Beatriz Emygdio: a cientista que transformou cannabis em política de Estado
Foto: Reprodução/ Embrapa
Da pesquisa pioneira há 30 anos à liderança do Comitê de Cannabis da Embrapa e à articulação técnica que subsidiou a RDC 1012 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a bióloga lidera o projeto de R$ 13 milhões aprovado pela Finep e consolida a cannabis como vetor estratégico da bioeconomia brasileira
Por décadas, a cannabis foi tratada como tema periférico no debate científico brasileiro. O que poucos sabiam é que, nos bastidores da pesquisa pública, uma bióloga da Embrapa já desenhava as bases de um programa que mudaria esse cenário.
Beatriz Emygdio não construiu sua trajetória sob holofotes. Construiu sob método.
Pesquisadora, presidente do Comitê de Cannabis da Embrapa e líder do grupo responsável pela estruturação do programa científico da instituição sobre o tema, ela representa um tipo de liderança rara no Brasil: a que transforma visão técnica em política pública estruturada.
Trinta anos antes do mercado

Muito antes da cannabis se tornar pauta de investimento, regulação ou inovação farmacêutica, Beatriz já defendia a necessidade de estudá-la sob o prisma científico. Há 30 anos, foi capa de uma revista no Sul do país ao abordar o potencial da planta com base técnica — em um período em que o debate ainda era marcado por estigma.
Não era ativismo. Era ciência.
Essa visão de longo prazo moldaria o que viria a seguir.
A arquitetura de um programa nacional
Dentro da Embrapa, Beatriz liderou a criação e a consolidação do Comitê de Cannabis e estruturou o grupo de pesquisa dedicado ao tema. Mais do que coordenar estudos, ela desenhou os pilares estratégicos que orientam o programa institucional:
- Pesquisa vegetal e melhoramento genético
- Segurança agronômica
- Bioeconomia e cadeia produtiva
- Sustentabilidade
- Interface regulatória
O programa foi concebido sob sua liderança técnica, consolidando a cannabis como agenda legítima de pesquisa agrícola e biotecnológica no Brasil.
O reconhecimento veio em escala nacional com a aprovação de um projeto pela Finep no valor de R$ 13 milhões — recurso que viabiliza o início estruturado das pesquisas com cannabis na Embrapa.
Mais do que financiamento, o investimento simboliza a institucionalização definitiva da pauta dentro do sistema nacional de ciência e inovação.
Da ciência à norma: o GT que virou política pública
Se a pesquisa estruturou a base técnica, foi na articulação regulatória que Beatriz demonstrou seu impacto estratégico.
Ela foi a articuladora do Grupo de Trabalho de Regulamentação Científica da Cannabis, responsável pela elaboração da nota técnica que subsidiou a RDC 1012 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária — norma que estabelece diretrizes para pesquisa com cannabis no Brasil.
O movimento foi resultado de ação conjunta entre ciência e regulação, ao lado de lideranças como Letícia Silva. O que começou como grupo técnico tornou-se norma sanitária.
No ambiente institucional brasileiro, onde a distância entre pesquisa e decisão regulatória costuma ser ampla, o caso se tornou exemplo de integração eficaz entre conhecimento científico e política pública.
Liderança feminina em território técnico
Em um setor historicamente marcado por debates ideológicos e disputas narrativas, Beatriz construiu autoridade pela via mais difícil: consistência técnica.
Sua liderança se diferencia por três características:
- Visão de longo prazo
- Capacidade de articulação institucional
- Compromisso com segurança regulatória
Ela não ocupa o centro do debate pela retórica, mas pelo método.
Como mulher em posição estratégica na ciência pública brasileira, sua atuação também simboliza avanço na liderança feminina em áreas técnicas de alto impacto regulatório.
O novo capítulo da bioeconomia brasileira
O avanço regulatório e o início estruturado das pesquisas posicionam a cannabis como vetor emergente da bioeconomia nacional.
Para Beatriz, o tema não é apenas medicinal — é estratégico.
Envolve:
- Desenvolvimento agrícola de alto valor agregado
- Pesquisa genética
- Cadeias produtivas sustentáveis
- Inovação farmacêutica
- Segurança sanitária
- Inserção internacional
O Brasil, potência agrícola e biodiversa, tem potencial competitivo significativo. Mas, segundo ela, o crescimento só será sustentável se estiver alicerçado em governança científica.
A ciência como política de Estado
A trajetória de Beatriz Emygdio mostra que agendas estruturantes não nascem da urgência do mercado, mas da persistência da pesquisa.
Três décadas separam a capa pioneira no Sul do país da aprovação do projeto milionário da Finep e da consolidação da RDC 1012. O fio condutor é o mesmo: transformar conhecimento técnico em fundamento institucional.
Em um momento em que inovação e regulação precisam caminhar juntas, sua liderança evidencia um caminho possível para o Brasil: o da ciência que antecipa ciclos e constrói políticas públicas duradouras.
Se o setor de cannabis hoje é agenda estratégica, é porque, em algum momento, alguém decidiu tratá-lo como ciência.
Beatriz fez isso há 30 anos.
E continua fazendo.









