Itabira, mineração e o tempo que ainda temos
Foto: Carlos Cruz
O que acontece com uma cidade quando o minério que construiu grande parte de sua história começa a se aproximar do fim?
Denes Martins da Costa Lott*
Essa foi uma das questões que surgiram no debate realizado na última quarta-feira (4) no Rotary Club de Itabira, após uma conversa sobre mineração, economia local e os desafios que aparecem diante do horizonte de exaustão das principais jazidas de minério de ferro nas próximas décadas.
Na sequência da palestra houve um debate muito rico e participativo. Mais do que ouvir uma exposição sobre a história da mineração em Itabira, os presentes trouxeram perguntas diretas sobre o futuro econômico da cidade.
Algumas dessas perguntas ajudam a iluminar os dilemas e as possibilidades que estão colocadas para Itabira.
Uma cidade formada pela mineração — mas não apenas por ela
A mineração faz parte da história de Itabira muito antes da criação da Vale. Desde o século XVIII, quando a região ainda estava ligada aos ciclos do ouro, a atividade mineral já integrava a formação econômica do território.
Diversas pequenas forjas de ferro prosperaram e, no final do século XIX e até meados do século XX, Itabira chegou a contar com fábricas de tecidos que empregavam trabalhadores da região e ajudavam a movimentar a economia da cidade.
Até a década de 1940, a mineração esteve presente sobretudo como uma grande reserva adormecida e como promessa de riqueza futura, mas ainda não era o eixo dominante da economia local.
Essa transformação ocorre de forma decisiva a partir de 1942, com a criação da Companhia Vale do Rio Doce.
A mineração passa então a operar em escala industrial e conectada ao mercado internacional. A cidade muda, a paisagem se transforma, novas pessoas chegam, a sociedade assume novas configurações e a economia passa a gravitar cada vez mais em torno do minério.
Quando surgiu a dependência econômica?
Uma das perguntas levantadas durante o encontro foi justamente esta: qual foi o ponto de inflexão que levou Itabira a se tornar tão dependente da mineração?
A resposta não está em um único momento ou decisão isolada. O que ocorreu foi um processo gradual.
A mineração em grande escala trouxe níveis de renda, arrecadação e geração de empregos muito superiores aos de outras atividades econômicas possíveis na região. Naturalmente, comércio, serviços e o próprio poder público passaram a se estruturar em torno desse setor.
Economistas costumam descrever esse fenômeno como a formação de uma economia fortemente concentrada em um único setor produtivo.
Esse processo não é exclusivo de Itabira. Ele pode ser observado em diversas cidades mineradoras ao redor do mundo.
Uma pergunta incômoda — e legítima
Entre as perguntas feitas no encontro, uma delas merece destaque: por que muitas das reflexões e propostas apresentadas na palestra não teriam sido implementadas durante o período em que tive a oportunidade de atuar na administração municipal ?
A pergunta é legítima e merece uma resposta igualmente direta.
Transformações estruturais em cidades mineradoras não dependem de uma única pessoa ou de um único mandato. Elas exigem continuidade institucional, planejamento de longo prazo e articulação entre diversos atores: prefeitura, empresas, universidades e sociedade civil.
Ao longo das últimas décadas, diferentes administrações municipais, dentro das limitações e possibilidades de cada momento histórico, produziram iniciativas importantes com foco na vida da cidade para além do ciclo mineral.
Muitas dessas iniciativas não são imediatamente visíveis, mas contribuíram para estruturar políticas públicas, ampliar a infraestrutura urbana e fortalecer instituições que hoje fazem parte da base de desenvolvimento do município.
E o projeto Itabira 2025?
Outra pergunta recorrente no debate dizia respeito ao chamado Projeto Itabira 2025, lançado nos anos 1990 com o objetivo de pensar o futuro econômico da cidade.
Alguns participantes questionaram se, passadas três décadas, seria possível afirmar que pouco mudou.
Minha resposta foi diferente.
Nos últimos 30 anos, Itabira experimentou transformações importantes em sua estrutura urbana e em alguns setores da economia. O comércio local cresceu significativamente, ampliando a oferta de bens e serviços e consolidando a cidade como polo de atendimento para municípios da região.
Ao mesmo tempo, Itabira tornou-se um importante centro regional de serviços de saúde, com hospitais, clínicas e profissionais que atendem não apenas à população local, mas também a moradores de cidades vizinhas.
O município também passou a abrigar novos polos de formação superior. A implantação de um campus da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) trouxe cursos de engenharia e ampliou o ambiente acadêmico da cidade. A Funcesi, com a criação do curso de medicina, reforçou a vocação de Itabira na área da saúde, enquanto instituições como a UNA contribuem para consolidar um polo educacional relevante na região.
Essas mudanças também se refletem na estrutura do emprego. Hoje a cidade emprega mais trabalhadores fora da Vale do que empregava em meados da década de 1990.
Essas transformações não significam que todos os objetivos imaginados no passado tenham sido plenamente alcançados. Mas também não permitem afirmar que a cidade permaneceu estagnada.
Processos de transformação econômica são, por natureza, graduais e cumulativos.
Um novo fator no horizonte: a água
Outro tema relevante para o futuro da cidade é a questão da disponibilidade hídrica.
Historicamente, a oferta de água sempre apareceu nas discussões como um possível limitador para novos empreendimentos produtivos. A conclusão do Projeto Rio Tanque tende a alterar de forma significativa esse cenário.
O aumento da segurança hídrica pode criar condições mais favoráveis para a implantação de novos investimentos e atividades econômicas que dependem de fornecimento regular de água.
Água por si só não resolve o desafio da diversificação econômica. Mas remove um obstáculo que frequentemente aparecia nas discussões sobre novos investimentos na cidade.
Por que investir em Itabira hoje?
Outra pergunta feita no debate foi bastante direta: por que um empreendedor escolheria investir em Itabira hoje?
A resposta não depende de um único fator.
A conclusão do Projeto Rio Tanque tende a reduzir um obstáculo histórico ao crescimento econômico da cidade: a insegurança hídrica. Isso, por si só, já melhora o ambiente para novos empreendimentos.
Mas a atração de investimentos depende também de outros elementos: infraestrutura adequada, ambiente institucional favorável, capital humano qualificado, estabilidade nas relações entre o poder público e a iniciativa privada e capacidade de planejamento urbano e econômico.
Itabira possui ativos importantes. A cidade consolidou-se como centro regional de comércio e serviços, tornou-se referência em saúde para municípios vizinhos e passou a contar com instituições de ensino superior que ampliam sua base de conhecimento e formação profissional, como a Unifei, Funcesi e a UNA.
Além disso, a própria história da mineração deixou no município uma base técnica e profissional relevante, que pode ser aproveitada em novas atividades econômicas.
O desafio está em transformar esses ativos em oportunidades concretas, criando condições para que empreendedores locais e investidores de fora encontrem em Itabira um ambiente confiável, funcional e atrativo para produzir, inovar e gerar empregos.
Uma iniciativa recente
Nos últimos anos surgiu também uma iniciativa importante: o programa Itabira Sustentável, uma parceria da prefeitura com a Vale que busca ampliar o envolvimento da sociedade na construção de novas alternativas econômicas para o município.
O tempo que ainda temos
Estudos técnicos indicam que as principais reservas minerais da região podem ter um horizonte de exaustão por volta de 2041.
Quinze anos podem parecer muito tempo. Mas, quando se trata de transformação econômica, planejamento urbano e formação de novas bases produtivas, esse prazo passa rapidamente.
Uma das propostas mencionadas no debate foi a criação de um fundo soberano municipal, alimentado com parte dos recursos da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem).
A ideia é transformar parte da riqueza mineral — que é finita — em poupança pública capaz de financiar investimentos estruturantes e projetos de longo prazo para a cidade.
Experiências semelhantes existem em outras regiões do mundo e buscam exatamente isso: transformar renda mineral em legado duradouro.
Um debate que precisa continuar
Uma percepção interessante que emergiu no encontro foi a visão da própria plateia sobre o papel da Vale no futuro da cidade.
A empresa não apareceu no debate como antagonista, mas como possível parceira em iniciativas que ajudem a preparar a transição econômica do município.
Esse entendimento revela uma postura pragmática: a construção do futuro de cidades mineradoras raramente é tarefa de um único ator. Ela depende de cooperação entre empresas, poder público, universidades e sociedade civil.
Itabira já começou a fazer essa reflexão.
O minério construiu grande parte da história da cidade.
O desafio agora é transformar a riqueza que ainda existe no subsolo em oportunidades duradouras na superfície. O futuro de Itabira será construído muito além do minério.
*Denes Martins da Costa Lott é advogado especializado em Direito Ambiental e Direito Minerário. Mestre em Sustentabilidade Socioeconômica e Ambiental. Trabalhou na Vale e foi secretário municipal de Meio Ambiente de Itabira. Atualmente é secretário da Comissão de Direito Ambiental e Direito Minerário da OAB Itabira.









