Itabira conquista certificação estadual de acervos culturais, mas desafios de preservação continuam
Em destaque, a Biblioteca Luiz Camillo de Oliveira Netto
Foto: Aguinaldo Ferry/ Ascom/FCCDA
Declaração de Acervos Culturais reconhece avanços na organização técnica, enquanto projetos de revitalização do centro histórico e do arquivo municipal seguem sem execução
Itabira recebeu a Declaração de Acervos Culturais (DAC), instrumento do Programa ICMS Patrimônio Cultural.
O reconhecimento atesta que o município cumpre critérios técnicos de organização, preservação e acesso público em três equipamentos fundamentais: o Arquivo Público Municipal, a Biblioteca Luiz Camillo de Oliveira Netto e o Museu de Itabira.
A avaliação reconheceu o funcionamento integrado desses três espaços, que formam um sistema estruturado de preservação da memória itabirana.
O arquivo guarda documentos oficiais e a memória administrativa da cidade.
A biblioteca reúne coleções bibliográficas e materiais ligados à literatura e à memória local.
Já o museu preserva objetos e peças históricas que narram parte da trajetória social, cultural e econômica do município.
Nesse reconhecimento, chama atenção a ausência do Memorial Carlos Drummond de Andrade, espaço simbólico e de grande relevância para a identidade cultural de Itabira.
Afinal, trata-se de um dos patrimônios mais importantes da cidade, diretamente ligado à sua projeção nacional e internacional pela figura de seu filho mais ilustre.
Critérios técnicos analisados
Para obter a certificação, o município precisou atender simultaneamente às exigências mínimas da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo:
- Organização técnica dos acervos conforme normas estaduais;
- Adoção de medidas adequadas de preservação e conservação;
- Garantia de acesso público;
- Promoção de atividades culturais e educativas.
O cumprimento desses critérios nos três equipamentos foi determinante para o reconhecimento.
Destaque entre municípios mineiros
Segundo a superintendente da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, Vanessa Faria, a certificação estadual não deve ser vista apenas como um selo burocrático, mas como um marco que reforça a importância da política pública de preservação da memória.
“Cuidar da memória é uma política pública estratégica, capaz de preservar identidades, fortalecer o sentimento de pertencimento e projetar o futuro a partir da valorização da nossa própria história.”
O resultado obtido por Itabira ganha ainda mais relevância diante do cenário estadual: dos 251 municípios mineiros que apresentaram a DAC, apenas 13 alcançaram a pontuação máxima concedida pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo.
Estar nesse grupo restrito coloca Itabira em posição de destaque, mas também impõe responsabilidades adicionais.
Reconhecimento deve servir de incentivo para mais melhorias
A conquista evidencia que o município tem avançado na organização técnica de seus acervos, mas ao mesmo tempo expõe a necessidade de transformar projetos de revitalização e restauração em ações concretas.
Entre eles estão a revitalização do centro histórico, a restauração do casarão do antigo Hospital Nossa Senhora das Dores e a reorganização do Arquivo Público Municipal, cuja transferência para o prédio do antigo Correios já foi anunciada, mas ainda não realizada.
Essas revitalizações e ressignificações foram prometidas pelo prefeito Marco Antônio Lage (PSB) desde seu primeiro mandato e permanecem como pendências a serem enfrentadas.
Como escreveu Drummond, “a vida passa devagar em Itabira do Mato Dentro”, e a execução desses projetos não pode seguir o mesmo ritmo lento de sempre.
Responsabilidades
O ICMS Patrimônio Cultural existe justamente para incentivar municípios a manterem políticas permanentes de preservação.
A certificação recebida por Itabira reforça a relevância do trabalho já realizado, mas também evidencia a necessidade de avançar na execução dos projetos há muito anunciados.
Em outras palavras, Itabira conquista reconhecimento técnico importante, mas a preservação plena da memória só terá sentido se os planos de revitalização forem realizados, com os espaços culturais forem devidamente valorizados.
A cobrança por urgentes revitalizações cresce, como no caso do centro histórico, o que inclui o Museu de Território Caminhos Drummondianos, que precisa ser ressignificado e fortalecido.
Que os projetos prometidos saiam enfim do papel. Só assim Itabira poderá exorcizar a derrota incomparável, já pressentida por Tutu Caramujo, com o fim de sua maior riqueza econômica: o minério de ferro.
Investir na cultura é um caminho promissor, mas não pode ser o único. Outras urgências seguem atrasadas, aguardando por promessas até aqui também não realizadas.









