Constantino Serpa – há 100 anos
O pequeno lago no Parque das Mangabeiras, por Yara Tupynambá (1932-), de Montes Claros-MG
Acervo: Coleção da Artista Foto: Reprodução/CMBH
| Com este pseudônimo são assinados alguns poemas e poemas-em prosa no Diário de Minas, entre 1926 e 1928, destacando-se “Belo Horizonte” (20-3-1927), incluído em Alguma Poesia (1930), onde faz parte do conjunto ‘Lanterna mágica’. Na publicação original o poema está dedicado a Antônio Crispim. É mencionado e comentado na carta de Mário de Andrade, já citada, com o título de “Capital do estado”. Sobre a data-limite de composição da peça. Curioso notar que, na publicação original, o poema, assinado por um pseudônimo de CDA, é dedicado a outro pseudônimo…
Repr.: Pindorama (BH), 1930, p.31-32; Poesias (ed. Brasileira), Rio, J. Olympio, 1942, p.18; Poesia até agora, Rio, J. Olympio, 1948, p.14; Fazendeiro do ar & Poesia até agora, Rio, J. Olympio, 1955, p.19 e ed. seg.; Poemas (ed. brasileira), Rio, J. Olympio, 1959, p.8-9; Obra completa, Rio, Aguilar, 1964, p.57, e ed. Seg. (1967); Reunião (ed. Brasileira), Rio, J. Olympio, 1969, p.7, e eds. segs.; Poesia completa e prosa, Rio, Aguilar, 1973, p. 57, e eds. segs.; Nova Reunião (ed. Brasileira, 2 vols.), Rio, J. Olympio /INL /Pró-Memória, 1983, vol. I., p.8-9; Estado de Minas, BH, 22-8-1987; Obra poética (ed. Portuguesa, 8 vols.), Mem Martins (Portugal), Publicações Europa-América, 1989, vol. 1, p.49.
Vers.: Leônidas Sobrinho Porto, Pilar Vásquez Cuesta, Vicente Sobrinho Porto, Bandeira – Drummond – Schmidt. Três Poetas del Brasil, Madrid, 1950, p.40-41 (vers. Edspanhola sob o título de BELO HORIZONTE). Fernando Py |
Belo Horizonte
Constantino Serpa
(À Antonio Crispim)
Meus olhos têm melancolias,
minha boca tem rugas.
Velha cidade!
As árvores tão repetidas.
Debaixo de cada árvore faço minha cama,
em cada ramo dependuro meu paletó.
Leitura de jornais.
Lirismo;
pelos jardins Versalhes.
ingenuidade de velocípedes.
E o velho fraque
na casinha de alpendre com duas janelas dolorosas.
(junho 2016)

Constantino Serpa – há 102 anos –
| “Passa uma aleijadinha”, publicado no D. de Minas, BH, 10-11-1926. Repr.: José, Rio, n.4, outubro de 1976; A lição do amigo, Rio, José Olympio, 1982, p.20. Compõe-se de 19 versos. A propósito da data-limite da composição da peça. Quanto à reprodução em José, faz parte de apêndice à carta comentada por Mário de Andrade, reproduzida em A lição do amigo. | Fernando Py
| Construção, Passa uma aleijadinha e Política estão datados de 1924 pelo autor, na cópia comentada por Mário de Andrade, a quem foram enviados para apreciação. A carta de Mário, contendo observações sobre “Construção, “Política”, Nota social” e “Passa uma aleijadinha”, está reproduzida nº. 4 da revista José, de outubro de 1976, e no volume A lição do amigo (1982). Esses poemas, segundo CDA, faziam parte do volume Minha tem palmeiras, livro que projetou, porém nunca chegou a publicar. Há pequenas variantes entre as publicações sucessivas. Também diverge o texto das duas versões alemãs, a partir do título. Convém notar que o número 3 de Estética, onde “Construção” está acompanhada de “Sentimental” e “Raízes e Caramujos”, apresenta um lapso na datação: onde se lê, na folha de rosto, “Vol. 1 janeiro/março 1925” leia-se “Vol. 2 abril/junho 1925”, conforme verificamos na reedição fac-similar, comemorativa do cinquentenário da revista. Fernando Py|
Passa uma aleijadinha
Constantino Serpa
Passa uma aleijadinha,
toda curvada no seu vestido de chita
(uma coisa nas mãos do destino).
Vai apoiada às muletas, que batem na calçada,
vai apoiada às muletas, que batem na calçada, que batem na calçada,
vai apoiada… vai coxeando.
E ninguém a vê na sua tortura muito real,
ninguém a vê fugindo dos autos,
recuando, tropeçando,
insistindo.
Todo mundo tem pressa,
todo mundo tem negócios, amores, aperitivos a tomar.
A aleijadinha vai coxeando.
Súbito um bonde dispara.
A aleijadinha corre… As muletas caem…
Ela torce o corpo, desamparada,
E rola nos paralelepípedos.
Mas logo se levanta (foi apenas um susto!)
Acha uma muleta aqui, outra acolá,
e la vai toda curvada, coxeando.
(1924)
Comentário de Mário de Andrade sobre o poema Passa uma aleijadinha: acolá, que palavra horrível! Só se emprega em livros didáticos. Deixamos isso pra Portugal.
Passa uma aleijadinha
Passa uma aleijadinha,
toda curvada no seu vestido de chita
(uma coisa nas mãos do destino).
Vai apoiada às muletas, que batem na calçada,
vai apoiada às muletas, que batem na calçada, que batem na calçada,
vai apoiada vai coxeando.
E ninguém a vê na sua tortura muito real,
ninguém a vê fugindo dos autos,
recuando, tropeçando,
insistindo.
Todo mundo tem pressa,
todo mundo tem negócios, amores, aperitivos a tomar.
A aleijadinha vai coxeando.
E ninguém a vê na sua tortura muito real,
ninguém a vê fugindo dos autos,
recuando, tropeçando,
insistindo.
Todo mundo tem pressa,
todo mundo tem negócios, amores, aperitivos a tomar.
A aleijadinha vai coxeando.
Súbito um bonde dispara.
A aleijadinha corre. As muletas caem.
Ela torce o corpo, desamparada,
e cai nos paralelepípedos.
Mas logo se levanta (foi apenas um susto!)
Acha uma muleta aqui, outra mais adiante,
e lá vai toda curvada, coxeando,
coxeando pela rua Goyás.
(1926)
[Pé de página: 20 de agosto de 2026. Na rua. Céu azul-azulíssimo. Meu corpo está bem, passos firmes, sem o recurso do corrimão subi a escadaria da Biblioteca Nacional. Fui consultar “A lição do amigo – Cartas de Mário de Andrade para Carlos Drummond Andrade”, edição da José Olympio, Rio, 1982. Com modéstia ocupei a mesa 04, a “mesa de Drummond”. Em 5 minutos A lição do amigo, sem modéstia, ocupou a pequena mesa. O volume consultado pertenceu ao compositor e maestro Guerra-Peixe (César Guerra-Peixe, 1914-1993), adquirido por ele em 1983 e está repleto de comentários e indagações. Se para Guerra-Peixe “a leitura dos livros e ensaios de Mário de Andrade — como o Ensaio sobre a Música Brasileira — foi o estímulo definitivo para buscar uma linguagem erudita enraizada na realidade do país”, para mim foi uma grande alegria e prazer estar com eles: Drummond, Mário de Andrade e Guerra-Peixe. E devo tudo encontrei em nossa Biblioteca Nacional. – Cristina Silveira]









