Minério de ferro inicia 2026 sob pressão e ameaça a receita das prefeituras dependentes da Cfem

Foto: Carlos Cruz

Queda nos preços internacionais acende alerta para municípios minerados e demanda cautela fiscal

O mercado global de minério de ferro entra em 2026 em meio a preços pressionados, demanda enfraquecida e aumento da oferta internacional.

Para o Brasil, segundo maior produtor mundial e altamente dependente da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem, o quadro exige atenção redobrada de estados e municípios mineradores. A advertência é da Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais e do Brasil (Amig Brasil).

Em 2025, a arrecadação da Cfem no país somou cerca de R$ 7,9 bilhões, avanço de pouco mais de 6% em relação a 2024. O minério de ferro respondeu por 70% do total, reforçando a vulnerabilidade fiscal dos entes públicos às oscilações do mercado.

Apesar do crescimento, o desempenho ocorreu em ambiente de queda: a cotação média do minério com 62% de ferro recuou 7,6%, para US$ 101,98 por tonelada. Entre 2020 e 2025, o produto acumulou perda de 7,5%, mesmo após a valorização histórica de 2021.

Câmbio atua como amortecedor, mas não resolve riscos

A valorização do dólar foi decisiva para sustentar a arrecadação em 2025. A moeda encerrou o ano a R$ 5,59, frente aos R$ 5,39 de 2024, compensando parte da queda nos preços internacionais.

“O câmbio funcionou como um amortecedor importante em 2025. Mas trata-se de um fator conjuntural, que não elimina os riscos estruturais do mercado”, avalia a consultora econômica da Amig Brasil, Luciana Mourão.

Projeções para 2026 apontam novo ciclo de ajuste

Estimativas internacionais indicam que o preço médio do minério de ferro na China deve recuar para US$ 94 por tonelada em 2026, queda de 7% frente à média de 2025. As projeções variam: Citi prevê US$ 85, Goldman Sachs US$ 93, J.P. Morgan US$ 95 e Fitch Ratings US$ 90.

Contratos futuros na Bolsa de Singapura, com vencimento em dezembro, giram em torno de US$ 95, reforçando a expectativa de acomodação em patamares mais baixos.

“Quando o minério opera próximo ao ponto de equilíbrio, qualquer choque adicional pode gerar impactos significativos sobre a produção e a arrecadação pública”, alerta Mourão.

Oferta crescente e demanda chinesa enfraquecida

A demanda por aço na China segue enfraquecida, com recuperação limitada do setor imobiliário.

Ao mesmo tempo, o mercado se prepara para a entrada em operação do projeto Simandou, na Guiné, que deve adicionar 20 milhões de toneladas de minério de alta qualidade e baixo custo à oferta global.

Outro fator é a adoção, pela China, de um sistema de licenciamento para exportações de aço a partir de janeiro de 2026, medida que pode reduzir a produção siderúrgica e, consequentemente, a demanda por minério.

Teste de sustentabilidade fiscal

É assim, com preços projetados abaixo de US$ 100, que a arrecadação da Cfem tende a operar sob maior pressão em 2026.

Estados e municípios dependentes da compensação mineral precisarão adotar postura conservadora e planejar estratégias de mitigação de riscos fiscais.

“A Cfem é extremamente sensível ao ciclo das commodities. É fundamental que os entes públicos evitem decisões baseadas em picos de arrecadação e mantenham prudência”, recomenda a consultora econômica, Luciana Mourão.

Em nota distribuída à imprensa, a Amig Brasil reforça que o desempenho do mercado em 2026 será um teste crucial para a sustentabilidade fiscal das regiões mineradas.

E evidencia a urgência de diversificação econômica e planejamento de longo prazo, como é o caso de Itabira, que tem um horizonte de exaustão de suas reservas medidas previsto para 2041.

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