Mata do Limoeiro foi salva da sanha assassina da motosserra pela mobilização popular e neste ano celebra 15 anos de preservação

Fotos: Divulgação

Mobilização dos moradores de Ipoema impediu que a mata fosse transformada em carvão e garantiu a criação de mais uma importante unidade de conservação de Minas Gerais

No próximo dia 7 de março (sábado), o Parque Estadual Mata do Limoeiro celebra seus 15 anos de implantação com a entrega da Medalha Raízes da Conservação. A solenidade vai reconhecer entidades e personalidades que contribuíram para a criação e manutenção da unidade ao longo dos anos.

“Será um momento para celebrar trajetórias, reconhecer compromissos e reafirmar a importância das parcerias construídas ao longo dos 15 anos do parque”, afirma o gerente Alex Amaral.

Segundo ele, a medalha simboliza o enraizamento coletivo das ações de conservação, educação ambiental e fortalecimento do território.

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Da ameaça ao tombamento municipal

A história do Limoeiro é marcada pela resistência e mobilização popular. Em 1987, a mata nativa de Ipoema esteve à beira de desaparecer, mais uma vez ameaçada pela produção de carvão vegetal para abastecer siderúrgicas da região.

O destino parecia repetir o passado, quando foi adquirida por Zezinho Simão, derrubada para alimentar altos-fornos.

Foi nesse cenário de nova ameaça à sua integridade que moradores se levantaram contra, reivindicando a sua preservação integral.

Lideranças locais, entre elas Tomas Silveira, Raimundo Afonso e Ney Azevedo (in memoriam), organizaram reuniões, articularam apoio popular e pressionaram autoridades.

Em resposta à pressão comunitária, o então prefeito Luiz Menezes (1989–1992) realizou o tombamento municipal da mata, medida que impediu o corte imediato – e assim garantiu a proteção inicial do território.

A mobilização popular foi decisiva para evitar que a floresta fosse mais uma vez transformada em carvão. Impediu que a “sanha assassina” da motosserra apagasse a esperança de recuperação plena da mata, hoje já em fase final de regeneração.

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Criação do Parque Estadual

Anos depois, em 2011, o então governador Antonio Anastasia assinou o decreto que criou oficialmente o Parque Estadual Mata do Limoeiro, consolidando sua proteção integral sob gestão do Instituto Estadual de Florestas (IEF).

A instalação do parque contou com a participação da Prefeitura de Itabira e da mineradora Vale, que adquiriu a Fazenda Limoeiro como condicionante da Licença de Operação Corretiva (LOC) do Distrito Ferrífero de Itabira.

Em 2013, novas áreas foram incorporadas ao parque como medida compensatória de outros desmatamentos da Vale. O parque foi ampliando para mais de 2 mil hectares, garantindo assim a preservação de remanescentes de Cerrado e Mata Atlântica.

Biodiversidade e território preservado
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Entre as espécies vegetais já identificadas estão três ameaçadas de extinção: a samambaiaçu, a braúna-preta e o jacarandá-caviúna, uma das madeiras mais valorizadas do Brasil. A presença dessas espécies reforça a importância da unidade como guardiã de patrimônios naturais que, em outros locais, já foram dizimados pela exploração predatória.

Na fauna, destacam-se espécies raras como o rato-do-mato e o gambá-de-orelha-branca, típicos da Mata Atlântica e pouco comuns em outras áreas da região. Além deles, o parque abriga aves, pequenos mamíferos e répteis que encontram ali condições ideais de sobrevivência.

O território preservado é também um santuário hídrico. Córregos e inúmeras nascentes cortam a mata, formando paisagens exuberantes. Destaque para cachoeiras e corredeiras que atraem moradores e turistas no verão.

Esses cursos d’água não apenas embelezam o parque, mas desempenham papel vital na manutenção dos recursos hídricos da região, beneficiando comunidades vizinhas e contribuindo para o equilíbrio ambiental.

Além da biodiversidade, o Limoeiro guarda atrativos naturais e culturais que ampliam sua relevância. Trilhas bem estruturadas levam visitantes a grutas, miradouros e cachoeiras, oferecendo contato direto com a natureza em um ambiente de conservação rigorosa.

Assim, o Parque Estadual Mata do Limoeiro não é apenas um espaço protegido. É um território de memória, resistência e natureza preservada, onde a biodiversidade se mantém viva.

Motivo de orgulho coletivo, a comunidade de Ipoema tem motivos de sobra para celebrar sua luta e seu legado para as gerações atuais e futuras.

Espaço de cultura e cidadania
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Mais do que proteger ecossistemas, o Limoeiro tornou-se espaço de cultura e cidadania.

Projetos como o Natal nas Comunidades, o Ecofolia, a Volta da Mata do Limoeiro, o Cinema no Parque e programas de voluntariado aproximam pessoas da natureza e reforçam o sentimento de pertencimento.

Essas iniciativas consolidaram o parque como lugar de educação ambiental, esporte, solidariedade e participação cidadã.

Dessa forma, ampliou seu alcance social, fortalecendo o vínculo entre comunidade e território preservado.

Legado de resistência

O episódio de 1987 é lembrado em Ipoema como momento histórico de grande significado socioambiental.

O que poderia ter sido mais um fragmento de mata convertido em carvão transformou-se em referência de preservação e mobilização comunitária.

Hoje, o Parque Estadual Mata do Limoeiro é símbolo da capacidade de organização popular e da força de uma comunidade que soube transformar indignação em ação.

Sua trajetória mostra que a defesa do meio ambiente, quando assumida coletivamente, gera legados duradouros hoje e sempre.

Serviço

Como chegar 

O Parque Estadual Mata do Limoeiro está localizado no distrito de Ipoema, município de Itabira (MG), na banda oriental da Cordilheira do Espinhaço.

Acesso por carro:

  • Saindo de Itabira, pelo trajeto mais direto, por estrada não pavimentada, a distância é de aproximadamente 37 km; passando pelo Bambas, o percurso fica um pouco maior: cerca de 42 km a 42,5 km, com tempo estimado de 50 a 55 minutos, dependendo das condições da estrada e do tráfego. É possível também passar por Senhora do Carmo
  • De Belo Horizonte, são cerca de 120 km pela BR-381 até o trevo para Bom Jesus do Amparo, seguindo para poema.
  • Há placas indicativas na entrada do distrito de Ipoema que direcionam para a portaria do parque.

Acesso por ônibus

  • A linha Itabira/Ipoema faz o trajeto até o distrito.
  • De Ipoema, é possível seguir até a portaria do parque em transporte local, de bike ou a pé, dependendo da disposição do caminhante.

O parque conta com portaria-receptivo, trilhas sinalizadas e áreas de visitação que permitem contato direto com a natureza em ambiente de conservação.

 

 

 

 

 

 

 

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