Como nasce um cinema de guerrilha: processo criativo do curta metragem “Num futuro…” (2021)

Fotos: Divulgação

Por Pink Leite D. Assis*

Ontem foi dois de fevereiro de dois mil e vinte e seis. Dia de saudar Yemanjá; Odoyá, mãe das águas. Em honra a ela, escrevo esta denúncia sobre um dos seus maiores algozes: a exploração das águas pelo capital privado.

Mais de dez anos do maior crime ambiental da história do país: o rompimento previsível de barragens em Mariana, que contaminou gravemente Watu (Rio Doce); mais de sete anos do maior crime humano/social da história do país: o rompimento previsível de barragens em Brumadinho, ocasionando a morte de centenas de pessoas e a miséria de milhares.

Num Futuro… é um curta-metragem de dois minutos, estreado no ano de 2021. Naquela época, já haviam mais de três anos de impunidade da empresa criminosa perante o crime de Brumadinho e seis anos do ocorrido em Mariana.

A indignação dos movimentos sociais, principalmente do MAB (Movimento de Atingidos por Barragem), foi o que me moveu a fazer o conteúdo do meu audiovisual transformar-se em parte desta luta política e econômica.

A sinopse deste filme é tão breve quanto sua duração: um menino do interior de Minas Gerais observa assustado um vulcão explodir no meio de um passeio de bicicleta.

Quando realizei este filme, o fiz já sabendo que esses crimes aconteceriam novamente. Prever isto não era algo tão difícil.

Mesmo sem estudar a fundo sobre o tema, apenas acompanhar as manifestações, atos e algumas poucas reuniões/sessões parlamentares era o suficiente para entender que as raízes deste problema não se resolveriam pelos meios legais.

Mas ocorre que um episódio específico que irei narrar abaixo foi o principal estopim para entrar na vanguarda da luta contra a mineração predatória.

Cartaz do documentário Num futuro…

Em vinte e um de fevereiro de dois mil e vinte e um havia dormido mal a noite toda. Àqueles que se conectam com os espíritos enquanto dormem sentem na qualidade do sono a empatia verdadeira. Quando se está no mundo dos sonhos, no mundo espiritual, é que se aproximam mais do lugar do outro.

Sem controle total de nossas almas e mentes, enquanto dormimos podemos experienciar as mais inimagináveis sensações. Naquele dia, era a sensação da insônia a ser experimentada.

Chovia uma água nunca mais vista, desde a última grande enchente na cidade de Santa Maria de Itabira, em Minas Gerais. Nos meados da década de uma barragem veio para “salvar” a cidade. A tal da represa Santana. Junto dela, nasceu o medo da inundação.

Repare bem: Minas Gerais não tem mar, mas eu nasci com medo herdado de tsunami. E olhe que não é algo tão irracional quanto o medo do escuro, ou o medo de interações sociais.

(Aliás, a maior onda de água já registrada não veio dos oceanos de Yemanjá, mas sim de uma combinação entre terremoto, deslizamentos e um lago no interior do Alaska). Foram tantas madrugadas as quais acordava no susto depois de sonhar que uma barragem havia estourado e transformado o sertão em mar. Mas naquele dia, não havia tempo para sonho algum.

Sim, o reservatório Santana preveniu as enchentes; só que não por uma graça divina e empática da atividade minerária, que se compadeceu da triste situação de Santa Maria, mas as enchentes desapareceram pelo fato de terem limitado a água que descia no rio Girau.

Hoje, todos que veem aquele rio me afirmam: “que lindo córrego da sua cidade”. Não é culpa do rio, as enchentes. Na verdade, elas são comuns no escoamento de água em grandes períodos chuvosos.

Aqueles mais antigos, sabendo disso, construíram a primeira rua da cidade longe do perigo das cheias (ASSIS, 2013). A atual Rua do Rosário e Rua Padre José Martins, popularmente conhecida como Rua Velha, são as remanescentes deste primeiro assentamento urbano.

A Rua do Rosário foi o local em que passei aquela madrugada na casa de minha avó: Leonor Alvarenga de Assis. Minha avó é uma trabalhadora cheia de fé dificilmente vencida, no entanto, ela também se abalou diante do acontecido.

Às 5 horas da manhã o dia kilariô. Levantei para beber um copo d’água e só ouvia o pesado chiado da chuva nas telhas, caindo pelas calhas. Às 6 horas a chuva parou, minha avó abriu a janela dos fundos e me chamou para ver o tamanho do estrago: todas as montanhas cujas matas foram trocadas pelos pastos haviam sangrado durante aquela chuva inimaginável.

Era como se uma cadeia de vulcões tivesse eclodido, só que no lugar de lava, havia lama. Deslizamentos por toda a cidade. Neste momento, comi um pão com manteiga às pressas e saí para a rua com minha câmera.

Na rua da minha avó, as pessoas saiam às suas portas curiosas. Saí à rua e quando virei a primeira esquina me deparei com aquele rio de lama que ocupava toda a cidade construída na antiga área da cheia do rio Girau.

Você pode estar se perguntando: “e o que raios um acidente climático tem a ver com a mineração?”. É o que irei lhe explicar a seguir. Esse contexto foi importante apenas para deixar evidente que não só de aleatoriedades se fazem os acidentes.

Coloquei o pé naquele barro, sujando todo meu tênis e minha roupa. Pouco importava a sujeira, mas mal sabia que uma vacina de Hepatite me esperava após todo este contato. Queria ver as pessoas, queria saber como estavam meus parentes, queria saber das minhas amizades e lá estavam todos a encarar a água barrenta que descia violentamente o rio.

Não era mais córrego e isso assustava a população. Consegui gravar alguns planos do rio Girau enfurecido. Aquela água fétida cheirava à morte e à mineração. Atravessei uma ponte entortada pela força da lama.

Do outro lado, tirei as únicas duas fotos que consegui: a primeira era de um senhor de pé com seu cachorro sentado ao seu lado enquanto ele encarava um policial com água até a metade do corpo na rua da frente; a segunda de um helicóptero dos bombeiros sobrevoando o céu nublado daquele domingo.

Logo chega a notícia: os mortos sob o deslizamento eram todos da região periférica da cidade. A desigualdade e o desmatamento levavam seis almas sob o soterramento. Mas Santa Maria de Itabira é uma cidade de pessoas com corações enormes. Logo o luto se instaurou e uma mobilização social de toda a cidade havia começado.

Pás, enxadas, baldes, carrinhos de mão, caminhonetes de carroceria lotadas, câmeras, galochas, água mineral e muitos outros itens circulavam para cima e para baixo. A sensação da insônia havia passado faz tempo e tomada pela impotência.

Diante dessa, regressei à casa de minha avó e guardei minha câmera. A casa dela, ao contrário de cerca de 90% da população, não havia sido atingida pela água do rio, somente a da chuva, que havia se acumulado um pouco no porão. Lá, descobri que haviam caído centenas de milímetros d’água em poucas horas. Uma chuva torrencial.

Daí, minha mãe chegou e me chamou para ir ao salão paroquial ajudar a preparar almoço para as milhares de pessoas atingidas. Nisto já eram 10 horas da manhã.

A partir desse momento, devo confessar a vocês que morar debaixo de uma barragem é um evento cotidianamente traumático. Poucas coisas na vida dão uma sensação de impotência tão grandiosa quanto viver diante de uma muralha que segura um tsunami.

O que vou relatar abaixo parece coisa que se aconteceria num filme estadunidense – coisa de cinema – mas cada momento aconteceu com a realidade mais crua e nítida possível esbofeteando minha face.

Enquanto cozinhava um arroz junto de minha mãe, ministra da igreja matriz católica, que ficava na mesma Rua do Rosário onde mora minha avó, e junto de outras pessoas da paróquia, escutei um barulho estranho de pessoas desesperadas. Larguei o fogo aceso e corri para a varanda na intenção de checar qual outra surpresa esse domingo havia reservado para nós, santamarienses.

Uma caminhonete sai desesperada, atrás dela, um carro, outro, depois outro e por assim em diante. As pessoas gritavam uma coisa que até então era um medo herdado e coletivo, mas impossível: “a barragem rompeu!”.

Depois de Mariana e Brumadinho, pensei, Santa Maria de Itabira? Corri para dentro do salão paroquial, desliguei o gás e antes que qualquer pessoa perguntasse algo, transmiti a informação que havia escutado. Saímos correndo deixando as portas abertas e a comida recém iniciada ainda por fazer.

Descemos a rampa e corremos para casa de minha avó. Ela havia acabado de limpar seu porão e estava subindo para o nível da rua. Eu e minha mãe entramos às pressas na casa de minha avó, de mãos dadas. Minha mãe pegou a  chave do carro, meu irmão apareceu e ajudou-a a abrir o portão. Eu dei a notícia a minha avó e fomos catar nossos documentos para fugir dali. Os carros e as pessoas evacuaram como numa cena de qualquer filme de apocalipse.

Correndo para salvar suas vidas, pessoas de todos os tipos estampavam a face da morte no semblante. Amontoados de terror. Entramos no carro, e saímos sem rumo, seguindo as poucas placas de rota de fuga, implantadas após os trágicos acidentes de 2015 e 2019.

Nesse meio tempo, meu pai havia sumido. Meu irmão tinha 10 anos de idade, na época, chorava alto no carro depois do sangue ter esfriado tremendo pela vida de nosso velho.

Vimos as ladeiras da cidade mais amontoadas que as ladeiras de Salvador em tempo de carnaval. Nenhuma dava para subir com o carro. O tsunami vindo atrás, que coisa; não há tempo. Fomos seguindo a BR rumo ao meio do mato. Pensamos em fugir para uma fazenda de um tio, que ficava há 5 quilômetros da cidade. O sinal de telefonia havia caído e não tínhamos contato algum com meu pai.

Pensei também tê-lo perdido, mas respirei fundo e acalmei meu irmão antes de me desesperar. Chegando na beira da estrada de terra que levava até a roça de meu tio, eis a surpresa: a estrada estava impedida por um deslizamento. Largamos o carro e subimos morro acima em direção a um pasto, junto de umas outras 50 pessoas que fizeram o mesmo caminho.

Lá, cerca de uns 100 de altura, ficamos debaixo do sol, pois mal havia árvore para fazer sombra, com sede e fome esperando a onda de água. Naquelas duas horas em que ficamos isolados da civilização, só conseguia rezar para meu pai e pensar em toda destruição causada pelo tal rompimento. Duas horas que pareceram 20. Dois acidentes no mesmo dia.

Meu coco fervia pelo sol do meio dia. Ardia de dor quando recebemos a notícia de que toda aquela evacuação tinha sido motivada por uma fakenews. Uma notícia falsa aliada a um medo real.

Naquele momento, só conseguia sentir ódio. Senti tanto ódio, pois estávamos em meio a uma pandemia de Covid-19 cheia de notícias falsas propagadas pelo governo de extrema direita que ocupou o Planalto Central de 2018 até 2022, e ainda tivemos que viver esta experiência traumática devido ao mesmo problema que fez com que 700.000 pessoas morressem por causa desta irresponsabilidade ligada à mentira.

Se até agora não percebeu como a mineração predatória atua, faço questão de mastigar para ti: essa atividade econômica atua, no Brasil, por meio do terrorismo. São organizações privadas terroristas.

Notícia falsa ou não, vivemos sob o constante terror quando moramos debaixo de uma barragem, seja de água ou de rejeito, ou próximo de minas. Ar poluído, lençol freático contaminado, montanhas desaparecidas, dinamites corriqueiras.

Constroem uma bomba relógio por cima das nossas cabeças e avisam que ela pode estourar a qualquer momento. Quando estoura, você está dentro de uma ZAS (Zona de Autossalvamento). Logo, você é o responsável por se salvar de uma bomba na qual não teve participação alguma na construção.

Terminado este relato, sem dizer tudo o que penso sobre a prática da mineração, continuo a viver e dedico até meu último suspiro para assistir o fim desse tipo de atividade.

Naquele domingo traumático, eu havia me entregado à morte, mas ela casou de não vir me buscar. Hoje, vivo sem remorso, com o objetivo principal de destruir qualquer prática predatória de mineração existente em meu território.  E com esse repertório, aliado a meu histórico de quatro anos de experiência na poesia, surge a síntese que dá vida ao roteiro: a poesia de mesmo título do filme:

Num Futuro…

Este é o futuro da nossa geração

Minas Gerais de Mineração?

Barragem explodindo é igual

Vulcão entrando em erupção

Pois bem, agora a Vale comete mais crimes em Congonhas e a republicação dessas obras, além desse relato, se fazem novamente necessárias para a conscientização popular acerca do risco que cidades próximas à mineração correm. Mesmo que uma barragem não estoure, a mera ideia de que isso pode acontecer já é um problema.

Depois de produzir o filme, resolvi estudar melhor o tema para ajudar na luta por meio do cinema/audiovisual. Atualmente, escrevo do interior da Bahia; mais precisamente da cidade da Cachoeira: Terra Mãe da Liberdade; aqui curso o Bacharelado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Coincidentemente, quando vim morar aqui, o primeiro monumento que avistei foi uma barragem de água muito, mas muito mesmo, maior que o reservatório Santana, de Santa Maria de Itabira – Minas Gerais. O destino prega peças engraçadas. Por aqui vejo as mesmas placas de rota de fuga e ponto de encontro. Vivo numa eterna Zona de Autossalvamento. Por causa desses estudos descobri o seguinte:

A prática da mineração predatória começou ainda em 1545 na extinta montanha de prata Potóssi (Bolívia) e nunca mais cessou no território de Abya Yala (GALEANO, 1971). Desde então, tivemos inúmeras cidades atingidas por barragens.

Eu sou militante hoje porque me foi arrancado à força o véu da alienação por meio dessas experiências traumáticas e pelo assíduo estudo da história. Hoje, me identifico enquanto militante comunista e defendo a imediata expropriação da VALE bem como de todos os seus meios de produção como única solução para os atingidos por barragem e pelo bem da própria soberania nacional.

Se vivemos num um país que exporta riqueza, é por que, numa das diversas oportunidades de não privatizar a maior mineradora do mundo, acabamos não lutando o suficiente para mantê-la enquanto estatal e entregamos tudo nas mãos de gringos.

Atualmente o Brasil exporta riqueza tal qual fez desde que o primeiro pé sujo de um portugûes pisou aqui para desgraçar essa terra de maravilhas onde canta o sabiá.

A VALE não vai pagar as multas que coleciona, não vai restaurar o lençol freático de Itabira e região, não vai devolver a vida de inúmeras pessoas que foram assassinadas pelas práticas desumanas da empresa, não vai devolver sequer a mesma árvore que arrancou.

Mas lhe digo o que vai continuar acontecendo: a VALE vai continuar devendo, vai continuar poluindo, vai continuar assassinando, vai continuar plantando eucaliptos numa terra de mata atlântica.

Quando a VALE sair de Itabira, quando a cidade só tiver ferro nas estátuas de Drummond e na poeira do ar, os fantasmas vão assombrar essa terra desolada e farão com que todos saiam imediatamente desse buraco. Já nem se chama mais Itabira do Mato Dentro, pois agora, dentro, só há a podridão da ganância humana que explorou até a última gota de sangue dos mineiros em detrimento do capital.

Uma história que se repete, facilmente previsível, mas dificilmente contornável, a não ser pela disciplina da luta diária por uma nação socialista controlada pela classe trabalhadora em detrimento da mesma;  na extinção da burguesia, que ganha rios de dinheiro por meio da mineração e de outras formas de acumulação desonesta; diria até anti-crística.

Filme disponível no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=HTeiG0SS-QA

*Pink Leite D. Assis é estudante universitário de Cinema, escritor & DJ, militante comunista.

Referências Bibliográficas

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. 2. ed. Porto Alegre: L&PM, 2012.

ASSIS, Joana Darc Torres de. Santa Maria de Itabira: Na Lavra do Tempo. Belo Horizonte, 2013.

 

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