A.P. – há 102 anos

Escultura de CDA, instalada no Memorial CDA, Itabira-MG, assinada por Genin

Foto: Acervo Vila de Utopia

|Estas iniciais A.P. subscrevem um conjunto de pequenos diálogos intitulado O veneno da vida (Diário de Minas, BH, 9-12-1926. Trata-se de reprodução: a publicação original deu-se no Para Todos…, Rio, 26-1-1924, e está assinada Carlos Drummond. Fernando Py|

O veneno da Vida

(diálogo)

– O senhor está velho, acabado!…

– É verdade. Tenho lido tantos livros nacionais…

*

– Às vezes, sabe? Se não fosse um cigarrinho, eu já me havia suicidado…

– E por que é que o senhor não deixa de fumar?

*

– O crepúsculo é suave. É bom. Diga-me versos, diga.

– Não me lembro de nenhum…

– Não faz mal, diga assim mesmo. Os seus, por exemplo…

*

– Guerra Junqueira, hein? Grande poeta!…

– Quando…

– Aquele sujeito não escreve nada de seu; cita os outros.

– Cita. Até a assinatura, o nome que o pai lhe deu…

– Oh! Meu amigo! Há quanto tempo não nos vemos! Por que não me escreve?

– Ah! O senhor gosta de receber cartas?…

*

– Meu Deus! Como ela está nua!

– É pra ver se passa despercebida…

*

– Aquele senhor tem dez mil réis na carteira…

– Eu logo vi que ele era honesto!

*

– Dizem por aí que o senhor faz versos… Será verdade?

– Que é a verdade, meu amigo? Nem Jesus sabia…

– A propósito: Lembra-se daquela palavra de Jesus, no Horto das Oliveiras?

– Não, senhor. Faz tanto tempo…

*

– Meu amor!

– Meu amor!

– Bom dia

– Você como vai?

E caíram na banalidade…

[Fonte: Diário de Minas, BH, 9-12-1926 – Pesquisa: Cristina Silveira]

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