I. – há 100 anos
Arte: Jayme Guerra
|Pseudonimo que assina uma extensa série de crônicas no Diário de Minas, a partir de abril de 1927. As crônicas eram diárias e a primeira saiu subscrita, por engano, pela letra L. Consultado a respeito da autoria desses trabalhos, Drummond assegurou-nos que iniciara a série, sendo os primeiros escritos de sua autoria exclusiva. Mais tarde, não recorda exatamente quando, alternou com João Alphonsus a redação das mesmas; a partir, talvez do terceiro ou quarto mês, João Alphonsus assumiu sozinho a autoria delas. Em virtude dessas declarações, levamos em conta, como de autoria de Drummond, apenas as crônicas estampadas no mês de abril. “O milhor dentifrício do mundo” é uma reprodução, pois a publicação original ocorreu em Terra roxa e outras terras SP, em 3-3-1926. A partir daí, há um largo intervalo preenchido por diversas crônicas, dia a dia, sem que se possa, validamente, atribuí-las a CDA. Somente a 7 de dezembro surge uma crônica reconhecidamente de autoria de CDA: “Porque amamos os nossos filhos”. É possível que, a essa época, CDA tenha escrito um ou outro artigo em vez de João Alphonsus, o que não será fácil verificar ou provar, visto que o estilo e o tom de ambos permanecem idênticos. Por outro lado, a identidade de I é atribuida ora a um, ora a outro. Fritz Teixeira de Sales, por exemplo, em Das razões do modernismo (Brasilia, 1974), cita e transcreve duas crônicas de I a respeito do aparecimento da revista Leite Criolo (1929), dizendo que são “ambas atribuidas a Drummond” (p.114). Já Fernando Correia Dias, em O movimento modetnista em Minas (Brasília, 1971), falando sobre a revista Verde, órgão modernista de Cataguases, diz: “O Diário de Minas registra o aparecimento da revista a 5 de nov. 1927. O cronista I, provavelmente João Alphonsus, já o havia feito, ‘com agradável surpresa’ em 5 de outubro de 192. Como se vê, I é de identidade controversa , e em nosso trabalho limitamo-nos a registrar as crônicas que, com certeza, pertecem a CDA. Essas de 1929, citadas por Sales, podem perfeitamente ser de João Alphonsus, visto que o autor de Rola Moça tomou atitude semelhante à de CDA com relação a Leite Criolo e à “segunda dentição” da Revista de Antropofagia. Reproduzida no D. de Minas, 30-4-1927 com o título “O MELHOR DENTIFRÍCIO DO MUNDO”. Note-se, na publicação original, a grafia milhor, o que pode denunciar influência de Mário de Andrade, o único, ao que sabemos, a empregá-la com frequencia. Fernando Py|
O milhor dentifrício do mundo
I.
Nas minhas explorações pelas ruas da cidade descobri, ou talvez ele é que me descobriu, um camelô espanhol absolutamente gordo e tocante, de fraque violáceo e pronuncia rigorosamente má do português. Gostei desse homem. Porque era camelô espanhol gordo enfraquecido e nacionalista. Me lembro que em vez de fósforo dizia fôforo. Então por sinal compreendi a ociosidade e mesmo a inconveniência da boa prosódia. Um fôforo é muito mais pitoresco do que um fósforo; igualmente compreensível; e atrai mais a atenção. Si os senhores não acham, não faz mal, por isso ninguém deixa de acender o cigarro.
A coisa mais grave que esse homem fazia, ou milhor: esse camelô (porque um camelô me parece muito mais rico e original) era introduzir na boca um legitimo incontestável ovo de galinha para depois retirar pelo… pelo… pelos canais competentes um pintinho amarelo bonito e piando. Truque vulgar, dirão os técnicos do iluminismo. Eu só digo que me impressionou muito pela unção e religiosidade com que foi praticado à vista de nós todos, povo amante dos bons truques, em cima dum forde de capota descida, numa rua central entre bondes mulheres automóveis.
Havia no seu gesto simples de manter o ovo na boca e tirar o pintinho lá em baixo um mundo de sugestões que para não cansar o leitor deixo de enumerar. MAS ERA O GESTO DA CRIAÇÃO. E uma voz me disse cá dentro: Este camelô é poeta trabalhando a matéria bruta da sensação (ovo) e produzindo o poema (pinto). O material poético se fez poesia. Criação. Obra de arte. Diante duma chusma de pacóvios um cidadão gordo realizou o grande milagre da arte!
Divino isso. E o camelô sorria triunfante iluminado diretamente pelo sol. Ave Cesar! (Velha mania de erudição). Mas logo pegou no pinto, engoliu o coitado, toda gente sentiu que a barriga dele se dilatava com aquele volume, e tirou da outra extremidade… um ovo. Riso, palmas pilherias e o camelô começou a apregoar o milhor dentifrício do mundo.
Aí refleti que o homem revertera o belo poema acabado à forma primária de sensação. O pinto voltou a ser ovo. A primeira operação, construtiva sintética artística. A segunda, dissociadora analítica intelectual: crítica. Aquele bendito camelô me deu as imagens sucessivas do poeta e do crítico. Comprei o milhor dentifrício do mundo. Não é o melhor não. Parece areia moída. Mas recomendo aos senhores aquele camelô integral (Belo Horizonte).
[Fonte: D. de Minas, 30-4-1927 – Pesquisa: Cristina Silveira]









