Geólogo e professor aposentado da USP envia carta-aberta a Fernando Haddad antes de deixar o Ministério da Fazenda

 Em destaque, garimpo de ouro na grota do Minervino, em Itabira (MG), início da década de 1980

Foto: Eduardo Cruz

Assunto público: Reflexões sobre o Ouro Verde e um projeto estratégico para o Brasil

Por Everaldo Gonçalves*

Prezado amigo Fernando Haddad,

Espero que esta o encontre bem. Em carta pública, a comunicação é mais eficiente. Em anexo, envio um oportuno e instigante artigo dos analistas do gestor de fundo de ouro VanEck, de janeiro de 2026, sobre o retorno, na prática, ao debate do padrão ouro. Como eles argumentam, o ouro segue sendo o grande refúgio das aplicações financeiras em tempos de crise e conflitos, como os que o mundo atravessa.

Aproveito para cumprimentá-lo pelo lançamento de seu livro “Capitalismo Superindustrial”. A leitura dos quatro capítulos sobre acumulação primitiva foi especialmente estimulante.

Permita-me, contudo, um breve comentário de geólogo: a obra não aborda uma forma particularmente interessante e persistente de acumulação primitiva, o fetiche do ouro. Esse metal nobre, estável, com máxima concentração de trabalho por unidade de peso, historicamente se impôs como moeda internacional.

De minha parte, o senhor sabe, tenho igualmente dedicado meu tempo a estudar a obra inconclusa de Karl Marx, especialmente sua crítica ao capitalismo a partir da “Acumulação Primitiva”. Lembro que essa acumulação original se deu não só pelas terras expropriadas, inclusive da Igreja, e pelo comércio de mão de obra escrava, mas também pelo domínio do ouro e da prata. Esses metais, saqueados da América Espanhola, garantiram o mercantilismo.

Já da América Portuguesa, duzentos anos depois, o “ouro preto” das Minas Gerais foi fundamental. Pelos termos do Tratado de Methuen, o “Pano e Vinho”, o Brasil foi usurpado em mais de mil e quinhentas toneladas de ouro.

Enquanto a Coroa Portuguesa trocava o metal por tecidos finos ingleses, impedia-se a instalação de qualquer indústria na Colônia, e a Inglaterra cunhava a moeda, a libra esterlina, que financiaria a Primeira Revolução Industrial.

O ouro é, nesse sentido, o capital em sua forma mais primária: dinheiro pronto, extraído da Natureza. É a máxima concentração de trabalho vivo e morto, cujo valor se incorpora à matéria e ganha vida pelo fetiche, mudando de mãos ou servindo de lastro para o “papel pintado” das moedas.

Notável em Marx que ele tirou a alma mortal do Homem e com ela deu vida à mercadoria, que nas vitrines nos olha sedutora, chamando-nos para comprar!

Do ponto de vista geológico, o ouro é fascinante: metal estável, o mais pesado, com 19,3 gramas por centímetro cúbico, imune à corrosão e a ácidos fortes, exceto água régia. Raro, veio das profundezas da Terra por caprichos de Plutão, instalando-se em veios de quartzo ou, desgastado, concentrando-se nos solos residuais e rios, onde a bateia do garimpeiro o revela.

Sua concentração média na crosta é ínfima, porém é econômico em jazidas com teor médio de cerca de 0,4 gramas por tonelada de rocha. E, no entanto, seu preço atual gira em torno de US$ 5.000 a onça troy, o equivalente a 31,1 gramas, quase duzentas vezes o valor fixado no acordo de Bretton Woods, de US$ 35 a onça, que vigorou de 1944 até 1971.

Quando os EUA romperam o lastro, o dólar tornou-se papel flutuante, e o ouro, como vemos, voltou mais forte como reserva de valor.

Mas aqui reside a questão central que move esta carta: faz sentido todo esse esforço?

Ora, o ouro é Tesouro. Não é preciso escavar a crosta, revolver os rios, expor as vísceras do planeta. Tampouco é necessário inverter a paisagem, transformar o côncavo em convexo com cavas e pilhas de estéril, acumular rejeitos perigosos em barragens.

Tudo isso para extrair um minério pobre, gastar energia com britagem, moagem, beneficiamento com mercúrio ou cianeto, para ao final obter barras de pureza 99,9999%?

E então gastar mais com armazenamento, vigilância e seguro, apenas para que esse metal, que impuro irrita e fere a pele humana, sirva, em grande parte, como mero lastro ou entesouramento financeiro?

Karl Marx, crítico da religião que aliena, via no ouro uma alegoria poderosa. Em uma verdadeira raridade bibliográfica que localizei em minhas pesquisas, o texto “A Confusão” (The Confusion), publicado por ele próprio no The Economist de 30 de maio de 1857, período em que colaborava como articulista para ajudar nas despesas da casa, Marx ironiza os economistas e banqueiros que instituíram o padrão-ouro na Inglaterra em 1844.

Ali, ele se apropria da linguagem da imprensa econômica para construir sua crítica. Eis a essência de “A Confusão”:

“O princípio da moeda, tão discutido ultimamente, ainda não é compreendido nem mesmo por aqueles que professam entendê-lo. A confusão existente sobre este assunto é tão grande que somos obrigados a voltar a ele. O sistema monetário, com sua base metálica, é essencialmente católico; o sistema de crédito é essencialmente protestante. É a fé que salva. A fé no valor do dinheiro como espírito imanente das mercadorias, a fé no modo de produção e sua ordem predestinada, a fé nos agentes individuais da produção como meras personagens do capital que se valoriza a si mesmo.”

Uma fé no valor do dinheiro como espírito imanente das mercadorias.

Hoje, essa fé se estende a um novo dogma: a moeda virtual. O Bitcoin e suas inúmeras cópias, sem garantia alguma além de um limite matemático, criam um ciclo fechado de compra e venda, ideal para a especulação, a sonegação e o crime organizado.

Ao contrário dessas ficções, o ouro tem uma quantidade finita na Terra, legado da consolidação original do planeta e sua constante transformação. O Brasil, que já entregou 1.500 toneladas desse metal nobre à Coroa da Inglaterra, o ouro que financiou a Revolução Industrial, hoje produz cerca de cem toneladas anuais, de um total mundial de mil.

Estima-se que um terço dessa produção mundial, incluindo a reciclada, destina-se ao mercado financeiro, ficando imobilizada em cofres, como nas cavernas artificiais dos Alpes suíços. Absurdo: o ouro volta para a Terra!

Diante de todo esse paradoxo, pergunto: faz sentido remover montanhas, escavar túneis profundos, contaminar rios com mercúrio, construir barragens de rejeito, para depois simplesmente entesourar um terço de tudo o que se extrai?

Apresento a V. Exa. uma alternativa a essa lógica: o projeto “Ouro Verde”.

O projeto “Ouro Verde” é uma inovação geológica e financeira que propõe a criação de uma nova modalidade de ativo, lastreado em jazidas de ouro devidamente certificadas, porém mantidas intocadas em seu estado natural. Funciona da seguinte forma:

  1. Certificação Geológica Robusta: Uma jazida com teor econômico é extensivamente estudada e certificada por geólogos qualificados, atestando seu volume, teor e valor intrínseco. É o caso de Serra Pelada, cujos 400 furos de sondagem (200 da Vale) apontam teores de até 600 gramas por tonelada, indicando um potencial remanescente de, no mínimo, cem toneladas de ouro, além das cem já extraídas.
  2. Criação do Ativo “Ouro Verde”: Em vez de extrair o minério, a jazida certificada é transformada em um ativo financeiro digital (token ou certificado). Cada token representa uma fração do ouro ali contido, que permanece guardado no “cofre da Natureza”. Como a jazida de Serra Pelada é um bem da União, por ser área garimpável, ela não pode ser penhorada – o que a torna o ativo perfeito para compor o patrimônio público sem risco de alienação.
  3. Valor Agregado: O preço do “Ouro Verde” reflete o valor do ouro in situ, subtraindo-se todos os custos e danos da extração, beneficiamento, transporte e guarda física. Isso o torna potencialmente mais competitivo e, inegavelmente, mais ético e sustentável.
  4. Transparência e Rastreabilidade: Utilizando tecnologia blockchain, as transações seriam transparentes, rastreáveis e imunes à atuação de organizações criminosas que hoje se beneficiam da opacidade do setor.

Um exemplo concreto e imediato é o depósito de Serra Pelada. Sua concessão, apenas cem hectares com a maior concentração de ouro da crosta terrestre – outorgada pela União, está hoje em situação totalmente irregular, inclusive com penhora averbada junto à ANM em fevereiro de 2026, conforme documentação anexa. Ainda assim, a jazida guarda um potencial extraordinário.

Vale lembrar que o requerimento original da poligonal de pesquisa de Serra Pelada, processo ANM 850.425/1990, em nome e CNPJ da COMGASP, mas por força do interventor naquele garimpo de triste memória, o Major Sebastião Curió, a área passou, incrivelmente validada pelo antigo DNPM e pela Junta Comercial do Estado do Pará, com aquele mesmo CNPJ para a COOMIGASP, que fez uma parceria espúria com a empresa canadense Colossus.

Os investimentos de mais de trezentos milhões de dólares para desenvolver racionalmente a mina subterrânea deram em nada, pois a incompetência não acertou nem o equipamento: montou-se o tratamento mineral para operar com rocha dura, com britagem e correia transportadora, mas o minério era pastoso, oriundo de rocha muito alterada, e a lama não suportava a lavra por meio da galeria projetada, nem subia pela rampa íngreme para levar o minério. Por isso, perdeu-se a mina!

Em célebre depoimento na Câmara dos Deputados, antes da entrada da Colossus no negócio, o geólogo Fúcio Murakami, que trabalhou para a COMGASP e conheceu Serra Pelada em seus tempos áureos, disse sobre o que viu:

“Em análise, os teores variam de 291,20 até 20.140,00 gramas por tonelada. Também encontramos platina, irídio e ósmio. Inclusive a Cougar Gold, empresa de Vancouver, no Canadá, já detectou a platina em aluvião em 1982. O importante é que a pesquisa seja independente. É preciso ter cautela, porque é uma área com alto teor, mas também com alta complexidade geológica. Os garimpeiros precisam ser ouvidos e respeitados.”

“A reserva medida e indicada da COOMIGASP, aprovada pelo DNPM, é de 33 toneladas de ouro, 6,8 toneladas de platina e 10,6 toneladas de paládio. Mas há potencial para muito mais, se houver pesquisa adequada e independente.”

Ou seja, Murakami já advertia: a riqueza é real, mas exige respeito à complexidade geológica e, sobretudo, às pessoas. E mais: os números oficiais do DNPM, ainda que referentes à COOMIGASP, já comprovavam em 2012 a existência de reservas significativas, 33 toneladas de ouro, além de platina e paládio. Mas o potencial real é muito maior, desde que a pesquisa seja feita de forma independente e competente, como ele próprio alertou.

 A natureza jamais foi consultada. O erro de planejamento, montar estrutura para rocha dura onde o minério é pastoso, soterrou não apenas o minério, mas a esperança de milhares de famílias. É contra esse tipo de equívoco, que repete o ciclo do saque e do desperdício, que se insurge o “Projeto Ouro Verde”.

Enquanto isso, o Brasil mantém trezentos bilhões de reservas em dólares e a maior reserva de ouro do mundo é a dos Estados Unidos, com oito mil e cem toneladas, seguida da Alemanha com três mil e quinhentas e a Itália com duas mil e quinhentas. Uma vergonha para o Brasil, que possui um dos maiores potenciais auríferos do mundo!

Os dados em meu poder sobre Serra Pelada são otimistas: provenientes de 400 furos de sondagem, 200 executados pela Vale, dos quais 25 com descrições detalhadas, apontam teores de até 600 gramas de ouro por tonelada, sem efeito pepita.

Avanços e Propostas Concretas para um Novo Paradigma Mineral Diante do exposto, submeto à sua consideração os seguintes avanços e propostas:

Avanço conceitual: a “Jazida Antropogênica”

Como defini na literatura geológica, as pilhas de estéril e rejeito da mineração não são meros passivos ambientais, mas verdadeiras jazidas antropogênicas, que podem e devem ser geridas como ativos.

Este conceito inverte a lógica do descarte e aponta para a economia circular na mineração. O “Projeto Ouro Verde” leva essa ideia ao extremo: a jazida primária, se destinada ao entesouramento, também pode ser tratada como um ativo financeiro in situ, evitando a criação do passivo.

Avanço estratégico: o caso Serra Pelada

Proponho que a União, por meio de seus órgãos técnicos (CPRM, ANM e Tesouro Nacional), promova uma auditoria e certificação internacional das reservas remanescentes de Serra Pelada.

Uma vez certificadas, essas reservas (estimadas em mais de cem toneladas de ouro, além de platina e paládio) seriam incorporadas ao patrimônio do Tesouro Nacional como lastro para a emissão dos títulos “Ouro Verde”.

Por ser uma área garimpável, portanto bem da União, a jazida é inalienável e impenhorável, conferindo segurança jurídica máxima ao lastro.

Avanço social e de memória: o Museu do Ouro de Serra Pelada

Paralelamente, proponho a criação do segundo Museu do Ouro do Brasil

exatamente no sítio de Serra Pelada.

Um espaço de memória, pesquisa e educação que conte a história do ciclo do ouro no país, do saque colonial à exploração predatória, do garimpo à mineração industrial, homenageando os cem mil garimpeiros que ali trabalharam e ficaram sem amparo.

Seria um polo de turismo histórico e científico, transformando um local de sofrimento e degradação em um farol de conhecimento e reparação simbólica.

Avanço na Política de Estado: um novo marco para o Ouro Financeiro

O projeto “Ouro Verde” oferece um arcabouço pronto para ser debatido e transformado em um novo marco regulatório. Ele pode:

. Atrair investimentos globais (fundos ESG, soberanos, etc.) interessados em ativos lastreados em ouro com impacto ambiental zero.

. Gerar receitas para a União através da taxa de certificação das jazidas e da tributação das transações com os tokens.

. Combater a ilegalidade, ao criar um rastro digital desde a jazida, inviabilizando o ouro de garimpos ilegais e a lavagem de dinheiro do crime organizado.

. Projetar o Brasil como líder mundial em finanças verdes, mostrando que é possível conciliar preservação ambiental (inclusive da Amazônia) com geração de riqueza e sofisticação financeira. É a “financeirização da preservação”.

Conclusão

Ministro Fernando Haddad,

O Brasil tem a chance de dar um salto quântico na forma como se relaciona com sua riqueza mineral. Não se trata de parar de minerar – o ouro para a indústria, eletrônicos, joias e odontologia continuará sendo extraído onde necessário.

Trata-se de separar o ouro industrial do ouro financeiro. Para este último, a extração é um desperdício de energia, um atentado ao meio ambiente e uma fonte de custos desnecessários.

O projeto “Ouro Verde”, ancorado no exemplo concreto de Serra Pelada, oferece um caminho viável, inovador e soberano.

Conto com sua visão de estadista e com seu interesse pelas fronteiras do capitalismo contemporâneo – que o senhor tão bem analisou em seu livro – para levar esta proposta adiante.

Seguem os anexos com o artigo da VanEck, o depoimento de Fúcio Murakami e a reportagem sobre a penhora.

Um grande abraço, com admiração.

São Paulo, 13 de março de 2026.

*Everaldo Gonçalves é professor, geólogo e jornalista. Ex-professor da USP (Universidade de São Paulo) e da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Foi diretor da Eletropaulo e presidente da CPFL (Cia. Paulista de Força e Luz)

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