalistas” para variantes especializadas que sintetizam os principais canabinoides.

O trabalho, publicado online em 26 de dezembro no Plant Biotechnology Journal, inaugura uma explicação experimental da trajetória molecular que levou ao THC, CBD e CBC.

A análise de DNA e a engenharia dessas enzimas revelam uma rota de evolução funcional rara de se observar com essa precisão em plantas de interesse econômico e médico.

Salto biotecnológico

Ao recriar essas enzimas e comprovar sua função, os cientistas abriram uma via para produzir canabinoides sem depender de cultivos agrícolas, algo que interessa diretamente a farmacêuticas, startups e centros de P&D.

A promessa é fabricar moléculas de alta pureza, padronizadas e em escala, com impactos em custo, qualidade e acesso.

A própria WUR destaca a aplicabilidade das enzimas desenvolvidas para produção de canabinoides com finalidade terapêutica.

A repercussão na imprensa especializada reforça que a descoberta não é apenas histórica: ela é operacional, com potencial de se traduzir em processos industriais.

Quando o tabu cede ao mercado
Propaganda dos Cigarros indios, cannabis indica, no início do século passado, para tratamento da asma, catarros, insonia (Imagem: Reprodução)

O movimento internacional indica que, onde há pesquisa sólida e perspectiva de negócios, a proibição perde terreno.

Países que antes lideravam a repressão, como no caso emblemático dos Estados Unidos, hoje avançam na regulação e, em muitos estados, legalizam até o uso recreativo adulto, criando um mercado formal multibilionário e estimulando inovação farmacêutica e agrícola.

Essa inflexão convive com uma narrativa histórica de criminalização, mas o horizonte atual é de pragmatismo econômico e sanitário, com interesse explícito de grandes corporações em ocupar esse espaço e legitimar cadeias globais de produção e distribuição.

O Brasil entre o potencial e a hesitação

No Brasil, a agenda avança aos poucos. A autorização de produtos à base de canabidiol sob regras da Anvisa convive com entraves à pesquisa, à produção local e à incorporação tecnológica.

O país observa a corrida global, inclusive o desenvolvimento biotecnológico de canabinoides, enquanto debate marcos regulatórios para cultivo, extração e manufatura.

A descoberta da WUR reforça um ponto sensível: se o futuro do setor for dominado por plataformas enzimáticas e fermentação, quem chega primeiro dita preço, qualidade e acesso.

Sem um ambiente regulatório que estimule P&D e transferência tecnológica, o Brasil corre o risco de se tornar importador crônico de insumos estratégicos.

Indústria farmacêutica em cena

A convergência entre biotecnologia e demanda clínica move o interesse de farmacêuticas: moléculas como THC, CBD e CBC, produzidas por vias enzimáticas, podem reduzir variabilidade, elevar controle de qualidade e acelerar ensaios regulatórios.

A própria comunicação da WUR sublinha o potencial medicinal e a viabilidade técnica dos novos catalisadores, um “gancho” que explica por que o setor privado redobra esforços em IP, escalonamento e parcerias com universidades.

Uso adulto recreativo

A liberação do consumo recreativo segue um mosaico mundo afora. Há países que legalizaram nacionalmente, outros que avançam por estados ou províncias, e uma parcela que mantém a proibição, mas descriminaliza o porte e experimenta modelos de clubes sociais.

Nos Estados Unidos, a tendência é de expansão estadual e ajuste federal gradual; em outras regiões, a pauta se conecta a segurança pública, saúde coletiva e arrecadação.

O padrão que se observa é claro: onde a regulação se consolidou, o mercado formal ganhou espaço, a fiscalização se profissionalizou e o debate migrou do “se” para o “como” regular melhor.

O que muda daqui para frente

A combinação entre comprovação científica da origem dos canabinoides e ferramentas de produção biotecnológica redefine fronteiras.

Países que atualizam seus marcos regulatórios atraem investimento, constroem cadeias produtivas mais limpas e fomentam pesquisa aplicada.

Para o Brasil, a decisão é estratégica – e passa por aderir ao ciclo de inovação, com regras claras para P&D, proteção ao consumidor e estímulos à produção tecnológica, ou assistir à consolidação de um mercado global no qual entra tarde e caro.

Com a ciência mostrando o caminho, a pergunta que abre este texto deixa de ser retórica: quem se beneficia quando o atraso regulatório persiste?

*Ana Cristina Ribeiro Fraga é escritora bissexta, jornalista e educadora social, atenta às mudanças climáticas e comportamentais.

Fontes consultadas:

Plant Biotechnology Journal (artigo da WUR sobre a origem dos canabinoides) –

 

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