Após a tempestade vem a bonança, mas nem sempre em tempos de mudanças climáticas
Fotos: Diário de Itabira/ Reprodução/Instagram
Chuva extemporânea com rajadas de vento destelhou casas em Itabira; ruas ficaram alagadas e bairros sofreram com queda de energia
O que antes era previsível pela tradicional Folhinha Mariana, publicação centenária que fazia a previsão do tempo para o ano inteiro, baseada em observações empíricas e ciclos agrícolas, hoje já não se confirma. Em tempos de mudanças climáticas, o clima se tornou instável e imprevisível, mudando como as nuvens.
Quem pensou que a forte tempestade que caiu em Itabira na madrugada de segunda-feira (23/03), quando a cidade registrou 42 milímetros em apenas uma hora, causando enxurradas, alagamentos e deslizamentos de terra, seria a tradicional Enchente de São José fechando o período chuvoso, enganou-se.

Na tarde desta quinta-feira (9), por volta das 16h, a cidade voltou a ser castigada. Uma tempestade com granizo e rajadas fortes de vento durou cerca de uma hora e assustou os moradores, com destelhamentos e alagamentos em várias ruas.
Casas foram destelhadas, árvores caíram e ruas ficaram alagadas, consequência da falta de drenagem eficiente e do entupimento de bocas de lobo com lixo, entulho e até cimento despejado irregularmente, impedindo o escoamento. Bairros também ficaram sem energia elétrica por mais de três horas.
Segundo o Climatempo, o acumulado de chuva foi de 9,7 milímetros em curto período. Embora o volume não tenha sido elevado, a intensidade das pancadas e os ventos fortes foram suficientes para causar estragos.
Mudanças climáticas e imprevisibilidade

O episódio em Itabira não é isolado. Em 2026, o Brasil já enfrentou ciclones extratropicais no Sul, ondas de calor prolongadas no Centro-Oeste e chuvas intensas no Sudeste. Globalmente, relatórios da ONU e de centros de pesquisa climática apontam que eventos extremos com chuvas torrenciais, secas severas e ondas de calor, estão se tornando mais frequentes, intensos e imprevisíveis.
Se antes havia a previsibilidade apontada pela Folhinha Mariana, que indicava a enchente de São José como marco do fim do período chuvoso, hoje essa tradição dá lugar a alertas meteorológicos constantes. Já não há uma única enchente encerrando o verão, mas uma sucessão de episódios que podem se repetir até a chegada da estiagem, que também provoca estragos como falta de água, incêndios florestais e colapso em sistemas urbanos despreparados. O que antes era considerado atípico passa a ser rotina.
O que se observa são cidades cada vez mais vulneráveis, não apenas pela força da natureza, mas pela ausência de infraestrutura adequada. A falta de drenagem eficiente, o entupimento de bocas de lobo, a ocupação irregular do solo e a carência de planejamento urbano tornam os impactos das chuvas mais severos. É assim que em Itabira, como em tantas cidades brasileiras, cada evento extremo expõe fragilidades acumuladas ao longo de décadas.
Ações preventivas e conscientização

É nesse contexto que, em tempos de mudanças climáticas, cada tempestade exige respostas rápidas e mudanças estruturais. Não basta apenas reparar os danos após o ocorrido. É necessário investir em prevenção, mitigação e adaptação.
Especialistas em clima e urbanismo recomendam que municípios adotem soluções baseadas na própria natureza, ampliando áreas verdes para absorção de água e reduzindo a pressão sobre o sistema de drenagem.
Defendem também a implementação de planos de drenagem integrados e o aprimoramento dos sistemas de alerta comunitário, de modo a preparar a população para agir rapidamente diante de eventos extremos.
A participação da sociedade é considerada essencial. Campanhas de conscientização devem ser retomadas com foco em reduzir o descarte irregular de lixo e entulho, que agrava alagamentos e aumenta riscos.
No caso de Itabira, onde a zeladoria urbana se encontra fragilizada, é urgente retomar programas de educação ambiental e reforçar a destinação correta dos resíduos domiciliares, para que a cidade volte a ser referência em coleta seletiva.
Além disso, é necessário reprimir com rigor pessoas e empresas que despejam resíduos em locais inapropriados, como margens de rodovias e terrenos baldios. Essas práticas não apenas comprometem a paisagem urbana, mas também intensificam os impactos das chuvas, obstruindo canais de escoamento e ampliando o risco de enchentes.
A experiência internacional mostra que cidades que investem em infraestrutura resiliente, como sistemas de drenagem inteligentes, corredores ecológicos e planos de contingência, conseguem reduzir significativamente os danos causados por eventos extremos.
Itabira precisa urgentemente seguir por esse caminho. Em tempos de mudanças climáticas, o improviso já não basta. É preciso planejamento, investimento e participação comunitária para enfrentar uma realidade em que a bonança após a tempestade já não é garantida.
O que precisa ser feito permanentemente
As últimas tempestades em Itabira reforçam a necessidade de aprimorar o planejamento urbano e comunitário. Para isso, a administração municipal deve investir em sistemas de drenagem eficientes, realizar limpeza periódica das bocas de lobo e ampliar a arborização urbana, para que a cidade deixe de ser uma das menos arborizadas do país.
Também a população tem papel fundamental. Manter limpos os sistemas de drenagem próximos às residências e não realizar descarte irregular de inservíveis são atitudes essenciais para o bem coletivo.
Além disso, é preciso seguir os alertas meteorológicos para redução de riscos. E também as orientações da Defesa Civil, que recomenda não transitar em áreas alagadas ou próximas a encostas durante tempestades.
Outra recomendação é não buscar abrigo debaixo de árvores em caso de rajadas de vento, raios e trovoadas, nem estacionar veículos próximos a torres de transmissão ou placas metálicas.
Serviço
Em casos de necessidade, acione:
- Emergência: 199 (Defesa Civil), 193 (Bombeiros)
- Celular/WhatsApp: (31) 98294‑6273 (plantão 24 horas)
- Telefone fixo: (31) 3839‑2147
Fontes: Defesa Civil de Itabira, Climatempo, sites e jornais da cidade e do país.










