Mário Vale, o Artista Genial
Foto: Divulgação/ Flitabira
Por Afonso Borges*
Um sopro atroz de delicadeza e bom humor atravessa a minha vida, agora. Em uma sala escura, a moviola da memória se movimenta rápido, em frames:
Diamantina, 1981, em cima do bandeijão da Universidade, tinha uma sala de aula que virou quarto. Morei 40 dias com o Mário ali, vivendo aquela loucura criativa pós-Ditadura que o Festival de Inverno da UFMG proporcionava. Repeti a dose em 1982 e 1983.
Casa na Rua Major Lopes, no São Pedro onde funcionava a mágica Oficina Mágica, do Mário e do Marcelo Xavier. Fizeram ali a primeira logomarca do Sempre um Papo. Mais que isso, na pindaíba geral que vivíamos (obrigado pela palavra, Celso Adolfo), me abrigaram ali por seis meses.
Ziraldo, quando viu a marca, passou décadas dizendo que foi ele que fez. Ciúmes de homem é um horror.
Depois, fiz duas edições do Festival Brasileiro de Teatro Amador, por iniciativa da Confenata – Confederação Brasileira de Teatro Amador / Funarte. Não, não existia o Ministério da Cultura. Com Mário Vale vivia primeira experiência imersiva enlouquecida de trabalho: duas noites e um dia inteiros acordados, fechando um jornal do Festival. Tenho como provar.
Daí, quase tudo que fiz na vida Mário Vale esteve presente: os anos que trabalhei no “Hoje em Dia”, os inúmeros eventos do “Sempre um Papo”, noites e mais noites de folia, alegria, bebida e muito mais. Além disso, vivemos juntos no mesmo Retiro das Pedras por quase duas décadas.
Quando tinha livraria na Avenida Getúlio Vargas, criamos juntos uma série camisetas com charges e desenhos de incentivo à leitura, com frases de Fernando Fabbrini, Humberto Werneck, entre outros. Foi uma felicidade conceitual – e um fracasso comercial. Mas ficou.
Me tornei irmão de Monica Sartori, vi seus dois filhos com o Mário crescerem. Dividimos segredos, revelações e “puxamos angústia”, como dizia Hélio Pellegrino.
Sabendo que estava doente, promovi uma exposição em sua homenagem no Flitabira com os cartuns de incentivo à leitura. Outro dia mesmo fiz um Mondolivro, na Alvorada.
Hoje ele descansou.
Vou sentir falta daquele abraço apertado, de urso. Daquele jeito estrambótico que ele tinha de cumprimentar, misturando o dedão com o anelar, fazendo um código.
Da sua gargalhada enérgica e traçado com a cabeça, em diagonal, como se não soubesse qual era o assunto. Mas ele sempre sabia.
Da sua arte, genial. Falei pouco. Mas ela ficou. Hoje é dia de falar do amigo que se foi. Vai fazer uma falta miserável.
O cartoon de hoje é um papel em branco.
*Afonso Borges é gestor cultural do Sempre um Papo e do Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira)
Leia mais sobre a homenagem a Mário Vale no 4º Flitabira:









