A pressa de casais do mesmo sexo em oficializar a união antes de 2027
Medo de perder direitos após resultado das eleições leva casais LGBTQIAPN+ a antecipar casamento
Foto: Reprodução/ LCA Agência
Especialista analisa o que está por trás do temor de casais homoafetivos diante do avanço de forças conservadoras no Congresso
Bruna Andrade Irineu*
Vídeos que circulam nas redes sociais têm aconselhado casais LGBTQIAPN+ a oficializarem a união ainda em 2026, diante do receio de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo possa deixar de ser reconhecido no futuro.
A movimentação ganhou força em meio a uma nova configuração política no país. As eleições ampliaram a presença de partidos de direita no Congresso, enquanto discursos conservadores também passaram a ocupar mais espaço em debates sobre gênero, sexualidade e direitos das mulheres.
Apesar de a bancada feminina chegar a 109 cadeiras, a maior da história, a nova Câmara consolida uma maioria à direita, com o avanço de parlamentares ultraconservadores na pauta de costumes.
Esse cenário também chama atenção para um fenômeno dentro da própria representação feminina: ser mulher na política não significa necessariamente defender pautas feministas.
A nova legislatura terá parlamentares que se apresentam abertamente como antifeministas, como a deputada estadual eleita em São Paulo Eduarda Campopiano (PL), que ganhou projeção justamente por sua oposição ao feminismo.
O debate chega a um ponto ainda mais sensível quando discursos passam a questionar conquistas históricas das mulheres, como o direito ao voto. Em 2026, manifestações nesse sentido voltaram a aparecer no debate público brasileiro, acompanhando movimentos semelhantes em setores conservadores de outros países.
No caso da população LGBTQIAPN+, o temor também está relacionado à forma como algumas conquistas foram construídas. Em 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça determinou que cartórios não poderiam recusar a celebração de casamentos homoafetivos.
Não existe, hoje, uma decisão concreta determinando o fim do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ainda assim, a circulação dos vídeos revela uma preocupação que vai além do campo jurídico: o receio de que direitos conquistados possam voltar a ser colocados em disputa conforme muda a correlação de forças políticas.
O episódio permite discutir justamente essa relação entre mudanças políticas, segurança de direitos e sensação de pertencimento e proteção de grupos historicamente discriminados. E gera muitas preocupações e discussões, a saber:
- O que o avanço do conservadorismo representa para a população LGBTQIAPN+;
- Por que mulheres eleitas nem sempre se identificam com o feminismo;
- Como discursos contrários a conquistas históricas podem ganhar espaço político;
- A diferença entre uma ameaça política e uma mudança jurídica efetivamente em andamento;
- Por que direitos reconhecidos pelo STF ainda podem ser percebidos como vulneráveis;
- Como o medo de retrocessos interfere nas decisões e na vida cotidiana de pessoas LGBTQIAPN+
Sobre a autora
*Bruna Andrade Irineu é assistente social, professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e pesquisadora na área de políticas públicas, gênero e sexualidade.
É autora de Nas tramas das políticas públicas LGBT: um estudo crítico da experiência brasileira (2003–2015) (EdUFMT); coautora de Violência algorítmica e vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital; e coautora de Diversidade sexual e de gênero e Marxismo (Cortez), obra finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2025.
Instagram: @brunairineu









