L. – há 99 anos
Foto: Eduardo Cruz
| Surge duas vezes apenas, ambas no Diário de Minas: a) assinando a transcrição da narrativa “História simples que recomeça” (8-10-1926), cuja publicação original se deu na Ilustração Brasileira (Rio, n. 20, 21-4-1922; e b) por engano de revisão, na assinatura da primeira das crônicas subscritas pela letra I. – “A parábola do pai pródigo”, (7-4-1927), primeira de uma extensa série de crônicas assinadas, a partir da segunda, pela letra I. Consultado a propósito da autoria desses trabalhos, CDA assegurou-nos que iniciara a série, sendo os primeiros escritos de sua autoria exclusiva. Mais tarde, não recorda exatamente quando, alternou com João Alphonsus a redação das crônicas; a partir, talvez, do terceiro ou quarto mês, João Alphonsus assumiu sozinho a autoria delas. Em virtude dessas declarações, achamos conveniente registrar apenas as crônicas de abril. Por engano de revisão, esta crônica saiu assinada pela letra L. Fernando Py |
A parábola do pai pródigo
A evolução das legendas, mitos e tradições através dos séculos e dos povos, faz-se, muitas vezes, de maneira desconcertante para os indivíduos que amam refletir sobe essas coisas. Não raro, ao cabo de 500 ou 1000 anos, o fato mais ou menos histórico que nos legou a memoria poeirenta as gerações é tão diverso do realmente acontecido ou do realmente contado, em tempo, pelas suas pretensas testemunhas, que, se ressuscitassem, tornariam logo a morrer essas testemunhas, mas de espanto:
– Puxa! Não parece nada com o original!…diriam elas, antes de morrer.
Felizmente, é essa uma hipótese absurda, para sossego dos narradores imaginosos que floreiam as suas narrativas…
Seja como for, é um fato. As legendas modificam-se, evoluindo. Se atravessam o oceano e são assimiladas por um povo de índole diversa, então a modificação é maior.
Ficam sendo legendas absolutamente diversas das primitivas, desabrochando do ronco-mater como aquelas estranhas flores do dr. Burbanck, que conseguia extrair uma rosa de um pé de couve, e uma camélia de um pé de mamão-macho (para só citar dois exemplos…)
A maioria dos homens é fraca, e os homens mentem com facilidade. “Quem não bebe e não mente, não é filho de boa gente”, diz um proverbio sabido. E vai daí…
Há o templo, a raça, o clima, tudo isso influindo sobre a tradição oral e escrita modificando-a, refundindo-a, recriando-a. E depois, há a própria vida. Quando não são os homens que manipulam os fatos, é a própria vida que se encarrega de fazê-lo. E aparecem então verdadeiras replicas modernas de fatos antigos. Aparecem santos com virtudes opostas aos santos antigos, heróis que desconhecem o heroísmo de antigamente, mulheres clássicas com atitudes românticas, etc…
Mas tudo isso a proposito de quê?
A proposito de uma simples e curta “Declaração” aparecida ontem na seção paga do “Minas”, e que se transcreve a seguir, com exclusão dos nomes próprios:
“Declaro ao sr. B.A.F., por não saber onde se acha, que pode comparecer no serviço do qual retirou-se, visto nada haver – Belo Horizonte, 3 de abril de 1927. E.C.M. “Reconheço a firma supra”, etc.
Essa declaração é, a meu ver, nada mais nada menos que a parábola do filho prodigo invertida pela ironia da vida.
Já não é o filho que é prodigo. É o pai. O filho ainda abandona o lar paterno, mas devido à cara carrancuda do progenitor. Este arrepende-se da carranca e dirige um apelo ao filho, pelos jornais, como convém aos apólogos modernos.
E para inspirar maior confiança à tenra ovelha desgarrada pela inépcia do pastor, manda reconhecer a firma por um tabelião. O pequeno pode regressar sem susto aos penates???. Não há nenhum molosso à porta vedando o ingresso. Há o pai, de cara alegre, com o vitelo já morto, a mesa posta e a firma reconhecida…
Até as parábolas evoluem, Santo Deus.









