Há 94 anos, mulheres conquistam o voto, mas seguem minoria na política brasileira
Reportagem de jornal mostra que o sufrágio feminino dividia as opiniões no Senado em 1924
Imagem: Gazeta de Notícias/ Biblioteca Nacional Digital/ Senado Federal
Representatividade feminina avança lentamente e ainda enfrenta barreiras estruturais no cenário político nacional
Ana Cristina Ribeiro Fraga*
Nesta terça-feira (24), o Brasil celebra os 94 anos da conquista do voto feminino, um passo decisivo para a democracia. No entanto, quase um século depois, as mulheres continuam sub-representadas nos espaços de poder.
Apenas 18,4% das cadeiras da Câmara dos Deputados são ocupadas por mulheres, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Enquanto o Brasil patina em índices baixos, países vizinhos avançam. Na Argentina, a presença feminina no Legislativo nacional chega a 39%; no México, alcança 49%, conforme levantamento da ONU Mulheres.
Esses números evidenciam que a desigualdade política brasileira não é inevitável, mas resultado de barreiras estruturais e culturais que ainda limitam a participação das mulheres.
Impactos das mulheres na política
A baixa representatividade não significa ausência de impacto quando mulheres chegam ao poder. Exemplos mostram como sua atuação pode transformar realidades.
No Brasil, a aprovação da Lei Maria da Penha, considerada uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à violência doméstica, contou com forte articulação de parlamentares e movimentos femininos.
No Chile, Michelle Bachelet, primeira mulher presidente do país, implementou políticas de proteção social e ampliou o acesso à educação infantil.
No México, a atuação de mulheres no Congresso foi decisiva para a criação de leis de igualdade salarial e combate ao feminicídio.
Já em Ruanda, onde cerca de 64% das cadeiras parlamentares são ocupadas por mulheres, o maior percentual do mundo, o país tornou-se referência global em políticas públicas voltadas para saúde, educação e igualdade de gênero.
Essa representatividade tem contribuído para avanços significativos em áreas como cobertura universal de saúde, programas de nutrição infantil e acesso à educação básica, especialmente para meninas
Barreiras persistentes
A sub-representação feminina no Brasil não é apenas numérica, mas simbólica.
A ausência de mulheres em cargos eletivos limita a diversidade de perspectivas na formulação de políticas públicas e perpetua um modelo de poder predominantemente masculino.
Embora a lei de cotas obrigue partidos a destinar ao menos 30% das candidaturas às mulheres, o desafio permanece em transformar presença formal em participação efetiva.
Especialistas apontam medidas que poderiam impulsionar a representatividade feminina na política brasileira.
Entre elas estão o fortalecimento das cotas de gênero, garantindo não apenas candidaturas, mas também recursos financeiros e tempo de propaganda proporcionais.
Outra medida é a implementação de listas eleitorais alternadas entre homens e mulheres, como já ocorre em países da América Latina, como também o incentivo à formação política de mulheres, ampliando sua participação em espaços de decisão dentro dos partidos.
Além disso, campanhas de conscientização e políticas de combate à violência política de gênero são vistas como fundamentais para assegurar que mais mulheres possam disputar e exercer mandatos sem sofrer intimidações ou ataques.
É nesse contexto que o aniversário do voto feminino deve ser lembrado, mas também deve servir de reflexão mais profunda.
O desafio é garantir que a política brasileira seja mais inclusiva e representativa da maioria da população, transformando conquistas históricas em avanços reais para a democracia.
*Ana Cristina Ribeiro Fraga é escritora bissexta, jornalista e educadora social, atenta às mudanças políticas e comportamentais.








