Morre Teuda Bara, do grupo Galpão, deixando vivas lembranças em Itabira

Fotos: Reprodução/
grupo Galpão/Facebook

Atriz histórica das artes cênicas mineiras e brasileiras  parte aos 84 anos, mas permanece presente na memória coletiva de Itabira, cidade que tantas vezes a recebeu em suas praças, teatro e palcos improvisados

Teuda Bara,  atriz e uma das fundadoras do grupo Galpão, faleceu em Belo Horizonte nessa quinta-feira natalina (25), aos 84 anos, vítima de septicemia com falência múltipla dos órgãos.

Nascida em 1941 na capital mineira, filha de um major dos bombeiros trombonista e de uma enfermeira cantora e parodista, cresceu em ambiente musical e irreverente.

Sem formação acadêmica em teatro, estudou Ciências Sociais na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas abandonou o curso nos anos 1960 para viver como hippie.

Foi essa experiência que moldou sua irreverência e sua recusa às convenções, que depois se tornariam marcas de sua arte.

Antes de fundar o Galpão em 1982, trabalhou com o diretor Eid Ribeiro e integrou o grupo Fulias Bananas. Sua trajetória foi marcada pela veia cômica, pela inteligência e pela coragem artística, qualidades que a tornaram referência nacional.

Teuda também atuou na televisão e no cinema, em produções como Meu Pedacinho de Chão e Menino Maluquinho, sempre levando sua autenticidade para além dos palcos.

Era chamada carinhosamente de “Teudinha” por colegas e amigos, que destacavam sua generosidade e sua luz.

Teuda Bara não tinha medo de provocar. Sua gargalhada era quase um personagem à parte, capaz de desarmar plateias.

Em várias montagens, ela se despia, não como escândalo, mas como afirmação de liberdade e de respeito ao corpo. Essa coragem, especialmente por ser uma mulher fora dos padrões estéticos convencionais, fez dela um ícone revolucionário.

As memórias de Itabira
Teuda Bara em cena com o grupo Galpão na montagem de Romeu & Julieta, dirigida por Gabriel Villela em 1992, inspirada em William Shakespeare, com figurinos rústicos e estética mambembe, como nesta imagem que evoca o sertão mineiro e o teatro de rua

Em Itabira, Teuda Bara deixou marcas profundas. O grupo Galpão esteve inúmeras vezes na cidade, em festivais e temporadas que marcaram a vida cultural local.

Uma das primeiras apresentações do Galpão em Itabira ocorreu na praça José Máximo Resende, no bairro Campestre, durante um Festival de Inverno, na década de 1990.

O palco foi uma rural estacionada, símbolo do teatro mambembe e itinerante que o grupo encarnava com orgulho, encenando Romeu & Julieta, de William Shakespeare, de uma forma bem peculiar.

Na adaptação dirigida por Gabriel Villela, a tragédia shakespeariana foi transposta para o universo da cultura popular brasileira, com referências ao sertão mineiro, à música e à linguagem inspirada em Guimarães Rosa.

Essa leitura singular transformou a maior história de amor da humanidade em um espetáculo profundamente enraizado na tradição popular, sem perder sua universalidade.

Teuda Bara com o grupo Galpão, encenando a peça Till Eulenspiegel, na praça Acrísio de Alvarenga, no Festival de Inverno de 2009 (Foto: Humberto Martins/Vale Notícias)

É quase certo afirmar que todas as peças do Galpão passaram por Itabira ao longo das décadas. Em uma dessas montagens, no vetusto palco do teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), Teuda protagonizou uma cena de nudez, gesto artístico que surpreendeu os mais pudicos.

Longe de ser escândalo, foi uma afirmação de sua liberdade e coragem artística, de uma mulher que, mesmo obesa, não tinha vergonha de seu corpo e o oferecia como parte da obra, em respeito ao público e à arte.

Mais recentemente, esteve com o grupo Galpão em Itabira, em 2023, com a peça Nós, no festival Pulsa!, e em 2024, no 50º Festival de Inverno, com a peça Cabaré Coragem.

Essas passagens, vividas em datas expressivas, como no Festival de Inverno, e também em eventos culturais promovidos pela mineradora Vale, na época em que patrocinava atividades sem contar com a Lei Rouanet, permanecem na memória dos itabiranos como momentos de ousadia e beleza.

Foram encontros que desafiaram convenções e abriram espaço para novas formas de pensar o teatro e a vida na cidade de Drummond, como também em muitas outras cidades brasileiras e no exterior.

O grupo Galpão, com Teuda em cena, levou sua arte para países como França, Alemanha, Portugal, Espanha, Estados Unidos e México, sempre reafirmando a força de um teatro popular e universal.

É assim que Teuda Bara não foi apenas uma atriz. Foi um símbolo de resistência, humor e humanidade. Em Itabira, suas apresentações se tornaram lembranças eternas, que ainda ecoam na memória de quem teve o privilégio de assistir suas apresentações no teatro, nas praças e nos palcos improvisados.

O velório de Teuda Bara está sendo realizado no foyer do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, a partir das 10h desta sexta-feira (26). Teuda deixa os filhos André e Admar.

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