Em 1930, as aranhas da Cidadezinha eram imensas…

Itabira do Mato Dentro, antes da derrota incomparável, em 1912

Foto: Reprodução/
Revista da Semana/
BN-Rio

Itabira, terra pobre de hoje, milionária de amanhã

Por Bica de Almeida

Desde os tempos de estudante de direito, no Rio, ouvia falar na questão da Itabira Iron. De começo, não muito interessado, afinal, um dia, quis saber do que se tratava.

Um amigo, que era estudante de engenharia e, assim, por mera curiosidade, talvez, conhecedor de seus detalhes, explicou-me, numa mesa de café, as razões de acaloradas discussões.

Não prestei muita atenção ao caso industrial, aliás, claramente exposto por ele, mas a certa altura, a narrativa me interessou, porque se tratava do gigantesco panorama do Vale do Rio Doce, sua imensa riqueza e as possibilidades inesgotáveis de suas jazidas.

Falou-me, depois, em tom de lenda, na cidade de Itabira do Mato Dentro, que conhecia por ser trânsito obrigatório para o lugar onde nascera e onde passava férias escolares.

Isso foi pelo ano de 1910.

Formados os dois, nos separamos. Cada qual para o seu Estado, a tentar a vida. De Ruiz Ferreira, natural das vizinhanças de Antonio Dias, nunca mais tive notícia. Se vivo ou morto, ignoro.

Por vezes, no Sul, pensava, ao ler telegramas sobre a questão do ferro, na viva descrição que ouvira do velho amigo desaparecido, e, na lembrança me acudia a cidade de Itabira, para muito além de Santa Bárbara.

Em 1914, após curto estágio numa comarca atrapalhada e cheia de triscas políticas, resolvi em definitivo vir para o Rio. Pensei num programa de vida diferente do que geralmente adotam os jovens bacharéis formados.

Para mim, enriquecer em trinta anos de advocacia, metido no mato, e depois de velho vir para o Rio, gastar a fortuna com a cura do fígado, estomago, bexiga ou sangue, não era um grande negócio. Fiz o contrário: passei a boa mocidade aqui, e talvez sofra uma velhice imprestável, no interior. Não sei se acertei, mas estou satisfeito!

Passados eram vinte anos, quando se me ofereceu a oportunidade de ir a Itabira. Foi em dezembro de 1930. Aceitei o convite.

O meu amigo, José Bonifácio de Andrada e Silva, deu-me a primeira informação, afirmando que havia estrada de ferro até lá. Talvez confundisse Itabira do Campo [Itabirito] com ITABIRA DO MATO DENTRO. Mesmo assim, prestou-me um serviço, pois conhecendo as dificuldades talvez não me atrevesse.

Abalei, de noturno até Belo Horizonte. Foram dezesseis horas de viagem, com mais duas de atraso. No outro dia, tomei, pela manhã, o ramal de Santa Bárbara, primeira etapa do caminho. Bitola estrita, muitas voltas e trem vagaroso.

Mas que gloriosa natureza!

Era uma manhã clara, ligeiramente fria, que me dispunha os nervos e me atilava as ideias. Nunca usei óculos. A minha vista alcançava distâncias enormes, pelas serras longínquas, e divisava com facilidade e clareza, os detalhes de regiões distantes, extasiando-se nos recortes quase sempre originais, das serranias acinzentadas pela bruma da manhã.

Embevecido, não prestava a menor atenção ao atrito dos metais enferrujados dos velhos vagões, que há muito serviam o ramal, nem na cômoda e vagarosa marcha do comboio. Parecia que a máquina, preguiçosa ou talvez também extasiada, propositadamente demorasse o percurso.

Estávamos em pleno Vale do Rio Doce. O leito da estrada corre pela meia encosta da descomunal serra, exibindo ao viajante a beleza se igual, de uma região riquíssima, que assenta majestosamente num leito de aço, na magnitude esplendida da mais bela visão que imaginar se possa.

Ao longe, muito distante, se destaca um ponto branco, no verde escuro da serra, como um pingo de cal, localizando o histórico Caraça, onde gerações sobre gerações de moços haviam recebido a base sólida de um ensino rigoroso.

Um pouco da vida do Brasil está ligado àquela casa. Quantos homens públicos, grandes magistrados e escritores de raça deixaram ali o traço inesquecível de uma trajetória gloriosa. Poderíamos recordar mineiros e filhos de outros Estados, mais tarde personagens de destaque ao cenário nacional.

Era o austero Colégio Caraça. A explicação está no próprio nome. Os recortes dos morros formam uma cara enorme, de descomunal tamanho, e daí – A Serra do Caraça.

Mais alguns quilômetros e estamos em Santa Bárbara. Cidade velhíssima, de casas e solares de antigos tempos, é o berço da família Pena, donde um dos mais ilustres, o conselheiro Afonso Pena, foi o varão que ainda conhecemos, patriota de boníssimo coração e cidadão de uma integridade absoluta.

Tão sensível fora o seu caráter e tão honestas as suas diretrizes políticas, que não pode sobreviver a uma manobra desleal, que lhe sacrificaria os amigos. E isso aconteceu, após a sua morte.

No trajeto, vi Caetés, cidade natal de João Pinheiro, o grande presidente mineiro e que ali se acha sepultado. Dedicado ao bem do povo, pela sua simplicidade e coragem lembrou a figura máscula do Cincinato romano.

A viagem de Santa Bárbara para Itabira, em automóvel, foi penosíssima. Tempo de chuvas. As estradas, eivadas de atoleiros, dificultavam o percurso. Parti ao meio dia e só no dia seguinte, às duas da tarde, alcancei a Cidade do Ferro, com sacrifícios ingentes e tropeços quase insuperáveis.

Soube recentemente que os sessenta quilômetros, que separam as duas cidades, ainda agora apresentam as mesmas dificuldades de trânsito.

A povoação se alonga pelo vale que circunda uma colina, e pela própria colina. Ruas sinuosas, bem poucas com calçamento. As casas, de antigo estilo, e na maioria velhíssimas, apresentam o aspecto de quem se abandonou ao tempo, sem esperanças da menor promessa de ressurreição.

Há, entretanto, naquilo tudo, qualquer coisa que impressiona. Ao fundo, está a imensa Serra de Itabira, adormecida como gigante formidável, que, estendido sobre a Terra e sepultado há séculos, na sua majestade, fosse fundido no próprio aço que lhe desenha os recortes.

Itabira do Mato Dentro, em 1912

Pequena cidade, com hercúlea gente. Alguns dos mais antigos prédios, batidos pelas intempéries e descurados na conservação, mostram com o desmoronar do reboco, o arcabouço interno, ainda resistente, armado de ferro forte, e desafiando, ainda, o dobro das idades já transpostas.

Aranhas imensas, habitando fendas dos solares, passam durante o dia, em busca do sustento e à tarde, aos pulos, regressam aos lares, como os operários extenuados do trabalho.

A população, que na sua grande maioria é pobre, possui uma coragem inaudita e inexplicável, porque não abandona aquele rincão distante. Ama o pedaço de terra onde nasceu e vive, talvez, em constante êxtase, diante da Serra que lhe serve de fundo, na tela extensa, que vai de horizonte, perdendo-se de vista numa vastidão que não se mede nem se calcula.

Um pugilo de homens abnegados ensina, num estabelecimento, onde os alunos aprendem bem e nada pagam. Todos são pobres, e os professores verdadeiros apóstolos, emissários da Civilização, postos ao Bem da Humanidade.

Ali estavam João Gonçalves, Feliciano Pena, José de Grizolia e outros. Todos ensinavam com o mesmo entusiasmo, com o mesmo amor, num apostolado divino, para formar as culturas do futuro.

Um velho casarão não pagava aluguel e os poucos bancos eram conservados com especial cuidado. Vi a sua pobreza e admirei a coragem daquela gente. Tive, há poucos dias, a satisfação de rever Feliciano Pena, professor de latim.

A sua fisionomia calma e moça e os seus gestos ponderados, refletiam ainda a calma da cidade e a ponderação da sua gente. Falamos de Itabira. Apesar de jovem, alicerçou algumas gerações e deve trazer uma consciência tranquila, pelo bem que fez e pela bondade que espargiu.

À meia encosta da colina, num patamar, se ergue a Igreja Matriz, olhando para o Nascente.

Capa da Revista da Semana

Em baixo, no vale, a mais antiga, dos tempos coloniais, a Igreja do Rosário, trazendo nas grossas paredes a própria história da região e dos tempos primeiros do país. É bastante antiga a Igreja da Saúde.

O ponto mais alto da serra é o Pico do Caué, majestoso e de onde se avistam as regiões do Sul e Norte, do Este a Oeste. Numa altitude de 1.300 metros, o viajante estende a vista pelo dorso da Serra, perdendo-se num infinito azulado, extenso depósito de incalculável quantidade de ferro, onde todas as forjas do Universo poderiam trabalhar livremente.

Lá embaixo, a cidade, olhando orgulhosa para o Pico do Caué, pede-lhe, em orações constantes, que seja sempre o seu vigia, e que um dia, num grito estridente, anuncie: “Veem aí os operários do progresso, fazer desta cidade pobre o mais rico empório do ferro, para que seja o traço predominante de um Brasil Futuro, forte e generoso.

[Revista da Semana (RJ) 12/6/1943. Crônica recolhida da hemeroteca da Biblioteca Nacional-Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]

 

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