No retorno à Câmara, Dulce Citi bate de frente com Luiz Carlos e insinua misoginia: “Parece que o senhor não gosta de mulher”

Foto: Reprodução/CMI

Vereadora reage a críticas do oposicionista sobre sua passagem pela Secretaria de Governo; troca de acusações dominou ofuscou as manifestações de boas-vindas dos demais parlamentares à vereadora

O retorno da vereadora Dulce Citi (PDT) à Câmara Municipal de Itabira, nesta segunda-feira (19), após dez meses licenciada para comandar a Secretaria Municipal de Governo, acabou gerando um forte embate político com o vereador  Luiz Carlos “de Ipoema” de Souza (Podemos), protagonizando o principal acontecimento da reunião legislativa.

A sessão começou em clima de cordialidade, com a vereadora regressa sendo cumprimentada por todos os vereadores, à exceção do oposicionista Luiz Carlos.

Em sua volta à Casa, Dulce ocupou a tribuna para fazer um balanço de sua passagem pelo Executivo e defender a importância do diálogo entre os poderes, ressaltando que divergências políticas devem produzir soluções para a população e não conflitos pessoais.

Ao recordar o período em que esteve à frente da Secretaria de Governo, a parlamentar destacou iniciativas como a inauguração da Casa da Igualdade Racial, a articulação para a implantação do Instituto Federal em Itabira e a aprovação do Programa Alfabetização no Tempo Certo.

Também afirmou retornar ao Legislativo mais experiente e disposta a contribuir para a construção de consensos.

Após o pronunciamento, uma sequência de vereadores ocupou a tribuna para saudá-la. Júlio Contador, Elias Lima, Marquinhos da Saúde, Leandro Pascoal, Jordana Madeira, Rodrigo Diguerê, Reinaldo Lacerda, Heraldo Noronha, Bernardo Rosa, Marcelino Guedes e Didi do Caldo de Cana enalteceram sua experiência adquirida no Executivo e desejaram êxito em sua volta ao Parlamento.

O ambiente amigável, entretanto, durou até a palavra ser franqueada ao vereador Luiz Carlos de Ipoema.

Críticas à gestão e à possível candidatura à presidência

Mesmo iniciando sua fala desejando boas-vindas à colega, Luiz Carlos rapidamente mudou o tom. “Não vou ser demagogo e nem falso com a senhora. Não vi nada que a senhora apresentasse lá embaixo (na Secretaria de Governo). O governo também não tem apresentado nada”, afirmou.

O parlamentar seguiu criticando a administração do prefeito Marco Antônio Lage (PSB), condenou as frequentes mudanças de secretários e questionou a escolha de nomes de fora da cidade para ocupar cargos estratégicos.

E fez fez referências à possibilidade de Dulce disputar a presidência da Câmara para o próximo biênio. “Vai ter uma missão muito grande, porque se o prefeito não entrar (a seu favor), a senhora não tem chance nenhuma”, declarou.

Na sequência de críticas ao governo municipal, Luiz Carlos citou servidores comissionados que frequentemente acompanham as reuniões legislativas, mesmo estando em horário de trabalho. E questionou os salários pagos pela administração aos servidores comissionados de confiança da administração municipal.

E ao encerrar sua intervenção, direcionou uma crítica direta à vereadora. “Seja uma vereadora de verdade, não a vereadora do prefeito.”

Dulce rebate críticas, acusa misoginia e também gera controvérsia
A declaração do vereador oposicionista provocou reação imediata da vereadora. Usando o direito de resposta, Dulce iniciou sua manifestação observando que Luiz Carlos teria sido o único parlamentar a não cumprimentá-la ao chegar para a reunião.

“Agradeço pelas boas-vindas, mesmo que tardias, porque todos, quando eu cheguei, me cumprimentaram, exceto o senhor”, afirmou.

Na sequência veio a frase que marcaria o embate. “Não sei se o senhor não gosta de mulher, se é misoginia.”

A vereadora passou então a defender sua atuação à frente da Secretaria de Governo, citando a implantação da Casa da Igualdade Racial, a articulação para a chegada do Instituto Federal e outras ações desenvolvidas durante sua gestão.

Também contestou as críticas aos servidores comissionados do Executivo e rebateu os questionamentos sobre gastos públicos. “O gabinete tem que ter pessoas, tem que ter braço para a gente trabalhar”, respondeu.

Mas o confronto voltou ao terreno das relações de gênero quando Dulce associou as críticas recebidas à presença feminina nos espaços de poder. Ao comentar a futura disputa pela presidência da Câmara, questionou a postura do colega. “Com relação à presidência, nós somos duas mulheres aqui nesta Casa. O que o senhor tem contra as mulheres? Eu não sei não”, disse.

Em seguida, elevou o tom da provocação. “Eu acho que tem alguma coisinha aí, meio misteriosa, e eu vou descobrir.”

A vereadora ainda devolveu as críticas feitas por Luiz Carlos sobre sua eventual candidatura ao comando do Legislativo e afirmou que, caso ele dispute a presidência da Câmara, dificilmente obteria apoio dos colegas. “Participe também. Mas eu acho que o senhor vai ter só o seu voto. Pelo menos um, de honra”, disparou.

Na voltou a cobrar respeito do edil oposicionista. “Eu quero respeito. Respeito com as mulheres.”

Embora apresentada como reação ao que classificou como uma postura misógina do adversário, a insinuação da parlamentar também acabou gerando questionamentos.

É que, ao sugerir que Luiz Carlos “não gosta de mulher” e ao acrescentar que haveria “alguma coisinha aí, meio misteriosa”, Dulce ultrapassou o debate político e ingressou no campo das insinuações de caráter pessoal.

Sem formular uma acusação direta, a vereadora deixou no ar uma referência que pode ser interpretada como ligada à orientação sexual do parlamentar.

A observação ganha contornos ainda mais controversos por partir de uma vereadora que frequentemente se posiciona em defesa das pautas de diversidade, inclusão e combate a todas as formas de discriminação.

O episódio acabou produzindo uma situação paradoxal. Ao denunciar um suposto preconceito contra mulheres, Dulce recorreu a uma linha argumentativa que também pode ser interpretada como preconceituosa ou, no mínimo, incompatível com os princípios de respeito às diferenças e à diversidade que costuma defender em sua atuação pública.

Respeito entre os parlamentares

Após a troca de acusações, a tensão se refletiu inclusive entre os presentes no plenário, levando a presidência da Câmara, Carlinhos Sacolão, a pedir silêncio ao público durante a sequência dos pronunciamentos.

Entre os vereadores que falaram depois do embate, prevaleceu o discurso de valorização do respeito institucional.

O vereador Reinaldo Lacerda (PSB) afirmou sentir desconforto com situações dessa natureza e lembrou que a Câmara é maior do que os mandatos individuais de seus integrantes.

Heraldo Noronha (Republicanos) ressaltou que divergências políticas fazem parte da democracia e destacou a experiência adquirida por Dulce no Executivo.

Bernardo Rosa (PSB) defendeu a importância dos freios e contrapesos próprios do regime democrático, enquanto Marcelino Guedes (PSB) e Didi do Caldo de Cana (PL) pregaram a convivência respeitosa entre os parlamentares e a busca por resultados positivos para a população.

Ao final da sessão, Dulce voltou à tribuna para suas considerações finais, reafirmando a defesa da democracia, agradecendo sua equipe na Secretaria de Governo.

E desejou sucesso ao novo secretário interino André Victolla, que já atuou como assessor da vereadora e atualmente integra a equipe do Gabinete do Prefeito como assessor especial.

 

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