A má priorização de projetos e recursos compromete a universalização do saneamento no Brasil
Em pleno século XXI, esgoto sem tratamento ainda é despejado no rio de Peixe, sem canalização, no bairro Gabiroba, em Itabira (MG)
Foto: Carlos Cruz
Por Leonardo Barrera*
A ampliação dos investimentos em saneamento no Brasil representa um dos pilares para o cumprimento das metas de universalização estabelecidas pelo novo marco regulatório.
O país assumiu o compromisso de garantir, até 2033, 99% de cobertura de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto, um desafio histórico que mobiliza operadores públicos e privados, investidores e órgãos reguladores.
No entanto, ampliar o volume de recursos disponíveis é apenas parte da equação. Sozinho, o aumento de investimento não assegura impacto proporcional na expansão dos serviços.
Sem critérios claros e estruturados de priorização, existe o risco concreto de investir muito e gerar pouco resultado social.
Em programas de universalização, o desafio central não se resume ao “quanto” se investe, mas principalmente ao “onde”, “quando” e “em que ordem” os projetos são executados.
A diferença entre volume financeiro e transformação real está diretamente associada à capacidade de selecionar as iniciativas certas, com base em indicadores técnicos consistentes, viabilidade operacional, retorno social e alinhamento regulatório.
Segundo o relatório de 2025 do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), referente a 2023, os investimentos em abastecimento de água e esgotamento sanitário somaram R$ 28 bilhões, R$ 15 bilhões a mais que em 2020.
Ainda assim, a evolução da cobertura segue gradual. O abastecimento de água atende 167,6 milhões de habitantes, o equivalente a 83,1% da população, percentual ligeiramente inferior aos 84,2% registrados em 2021. Já a coleta de esgoto avançou de 56% em 2021 (SNIS 2022) para 59,7% no levantamento atual.
Esses números mostram que o aumento de recursos é relevante, mas a aceleração da universalização depende da eficiência na priorização e na execução dos projetos. Quando essa lógica não é aplicada, os recursos tendem a se dispersar.
Projetos são iniciados sem considerar interdependências, restrições de capacidade ou maturidade técnica, e o ritmo de avanço perde coerência, já que, em vez de uma trajetória estruturada rumo às metas, constrói-se um mosaico fragmentado de obras e intervenções que nem sempre dialogam entre si ou atacam os maiores déficits.
Portfólios complexos de infraestrutura exigem decisões fundamentadas em critérios transparentes e integrados. Projetos de alto impacto social frequentemente competem com iniciativas de menor retorno estrutural, mas maior visibilidade política ou pressão local.
Na ausência de uma metodologia robusta de priorização, decisões podem ser influenciadas por fatores externos à estratégia de longo prazo, reduzindo a eficiência do investimento e comprometendo a sustentabilidade do plano de universalização.
O mercado brasileiro avançou ao reconhecer a urgência das metas regulatórias e ao mobilizar capital para viabilizar obras, concessões e expansões. Entretanto, ainda há uma lacuna relevante na maturidade da gestão de portfólio.
Priorizar não é um ato pontual definido no início do ciclo de investimentos, tampouco uma escolha exclusivamente estratégica.
Trata-se de um processo contínuo, que precisa considerar capacidade real de execução, riscos técnicos e ambientais, restrições orçamentárias, interdependência entre projetos e impacto sistêmico.
Quando essa dinâmica é negligenciada, metas passam a ser estabelecidas de forma excessivamente top-down, pouco conectadas à realidade operacional.
O resultado são cronogramas irrealistas, reprogramações frequentes, revisões contratuais e pressão sobre equipes técnicas, fatores que elevam custos e comprometem credibilidade. A ausência de critérios claros também amplia riscos regulatórios e reputacionais.
Atrasos recorrentes, estouros de orçamento e mudanças constantes de escopo podem gerar frustração da sociedade, questionamentos de órgãos reguladores e desgaste institucional.
Em um setor altamente regulado e sensível do ponto de vista social, previsibilidade, transparência e governança são ativos tão estratégicos quanto o próprio capital investido.
Por outro lado, há uma oportunidade concreta para organizações que estruturarem processos maduros de priorização.
A adoção de práticas consolidadas de gestão de portfólio, com definição de indicadores objetivos, análises multicritério, avaliação estruturada de riscos, monitoramento de desempenho e revisões periódicas, permite alinhar investimento, capacidade de execução e geração de valor social.
Essa abordagem reduz decisões reativas e transforma metas regulatórias em planos executáveis e sustentáveis.
Universalizar não significa apenas expandir redes ou aumentar o número de obras em andamento. Significa direcionar recursos para áreas com maior vulnerabilidade, maior risco sanitário e maior déficit estrutural.
Indicadores de cobertura, incidência de doenças de veiculação hídrica, densidade populacional, capacidade de pagamento e viabilidade financeira precisam compor um sistema integrado de decisão, evitando escolhas fragmentadas que comprometam o objetivo maior.
Diante disso, a universalização do saneamento depende, portanto, de mais do que disponibilidade de recursos financeiros.
Exige governança, metodologia, disciplina de execução e maturidade institucional para sustentar decisões técnicas mesmo sob pressão por resultados imediatos.
Investir é fundamental, mas é a priorização correta que transforma investimento em impacto real, consistente e duradouro para a população.
*Leonardo Barrera é Engenheiro Civil, especialista em Saneamento Ambiental e Gestão de Projetos, com foco na estruturação de PMOs e certificado PMP, atuando na gestão de portfólio e apoio à execução de projetos estratégicos em ambientes complexos de infraestrutura, na Vizca Engenharia.









