Novos Cantos Itabiranos – há 46 anos
Arte: Genin/ Querelas
Lúcio Vaz Sampaio
I Canto
Eu louco desta Itabira hoje,
presente que de passado se refaz.
Eu que te revisitei
e te revisitei
e te revisitei
e/novamente/ agora te revisto.
Pergunto-me (pergunto-te):
aonde vão meus loucos
nossos loucos / fantasmas
Imagens que (me + te) perfazem?
Pelas ladeiras e becos
sonâmbulos de sua (nossa)
loucura louca
quando!
Os ponteiros da Matriz do Rosário
confirmam o meio-dia
anunciando a sesta do temível Monsenhor?
II Canto
Tal uma galeria,
na antessala da memória
(cortina de veludo vermelho?)
vão surgindo paulatinamente…
vultos se revelando,
furtivamente até…
máscaras, faces, imagens
fantasmas se encenam
no mal cheiro de lembranças.
III Canto
Onde anda hoje-cruel Caetano Pontaria,
entre hortaliças escondia seu olho
horrível, de vidro!, vesgo,
aos mandos de Geraldo Bicaria,
outro que sorria ao ver passar, serelepe
(a bunda)
por essas ruas imundas,
nosso primeiro travesti
ancas libidinosas e faceiras e feias
do Caetano Bicha
por favor! Onde andas?
que confins o encerraram?
IV Canto
E você
Bárbara / louca! /suja imunda!
Lês ainda teu jornal de cabeça para baixo
matraqueando a esmo?
Que notícias me dás do Roque,
cumplice em sua insanidade,
com seu vozeirão amedrontador,
seu saco de linhagem nas costas
guardando mais terrível segredo?
O morto-de-Ipoema não mais respira,
o feto encontrado no Poço da Água Santa
não existiu.
V Canto
Oh, belas colchas de retalhos
(tão vistosas)
são obras de Sadelê
artesã & faladeira.
A porta está aberta, à sua mercê
Sá Ana lavadeira,
a perna melhorou?
Vamos entrar e me diga
se o Benegueth
“é o papo de avozeth!”
Com linda casemira meu terno fez.
VI Canto
E tu Vadinho, alcoólatra,
não mais cantas românticos boleros
em cercanias do Pará, bairro maldito de
loucos e só loucos e só loucos?
Dançando, cantando
lá vai Zé Doido,
primeiro cantor-pop que tivemos.
Oh, monstruosa televisão
encerrastes meu povo do seu próprio convívio!
Oh voz de canora do Ceomar!
Tulipas na casa de Lelê e Ninita
as Ferreiras, doces irmãs,
que mais me resta?
Não mais vimos
o Marquinhos a nos cumprimentar
com sua pressa
(o braço direito em pêndulo)
eternamente a tomar posse
da Vale do Rio Doce
Onde o futuro?
VII Canto

Oh Itabira, amaldiçoada seja,
que de suas entranhas,
em época do malvado sanguinário Coronel Fonseca,
pariu o temível Barateiro, barrabás!
(retalhado à gilete pelos que estavam no seu encalço).
Que abrigastes o gaúcho Sertanejo, lenhador.
Lencinho no pescoço, camisa axadrezada,
devorador de gambás.
Que madrugada o engoliu, Fincão,
violento mulatão,
que cortava árvore com seu facão?
Terias o mesmo destino o Zé João Alfaiate,
que solenemente afirmava:
“o trabalho enobrece o homem, porém o cansa…”,
continuas a percorrer desvairado as ruas
desta Itabira de luas e sombras?
VIII Canto
Lembrar então de Champrisco,
que fazia fubá e não amolava ninguém.
Tens notícias de Tita,
“a ratinha do SAPS”,
enormes unhas de vermelho esmalte,
suas pestanas longas e sonhadoras
(quiçá um príncipe?)
e a erótica pinta nas bochechinhas de rouge.
Você no carnaval:
quantas martas-rochas tivemos, Zé Novaera?
que ao som da charanga do Tubias
– quase me esqueço –
fiel amigo de Daniel de Grizolia
(trágico suicídio!)
cabo eleitoral de populistas eleições,
batuque e cerveja com o Dedé,
famoso mister Dids,
não se faz mais carnavais como antigamente?
IX Canto
Como beber hoje
para esquecer as ausências
das lentas afirmações do Tieca
tais como:
“o álcool predomina no organismo do homem, causando-lhe morte prematura…”
Ele que ficava se perguntando
em que as pérfidas mulheres itabiranas
(quantas mágoas, ó deus!, teriam que ser levantadas no escuro do portão?)
o achavam interessante
(brilhantina e Lancaster):
“ou é minha beleza facial, ou meu modo brusco de agir…”
Mas que louca aventura era esta de amansar cavalos
como fazia o João Rufino,
morador ali no bongue.
Não mais te vejo Cinira, matriarca,
teus filhos perdidos pelo mundo?
Todos todos todos.
X Canto
Espelho do passado meu
reflita a imagem de…
quem?
De Paulo Jacaré
com sua incomensurável feiura!
Tocando tuba na Euterpe Itabirana.
De Abílio Bicheiro,
barra pesada dos becos sombrios.
De Geraldo Bicaria,
vivendo de repolhos e rabanetes,
motivo sempre de troça?
“Ôquei, Nilôoo…” Inquiria Beluta,
entre sorrisos de Angélica,
seus olhos imensos,
(órbita solta)
espreitando minhas noites no quarto fechado,
como dar-lhe nua forma?
Nem uma fotografia sequer,
tirada por seo Renê,
digno sujeito,
ludibriado por todos namorados e noivinhos, seus clientes.
O Baile da Blusa.
Baile de Debutantes em outubros brancos.
(oh, fragrância que me faz lembrar Singapura!)
Quantos e quantos?
Tudo se perdeu, em suma?
Oh doce sô Paulo Curió!
Delícias das mocinhas púberes,
Versinhos para todas as ginasianas e normalistas,
virgens ainda?
Não mais esquecer, ingrata memória
de Demir e Deílson, belicosos irmãos que
com seu irmão caçula, Daniel,
mais perfeita trinca
de faroeste no Campinho de Lado,
hoje BNH,
faziam e desfaziam
o pecado original.
XI Canto
Dunga, anão!
Condenado aos oito anos à marginalidade
bandido! Quando à noite o lobo uiva.
Diogo & Manelzin, sinuca no Diquim,
pãezinhos do Divino Padeiro,
jabuticabas na Didinha Olga
(quantos tombos!)
(não façam barulho…)
Em seu diapasão Natércia afina
o descompasso da vida.
Dinah e Glorinha
Kária e Patrícia
O Cabral Stret às avistam!!!
XII Canto
Onde vocês:
Nandi & Guerrinha
loucos – negros. Bêbados do Capim Cheiroso
“Bebe, Vanusa, bebe…”
Quando parar?
Onde eu
você, Perônio, caso de polícia.
Conhaque no Lunik 9,
onze horas de uma terça-feira à noite.
Sôzinho e Maria Escurinha
cafetina e rufião;
geração do Valério, ali na Mestre Emílio…
A loura louca no cemitério do Cruzeiro,
ao som dos cavaquinhos e sanfonas
lá no Parente,
exorcizando capetas
em corpos adolescentes.
XIII Canto
E você, por fim, Zezé,
puta do Coração Iluminado.
Quantos guris de quinze anos acalentados em flácido regaço?
“mirastes em teu seio?”
Desmamastes?
Quantos pais
(de família)
(esposas santas do lar ouviam – pelo rádio – a paixão de Albertinho Limonta)
não conseguem passar da primeira
com Arlete e Marfisa,
donas do bordel,
damas do bar Botafogo, nas madrugadas.
Judith, Matilde, Edith & Clotilde…
Todas elas sifilíticas, meu deus?
XIV Canto
Finalmente, eu
aqui
louco miseravelmente perdido
entre fantasmas a devorar-me
num passado que não mais se tem
que não existiu?
Que sem fins me levaram,
Meu deus,
Onde me perdi?
[Jornal O Cometa Itabirano, outubro de 1980]
O centenário da cidade de Itabira
Itabira elevada a cidade pela Lei n. 374, no dia 9 de outubro de 1948, sendo então presidente da província o dr. Bernardino José de Queiroz, acaba de comemorar, com grandes solenidades, o centenário de sua emancipação política e administrativa.
A Comissão promotora dos festejos composta dos senhores José de Grisolia, Randolpho Martins da Costa, Altivo Drummond de Andrade, Pedro Martins Guerra e Joaquim Loureiro Filho, envidou todos os esforços para que tudo fosse coroado de pleno êxito.
O dr. Milton Campos, presidente do Estado, o dr. Daniel de Carvalho, ministro da Agricultura, secretários do Estado, altos funcionários e chefes políticos dos municípios vizinhos compareceram às solenidades.
Itabira, sendo como é uma das cidades mais cultas e tradicionais de Minas Gerais comemorou o seu primeiro centenário certa de que mais valiosas do que suas ricas jazidas de minério de ferro é a sua inquebrantável fidelidade a religião e, consequentemente, aos grandes princípios morais que norteiam os filhos do grande Estado central.
[A União (RJ), 24.10.1948 – Pesquisa: Cristina Silveira]









Vi a Itabira e o prefeito Marco Antônio Lage.
*viva
Que maravilha de poema do Lucio.
Ah, o diapasão de Natércia ainda vibra nas minhas lembranças do tempo das aulas de canto na Eemza! Eu adorava mas morria de vergonha de me expressar. Se eu tivesse aproveitado bem, até que daria pra ganhar uns trocados cantando samba.
Moisés, não desista, cante