Instituto Vladimir Herzog vê ameaça à democracia em eventual eleição de Flávio Bolsonaro
Foto: Reprodução/ IVH
Em nota extensa, entidade afirma que imprensa tem falhado em alertar o país sobre riscos institucionais e denuncia a normalização de um projeto político que já atentou contra o Estado Democrático de Direito
O Instituto Vladimir Herzog (IVH) divulgou, nesta sexta-feira (9), uma nota pública na qual expressa preocupação profunda com o cenário eleitoral brasileiro.
O texto, de caráter analítico e abertamente crítico, afirma que uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro representa não apenas um risco político. Para a entidade, a candidatura da extrema-direita é uma perigosa ameaça às bases constitucionais que sustentam a democracia no país.
A entidade, que homenageia e preserva a memória do jornalista assassinado pela ditadura militar, e atua há mais de uma década na defesa dos direitos humanos, acusa parte da imprensa de contribuir para a naturalização de uma candidatura que considera “uma anomalia política”.
A nota começa reafirmando os princípios que orientam o IVH: liberdade de imprensa, liberdade de expressão e repúdio a qualquer forma de censura ou arbítrio. O instituto lembra que sua própria existência decorre da luta de jornalistas que enfrentaram a violência estatal e a supressão de direitos durante a ditadura militar.
Nesse sentido, afirma que a defesa dos direitos humanos é inseparável da missão jornalística. “A missão de informar a sociedade e de criticar o poder em público supõe o repúdio incondicional a toda forma de censura, de arbítrio e de violação da dignidade humana”, diz o texto.
A entidade afirma que esses valores estão novamente sob ameaça. E questiona se o jornalismo brasileiro está falhando em seu papel histórico.
“Terá o jornalismo faltado ao seu encontro com a História?”, pergunta o IVH, ao destacar que a sociedade não tem sido devidamente informada sobre os riscos que enfrenta na atual campanha eleitoral.
Naturalização da extrema-direita
Segundo o IVH, há um esforço de normalização da candidatura da extrema direita por parte da imprensa brasileira que ignora o fato de que o senador integra o grupo político que tentou dar um golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023.
O texto relembra que o atentado não foi apenas um ataque às sedes dos Três Poderes, mas envolveu “até um plano para assassinar o presidente da República, seu vice e o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral”.
Para o instituto, relativizar esses acontecimentos equivale a negar respeito à própria democracia.
O IVH também critica o uso recorrente do termo “direita” para se referir ao que considera ser, na verdade, extrema-direita – e que é preciso fazer essa distinção.
Sustenta que esse campo político não apenas rejeita a convivência com a diferença, mas “abomina os ritos da urbanidade democrática” e defende abertamente a ruptura institucional.
“Essa candidatura sequer pode ser qualificada como conservadora”, diz o IVH, argumentando que ela renega o espírito conservador e se alinha a um projeto que afronta a tradição liberal, os princípios republicanos e a própria ideia de pluralismo político.
Simetrias retóricas, falsa equivalência e extremismo
A nota dedica um trecho à crítica das “simetrias retóricas” presentes na cobertura jornalística, que colocariam as duas candidaturas como equivalentes. Para o IVH, essa equivalência é artificial, enganosa e perigosa.
“Enquanto uma delas traz, de longa data, o compromisso com as regras da ordem democrática, a outra tem uma trajetória de sucessivas afrontas contra o Estado Democrático de Direito.”
A entidade afirma que essa diferença, “estrutural e chocante”, não tem sido devidamente explicitada ao público por parte da imprensa, contribuindo para a desinformação e para a erosão da consciência democrática.
Antecedentes
O IVH revisita ainda as eleições de 2018 e 2022. Em 2018, argumenta o texto, o país ainda não tinha experimentado um governo extremista, embora já existissem sinais claros de autoritarismo.
Hoje, porém, o Brasil já viveu “o trauma de ter o extremismo chefiando o Poder Executivo”, e as declarações de seus representantes “recrudescem e anunciam medidas desumanas, sobretudo contra os mais pobres”.
Para o instituto, não há mais espaço para ingenuidade, uma vez que os riscos são conhecidos, documentados e reiterados. A nota também alerta para o cenário internacional, que considera mais favorável a governos truculentos.
O IVH afirma que o extremismo brasileiro mantém “relação de subalternidade com a extrema-direita dos Estados Unidos”, além de vínculos com autocracias que atacam imprensa, ciência e direitos humanos.
“Não podemos ter dúvidas: a soberania do Brasil também está em perigo”, diz o texto, apontando que a ascensão de governos autoritários ao redor do mundo cria um ambiente propício para retrocessos democráticos internos.
Ao concluir, o instituto afirma que o jornalismo não pode ser neutro entre democracia e tirania. “Entre a ordem democrática e o jugo da tirania, o jornalismo não é equidistante, mas tem um lado.”
Para o IVH, a objetividade exige que a imprensa explicite as diferenças factuais entre quem tem compromisso com a democracia e quem não tem. “O futuro do Brasil, bem como o futuro da própria imprensa, depende disso.”
Vladimir Herzog, jornalista assassinado pela ditadura, tornou-se símbolo da luta pela democracia
Vladimir Herzog nasceu em 1937, na então Iugoslávia. Chegou ao Brasil em 1946 após fugir com a família da perseguição nazista.
Em São Paulo, construiu uma carreira marcada pela defesa da liberdade de expressão, passando por veículos como O Estado de S. Paulo, BBC, revista Visão, TV Excelsior e TV Cultura, além de atuar no cinema e no ensino universitário.
Tornou-se uma das vozes mais influentes do jornalismo brasileiro, especialmente na cobertura cultural e na crítica de cinema.
Em 25 de outubro de 1975, ao se apresentar voluntariamente para depor no DOI-Codi de São Paulo, Herzog foi torturado e assassinado pela ditadura militar.
Para ocultar o crime, os agentes montaram uma cena forjada de suicídio por enforcamento. A versão oficial, divulgada imediatamente pela imprensa áulica do regime militar, afirmava que o jornalista havia se matado dentro da cela.
No entanto, as evidências materiais e fotográficas contradiziam frontalmente essa narrativa.
É que, a fotografia divulgada pelo próprio DOI-Codi mostrava Herzog pendurado por um cinto em uma janela cuja altura era inferior à sua estatura, de modo que seus pés tocavam o chão, com os joelhos dobrados – posição incompatível com enforcamento voluntário.
O corpo apresentava marcas claras de tortura, visíveis no rosto e no tronco. A faixa usada para sustentá-lo não tinha tensão suficiente para provocar morte por asfixia.
Estudos posteriores conduzidos por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificaram a cela exata onde a cena foi montada e confirmaram que a disposição da janela, da grade e do piso correspondia à fotografia, reforçando que o cenário havia sido manipulado para simular suicídio.
Décadas depois, a Comissão Nacional da Verdade concluiu oficialmente que Herzog foi morto sob tortura.
A farsa não se sustentou. A morte de Herzog provocou comoção nacional e internacional e desencadeou uma das maiores manifestações públicas contra o regime militar.
Em 31 de outubro de 1975, seis dias após o assassinato, mais de oito mil pessoas lotaram a Catedral da Sé e todo o seu entorno para o ato ecumênico em sua memória, conduzido por Dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo reverendo Jaime Wright.
O evento tornou-se um marco da resistência democrática, simbolizando a ruptura definitiva entre amplos setores da sociedade civil e a ditadura, e acelerando o desgaste político do regime militar.
Desde 2009, o Instituto Vladimir Herzog preserva sua memória e promove ações em defesa dos direitos humanos, da liberdade de imprensa e da democracia — valores que o jornalista defendeu até o último dia de vida.
Saiba mais. Assista:








